Sunday, April 3

bAcK tO yOu

Na última hora correu para o aeroporto.
Não pensou em explicações contundentes, agarrou o casaco e foi.
Apanhou um táxi que nunca mais chegava e se rezasse teria ido todo o tempo a pedir nevoeiro cerrado para atrasar a partida.
Nem bem saberia o que dizer.
Uma coisa de cada vez e agora o importante era chegar.
E aquele táxi que não andava, e o condutor com as desculpas da praxe, a conversa sobre o tempo, o trânsito.
E a estrada vazia, as luzes da rua sucumbindo atrás de si com o anunciar da madrugada.
Via já o clarão do aeroporto. Sentiu um frio no estômago.
E o condutor que não se calava com as desculpas da praxe, a conversa sobre o tempo, o trânsito.
Não se lembra de ter parado em frente ao terminal das partidas, não se lembra de ter pago o táxi.
Olhou para o relógio, tinha já começado o check-in.
Dirigiu-se rapidamente para as portas de entrada e no último segundo deteve-se.
Ficou ali em frente às portas automáticas com o sensor a detectar a sua presença e a abrir e fechar repetidamente, confuso com a falta de decisão, com a inércia que veio assim de supetão.
O que diria se resolvesse entrar? Qual iria ser a reacção? Não tinha nenhuma justificação plausível para ali estar.
Como iria ser este encontro? Que poderia explicar tamanho despropósito?
Que tolice esta... para o que haveria de lhe ter dado... assim, sem mais razão que um olhar que durou uns segundos além que o comum.
E as portas furiosas a abrir e fechar insistentemente, as pessoas atrasadas que se acotovelam para entrar, o ruído dos aviões que começam a descolar.
Via instantâneos de despedidas do lado de dentro do terminal, cortadas pelo fechar da porta automática e do seu reflexo inerte plasmado nela.
Sem precisão de relógio sentia os minutos atravessarem-lhe as entranhas deixando tudo gelado, dormente.
O tempo que lhe escorria pelas mãos com a areia de uma ampulheta.
Não se conseguia forçar a entrar, as portas sempre a fecharem quando parecia que a decisão ia chegar.
Com ar de zombaria abriam-se depois, em tom de desafio deixando antever tudo o que poderia estar para vir.
Mantinha-se na inércia, no temor de um acolhimento menos efusivo, na falta de justificativas para atitude tão despropositada.
As portas fechando e abrindo como se controladas por um desígnio superior, como se escarnecendo da sua hesitação.
Não lhe restava muito mais tempo para persistir naquele torpor.
Doíam-lhe as mãos do frio sibilante daquela aurora de Inverno.
Doía-lhe o corpo todo do tremor da incerteza.
E as pessoas que entravam animadas, carregadas de malas e de expectativas.
A porta sempre a fechar e abrir, o sensor a detectar a sua presença, confuso com uma indecisão pouco comum em quem desta porta se aproximava.
E o seu corpo preso ao chão, as suas mãos geladas da dúvida, a sua indecisão plasmada nos vidros brilhantes da porta automática.

for the rest of the days...

Eu fiz-me ridícula.
Nessa tua parcimónia de actos e palavras tornaste-me risível.
A mim, plena de experimentações que não foram, a quem nunca transpareciam os sentimentos.
Deixaste-me nua da minha solidez.
Paira no ar o pó a que reduziste as minhas fortalezas.
Encontro-me feitora de domínios sem préstimo.
Eu, com as minhas certezas desacreditadas, subjugada a uma inefável contingência.
Eu faço-me ridícula.
Insistindo em sugestões do que não há-de ser.
Teimando em arroubos do improvável.
Perseverando em quimeras indeléveis.
Neste engano dos sentidos, nesta ofensa a uma inteligência que teimo em manter encarcerada, torno-me risível.
Estou simplificada ao que deixei de ser.
Venho-me desfazendo num orvalho que se foi condensando na tua janela, e que à força de tanto persistir se desfez em gotas que escorrem agora para algum mar interior.
Rios de água evaporada para aplacar queimadas de labirintos sem árvores.
Com tudo isto fiz-me risível.
E por tudo isto não achei feitio de me reparares graça.

everyday... never...

Deixava-se ficar imóvel todas as manhãs.
Escutava o despertador dele e falseava continuar dormente.
Ele levantava-se, ia para a casa de banho, abria o chuveiro e ela nem se mexia.
Ficava quieta a imaginá-lo debaixo daquela sólida cortina de água quente.
Nem mudava de posição para ele não a desconfiar atenta.
Depois o calor e os cheiros que inundavam o quarto quando ele abria a porta e saia enlaçado numa nuvem de água sublimada.
De olhos cerrados assistia aos arranjos cuidados dele que, incauto, não fazia o menor ruído para a não despertar.
Quando estava pronto sentia-o hesitar entre um beijo de despedida e o receio de a acordar.
Ganhava o receio. E ela sempre inerte.
Só depois de o ouvir bater a porta, só depois de o sentir entrar na garagem, fazia alguma diligência para se despertar.
À noite persistia na fabulação.
Era assim que vinham evitando encontrar-se.
Era assim que os dois conseguiam coexistir sem nunca se descobrir.

no more...

Que o largasse, que isto assim não podia ser. Não podia.
E sempre as suas mãos por todo lado.
E ele sempre com a mesma atitude reticente, repetente.
A boca que murmura uma coisa e os olhos e o corpo que clamam por outra.
Que não podia ser. Que tinha a mulher, os filhos pequeninos, o cão, a hipoteca da casa.
Que não podia ser.
Mas era sempre.
Fora sempre assim desde que se conheceram e seria sempre assim até ela dizer basta.
Ambos o sabiam bem.
Mas ainda assim, ou talvez por isso, tinham-se quando não podiam, onde não queriam.
Em todo lado, sempre.
E ele sempre que o largasse, que isto não podia ser.
Mas não havia outra forma menos fugaz, menos dolosa para existirem.
Nem mais veemente, mais imponderada, mais insistente.
E nunca podia ser.
Nunca podia.

a duas mãos

Most of the time she did not know what to do with herself.
Or with him for that matter.
Passavam horas imaginando experimentar-se a mezza luna.
Depois separados, cada um no seu cubículo aguardando que por dissonâncias magnéticas, que por desequilíbrios do sistema os pensamentos dela chegassem à cabeça dele, as mãos dele chegassem ao corpo dela.
À espera de retransmitir pulsões através dos enleios de cabos telefónicos dispostos aos seus pés.
Mas como para todas as transmissões não autorizadas há sempre uma firewall de plantão, muitas das respectivas assistolias perdiam-se numa rede de fios de água.
Tamanha repetição de impulsos interferia com os desígnios do servidor comodamente instalado numa qualquer super potência relapsa.
But in deed, most of the time she did not know what to do with herself.
Or with him for that matter.

black, white and grey

Once upon a time there was this colorful prince.
Once upon a time there was this blank princess.
One day the princess stared at a sunflower and found all the colors she had not been looking for.
The prince went about his business and was never to be seen again.
The prince’s eyes were shut to the princess’s colors.
Somehow the prince was disenchanted and the princess lost her new found bright.
A dyed princess trapped inside a canvas too large to suppress such inexcusable grief.

still words

Um dia encontrou o postal numa gaveta que não abria fazia décadas.
Dizia tão só:

" Tu gostavas de ser diferente, mas és como és e é escusado teres vergonha, não vale a pena. És assim, perfeito, nem podes ser de outra maneira, e eu gosto de ti assim, já te disse. "

Sempre soubera que havia palavras bonitas.
Naquele dia arrependeu-se de nunca ter mandado o postal.
Agora seriam para sempre apenas palavras mudas paradas num tempo passado, inútil, perdido.

for this night only

Tinha as palavras espalhadas pela casa toda.
Via letras desordenadas pelas paredes, gotejavam vocábulos descabidos de cada torneira aberta.
Esbarrava com frases duras pelo chão entre a cozinha e o escritório.
Não havia nada a dizer e ela a chocar com elocuções obstinadas por tudo o que era canto.
Via-as penduradas nas cortinas, manhosas, escorregando pelas ombreiras das portas, espalhadas insolentemente em cima da cama.
Jorravam das estantes e escorriam, grosseiras, pelas beiras do sofá.
Havia palavras frias dentro de cada recipiente, bazando secamente de todos os copos, nadando descontraidas em cada tigela vazia.
E quando se deitava achava-as entre os lençóis, ásperas, desconfortando-lhe a alma, roubando-lhe o sono.
Abria os olhos e tinha-as especadas no tecto, incandescentes, a corromper-lhe a retina.
Levantava-se, andava descalça pela casa e magoava os pés em palavras rasgantes, hostis.
Agarravam-se-lhe aos tornozelos, irascíveis, tolhiam-lhe os movimentos.
Sonegavam-lhe a clareza, melindravam-lhe o espirito.
Em casa existiam também as outras.
Armários plenos de palavras melífluas, ternas, balsâmicas para os melindres que se ia inflingindo.
Temia abri-los com receio que lhe escapassem.
Fazia anos que as não via.
Mantinha-se carcereira de vocábulos prazenteiros.
Nalgumas noites insones, com afirmações agrestes já a escalarem-lhe as pernas, espreitava pelas frinchas dos armários para se certificar que ainda lá estavam.
Ao aproximar-se sentia o estomâgo borboletear e via as correntes verbais que lhe estorvavam os passos recuar para a sua parcimónia.
Era assim que as sabia ainda lá.
Voltava então para a cama sacudindo os lençóis para se libertar das sentenças que lhe aguilhoavam o sono.
Pelo menos por esta noite dormiria sossegada.
Colhia nos muros as palavras que espalhava como sementes numa ilusória página negra.
Colhia nas paredes a significância das coisas que lhe faltava viver.
Mas o muro esgotava-se e a voz dele também.
Precisava de encontrar rotas novas para poder continuar a encher aquelas folhas.
As páginas em branco sempre a haviam incomodado...

everyday... always

Invariavelmente voltava todas as noites a casa dela.
Umas vezes ela permitia-lhe a entrada. Outras não.
Ele, estoicamente, perseverava.
Vencê-la-ia pela lassidão.
Vencia-a já pela doçura...

temporary blindness

Às vezes à força de tanto abrir os olhos não vemos o que está mesmo à nossa frente.
Esfregamos a vista, arregalamos as órbitas, dilatamos a retina para nos manter cegos ao que nos está defronte.
Se por acaso nos surge algum lampejo de realidade, imputamos tal disformidade a um qualquer cisco que nos mutila momentaneamente a íris, que nos enxovalha o cristalino.
Não fomos feitos para ver.
Não estamos desenhados para observar.
Não fomos pensados para atentar no real, no palpável.
Fomos concebidos para imaginar.
Fomos planeados para sonhar.
Fomos gerados para idealizar.
A realidade entra em nós qual incendiário por campo de trigo seco e com celeridade apaziguamos o (ar)dor das chamas com uma previdente e onírica liquidez.
Às vezes à força de tanto abrir os olhos desconectamos os demais sentidos.
Apagamos o gosto, desfazemos o tacto, extinguimos a audição, aquietamos o olfacto e abatemos a razão.
E depois só nos sobram um olhos ostensivamente abertos.
Só nos restam uns olhos por demais grandes para fazer seja o que for que não seja desfazer-se no humor vítreo que persiste em nos turvar o desvario.

O ponto final

Esteve anos sem dele saber nada.
Um dia numa festa uma amiga contou-lhe que ele tinha sido pai.
Sentiu-se escoar pelas frestas do chão.
Evaporar-se pela janela em laivos de fogo fátuo.
Nem sequer soubera que ele tinha casado.
Ainda tinha ouvido dizer que andou uns tempos pelas festas com uma miúda nova, estrangeira de pernas esguias, mas depois nada mais.
E agora um filho.
Ele que nem queria filhos.
Ficou zonza. Fugia-lhe o chão.
Na verdade mal pensara nele durante estes anos.
Logo depois do fim, sim, ainda lhe vinham desejos dele, nas noites mais frias, mais solitárias, quando não passava nenhum filme na televisão e era tarde para ir ao videoclube.
Recordava-se do cheiro das panquecas que ele fazia quando ela estava triste e vinha-lhe uma dormência melancólica, uma incerteza sobre se teria tomado a escolha devida.
Mas depois adormecia, nascia o sol, sentia-se alentada e tudo ficava na gaveta da lembrança de uma noite esquecida.
E com o tempo a memória, caprichosa, foi ficando mais ténue, mais esbatida, mais plena de novas sensações.
Agora de súbito esta bofetada.
Sentiu-se desfalecer.
Um filho.
Uma mulher.
Viu-se traida.
Viu-se trocada.
Viu-se um resíduo de uma memória ultrapassada.
Ela que era a que seria para sempre.
Ela que era a que não haveria jamais outra.
Era agora a parte do passado dele que não durara.
A parcela da lembrança que fica perdida junto com os berlindes esmurrados e os carrinhos sem rodas.
O pedaço que esquecemos junto com os cromos de jogadores de futebol guardados numa velha caixa de sapatos.
Nunca mais poderia voltar atrás.
Desfazer o equívoco, refazer aquela história, recomeçar aquela vida, reconstruir aquele passado.
E agora um filho.
O filho que era o iníco da vida dele e o fim da eventualidade dela.

Por lado algum

E depois pode até nem ser nada disto.
Por-se a pensar nisto e naquilo para não se lembrar deste ou daquele de quem não se pode saber nada e que não paramos de encontrar em todo os recantos onde nos tentamos eclipsar.
Na mesinha de cabeceira ao acordar, no banho, no frasco de perfume, no vidro do carro, na parede da casa cor-de-rosa, no muro de jardim, omnipresente até à exaustão.
E entretanto de ti nada.
Não ter a mais ínfima ideia de para onde foste quando já aqui não estavas.
Diz ai nessa água toda que te já foste de verdade.
E eu sem ter a mínima ideia de ti.
Só a te encontrar todos os dias em lado nenhum.
A encontrar-te por ai nos sitios onde não vou.

memória sem fim...

Um dia tivera um filho.
Um bébé adorável com umas perninhas gorditas, pele cor de rosa e uma gargalhada que fazia o mundo desaparecer.
Que passava o dia a brincar com as pequeninas mãozitas e a olhar para as mil estrelas de cores infinitas que ela colara no tecto por cima do berço meses antes de ele nascer.
Que balbuciava feliz palavras imaginárias numa conversa secreta que ela conhecia de cor.
Um bébé que não se parecia com a mãe nem com o pai, que tinha olhar de oceano e um narizinho para beijos de esquimó.
Um dia tivera um filho.
Depois, um dia perdera um filho.
Perdera um filho diziam.
Como se perdem as chaves do carro, se esquece o telemóvel nalguma loja ou não se regam as plantas quando vamos de férias.
Perdera um filho como quem não sabe onde deixou um livro, como quem se esquece de tomar o pequeno almoço ou perde a lembrança do aniversário de um amigo.
Perdera um filho diziam.
Não se lembrava de nada.
Talvez fosse por isso que diziam que perdera o filho.
Lembrava-se dos sorrisos do seu bébé todas as manhãs durante o banho, do agitar das pernitas enquanto tentava vesti-lo, ou das sessões de cócegas durante as intermináveis tardes de brincadeira à sombra.
Não se lembrava de o te perdido.
Recordava-se do dia em que o trouxe para casa, da primeira vez em que o deitou no berço e entrou no quarto dele um milhão de vezes durante a noite para lhe escutar o respirar pausado.
Não se recordava de o ter perdido.
Tinha-lhe o cheiro nas mãos, a suavidade da sua pele recém moldada.
Via-lhe ainda os deditos rosados curiosos de todas as formas novas.
O perscrutar inquisito de todas as cores à sua volta e os olhitos profundos pendentes do som da voz dela.
Não tinha memória de o ter perdido.
Perdera um filho diziam.
Como se perde o instante do pôr do sol depois de um dia de praia, como se perde a queda da última gota de chuva no fim de um domingo triste de Março.
Perdera um filho como se deixa fugir o momento do primeiro beijo ou se não nota o suspiro de um amigo.
Perdera o filho cujo calor ainda sentia nos braços.
Não tinha lembrança de coisa alguma que não o seu filho.
Tinha um entorpecimento espalhado pelo corpo, dentro da entranhas, bem até ao fundo da alma.
Não tinha lembrança de coisa alguma que não fosse o seu filho.
E não tinha esperança de coisa nenhuma que não fosse o seu filho perdido.

(in)consciências

Foi sempre assim.
O começar e a acabar sempre a repetir-se.
Penso isto enquanto me dispo para o banho.
Cada peça de roupa uma delonga interminável, antecipando a gula que por mim se passeia, infinita, inextinguível.
Lembras-me um verão interminável de milhares de hectares ardidos e fatalidades em autoestradas que nunca se esvaziam.
Lembras-me uma noite de lua cheia a gelar as águas de algum mar interior.
Entro na banheira no ápice em que te destruo os princípios, em que derrubo a grua que sustem as fundações ainda em embrião.
Agora na água não te sinto o ardor, não me estremece o toque, confundo-te o sabor.
Lembras-me uma indolência sem sonhos nalguma cama perdida na penumbra, de um entorpecimento sem sobressaltos de uma tarde de domingo de chuva.
Penso nisto tudo enquanto a água me ocupa as reentrâncias das quais te desejo feitor.
Lembras-me as gotas de chuva que escorrem pelos vidros do carro a uma velocidade despropositada a caminho de lado nenhum.
Lembras-me a pele queimada de um sol de mediterrâneo e um bálsamo de beijos gulosos a desfalecer-me pelas costas.
Lembras-me uma noite de fogos de artificío reflectidos num rio negro a serpentear uma cidade insone.
Penso nisto no instante em que a pele se me encarquilha, à mercê de um água impiedosa que te deixou arrefecer.
Lembras-me as horas estagnadas numa qualquer urgência hospitalar, num banco de jardim parado no tempo de um velho que obliterou o caminho de casa.
Lembras-me a memória de coisas que não foram, do raso que é o passado que não acontece.
Lembras-me o extemporâneo de emoções insensatas, da inconsciência de um dia útil com sessão da tarde.
Lembras-me uma noite de flashes cadentes na escuridão de uma serra perdida num inverno de um frio seco.
Esqueço isto enquanto o roupão me reconforta o espirito e me socorre da hipotermia em que estes pensamentos me submergiram.

a (des)propósito

E de repente no meio do dia pensar-te.
Tu és terrivel aí sentada com essa tua boca em estado de pura provocação.
Gostas de me atormentar não gostas?
Essa tua boca como água para a minha sede.
Quando humedeces esse teu segmento carnudo empalideço...
Depois mordiscas a comissura e endoideces-me.
É desígnio teu fazer-me perder o tino, confessa...
É teu propósito desprover-me da circunspecção a que me constrange este sítio, admite...
Pára de me olhar, não vou fazer nada, agora, aqui.
Não posso, percebes-me?
Vá, pára com isso, não te resisto, tu sabes-me...
Escorrega-te a alça do vestido... malvada, estás a tentar-me reconhece...
O ombro assim nu, esse lábio humedecido e eu aqui sem poder cumprir as promessas que tu fazes.
Pára por favor.
Não toques nesse vestido, se sobes um centímetro que seja desresponsabilizo-me.
Deixa-te estar quieta, não me olhes assim.
Daqui a pouco tenho uma reunião e olha o meu estado, esta descompostura.
Coloca a alça no sítio.
Não me olhes já te pedi...
Porque me infliges tamanho tormento?
Já te disse que não posso fazer nada, daqui a pouco tenho a tal reunião.
Não posso estar para tamanho disparate.
Mas tu não recompões a alça?
E essa mão, larga o vestido, por favor...
Que raio de vestido esse que se te cola às curvas e me deixa adivinhar-te os propósitos.
Aqui, no meio dos meus papéis, tanta folha perdida, para o que me havia de dar, lembrar-me de ti nesta hora, com a tal reunião a começar não tarda nada.
E tu aí sentada nessa cadeira, à minha frente, a quebrantar-me o ânimo.
Não dizes nada malvada?
Satisfazes-te em me debilitar o dia, em me abalar a intenção.
Essa tua boca transtorna-me, não te posso olhar mais nessa sinuosa promessa do que está para vir.
Que ombro esse que não se deixa resguardar... tamanho impudor não se afigura cabal.
E essa fissura rubra, insidiosa, enclausura-a de vez porque aí tão perto não me afianço.
Repara que não é má vontade, é a tal reunião, daqui a pouco tenho que ir, e não estou lúcido.
Esse teu ombro desnudado, esse teu lábio trémulo, o teu vestido cheio de curvas, não há quem se abstenha.
Agora vais ter que me perdoar minha querida, tenho que ir... a tal reunião eu disse-te, já me chamaram.
Fora tudo demasiado instantâneo.
E aquela voz na sua cabeça o tempo todo.
Quisera ter tempo de fugir, de se esconder.
Observou ao redor, procurou cantos para se esconder, olhou debaixo da cama, dentro do armário, atrás de uma porta mas nem um espaço vazio onde pudesse passar despercebida.
Iria ser encontrada, sentia que estava prestes a ser encontrada.
Doia-lhe a cabeça, sentia os nervos no estomâgo, dificuldades em respirar e uma pressão na base das costas.
Fisicamente estava prestes a desistir, anímicamente não lhe restavam energias para mais pelejas.
Estava cheia de contradições... de incertezas... de insegurança... de receio... nem sabia bem porquê...
Às vezes o que se diz muda tudo... mas outras é o que deixou de se dizer que nos transforma, que nos transtorna indelevelmente.
E aquela voz na sua cabeça o tempo todo...
Observou em redor, procurou cantos para se esconder, mas não havia fuga possivel.
Tinha-se a si própria durante todas as horas de todos os dias até que não houvesse mais tempo.
E por enquanto tempo era tudo o que tinha.
Isso e aquela voz na sua cabeça o tempo todo...

divergência de saberes

És como um devaneio que me derrota de todas as vezes.
A minha força rendida a uma vontade à qual voluntariamente me submeto.
Se te pensasse bem, concluiria que não és assim tão poderoso.
E no entanto subjugas-me com o teu olhar, incineras-me com a tua vontade.
Feneço pelo toque das tuas mãos.
A minha pele por onde desliza a tua intenção.
O teu cheiro que me aprisiona os desígnios, me transtorna as noites e me esvazia os dias.
Se te pensasse bem saber-te-ia as falhas, as imperfeições.
Mas persisto neste arroubo, nesta contingência sobre a tua carência de mim.
A tua boca na mais tentadora das subversões.
Por ti travessias de desertos de sal, por ti extinção da espécie, a minha...
As tuas mãos por mim com água num dédalo inflamado.
Uma precisão de ser con(tida) por ti.
Evito-te nas horas de maior inclemência.
Refugio-me à tua frente, onde não me vês, na esperança que não me encontre a tua omnisciência.
Na certeza de que é tudo improfícuo.
Saber-te senhor de designíos incautos cujo desenrolar aguardo irascível.
Se te pensasse bem saber-te-ia descobrir os medos, conhecer as dúvidas.
Mas a tua boca por mim, o teu desejo na minha pele, o teu gosto na minha língua, entorpecem-me os sentidos, anestesiam-me o raciocínio.
Neste desvario nem sei de mim, da minha razão, só (n)este delírio.
As tuas palavras nos meus olhos, a tua voz na minha mente.
Mas se te pensasse bem... se porventura te conseguisse saber...

a vida num folheto

Um dia resolveria não voltar nunca mais.
Precisava de se esquecer de tudo por ter sido esquecido.
Abandonara a sua casa, o seu trabalho, a sua vida, pela certeza de uma promessa.
Um dia, depois de uma noite voltara aquele lugar, só para divisar que ela se tinha esquecido dele.
Andou por ali algumas horas, alguns dias, não se recordava já.
Ela nunca apareceu.
Afixou cartazes, colou avisos, espalhou folhetos, lançou apelos e dela nada.
Esquecera-se dele.
Ter-se-ia enganado no dia? No mês, no ano? Na vida?
Mas persistiu por ali na esperança de a reencontrar.
Ia sentindo-se morto.
Revivia com fervor as lembranças daquela noite, a todos os momentos efémeros que tiveram.
Procurava indicíos que pudessem revelar esta ausência.
A pele dela demasiado branca à luz daquela lua.
Os olhos demasiado incisivos depois de cada resposta.
O cheiro dela no orvalho daquela madrugada.
O gosto dela na mistura das palavras, no som da distância das vozes.
Depois os momentos no parque (como é que ela agora podia ficar assim sem se lembrar dele...), a relva amassada onde os seus corpos antes.
Uma cidade que agora lhe parecia agressiva, gélida, num inverno que teimava em não findar mais.
E todos os dias a peregrinação ao lugar acertado.
Ele fenecia a cada hora.
Dentro de si ruira já a pedra angular de um castelo de ar que construira com suspiros de desespero.
Um dia resolveria não mais voltar.
Por enquanto afixava cartazes, colava avisos, espalhava folhetos, lançava apelos.
Tornou-se figura rotineira de quem por ali circulava numa azáfama que não permitia contemplações.
Uma noite, do nada, tudo lhe pareceu excessivo, impossível, inatingível.
Um dia, a seguir à noite em que resolvera nunca mais voltar, encontraram-no sentado num banco, glacial, extinto, nas mãos um folheto com o nome dela e uma imagem, gasta à custa de tanta contemplação.

a train to nowhere land

Pensar-te o dia todo.
Acordar e ainda na cama pensar-te. E tu sempre ali.
Depois no banho, tu ainda deves estar a dormir, e a água por todo o lado onde antes, num comboio, as tuas mãos.
Visto-me e tu ainda dormes.
Aí nesse sono nem me notas certamente.
No autocarro e ainda tu.
O teu nome nos muros, os teus olhos na luz que vejo reflectida do rio.
Mais tarde a tua voz oculta, já desperto, nas palavras que leio.
E quando te ouço pareces-me abstracto, entretido numa realidade que não a minha.
Eu com os meus decretos pessoais, os meus papéis definidos e o meu rosário diário.
O que trocava pelas tuas mãos como água por mim.
O que trocava pela tua voz nas minhas mãos.
Os dias devagar quando me apeteces, como pleasure delayers de um tormento que não decidi.
Ápices efémeros em que me sugestiono que te tenho, a tua memória na minha boca como água que não bebi.
Depois os outros, os seus julgamentos incipientes, as suas justificações.
E eu com vontade de te ter ali mesmo para escândalo do presentes.
Despojá-los a todos do olhar de agravo e ter-te ali mesmo.
O dia todo nesta indolência dormente.
Pensar-te o dia todo.
Voltar para casa.
O mesmo nome nos muros, os mesmos olhos nas luzes da ponte.
Querer-te encontrar onde te deixei, no mesmo sono.
Mas agora estás mais desperto que eu.
Mais tarde precisarei de um comboio para te ter.
Mais umas horas e chegas cá. Tu sempre ali.

a ausência de luz

Estivera fora muito tempo.
Pelo menos era assim que os que o conheciam se referiam ao incidente, à recuperação.
Meses antes tentara matar-se.
Quase conseguia até, não fosse a empregada ter resolvido que naquele dia limparia os vidros da sala, e por isso chegava mais cedo que o costume.
Encontrou-o no chão da sala, a exaurir-se em sangue.
Em cima do tapete branco que Luz lhe oferecera.
Depois foi a correria para o hospital, o ruído distante das pessoas à sua volta, a luz branca a magoar-lhe os olhos.
O tapete branco agora já não tão branco.
Depois foram as visitas dos amigos, as suas reacções contidas, os seus sorrisos tristes ao olhar para os pulsos dele, os meses de terapia.
Os sussuros, o atribuir de culpa, a fraqueza dele por causa dela.
Meses antes quando lhe oferecera o tapete estava longe de imaginar que algo assim pudesse acontecer-lhe.
Quando se conheceram, adoeceu.
Havia sido por demais forte a impressão que ela lhe provocou e o seu corpo reagiu em desordem.
Ela com os seus olhos negros, com o seu caminhar persuasivo, a sua indiferença mordaz, nem o viu naquela noite.
Ela ocupada a ser disputada por todos os homens da festa, nem o notou.
Naquela noite não imaginava que dentro de uns dias estaria na cama dele.
Dentro de umas semanas ele sabê-la-ia de cor.
Dentro de um mês não a conseguiria tirar de dentro.
Teve que se matar para conseguir escapar-lhe e nem isso foi capaz de fazer.
Quando ela se ia embora ele achava-a por todo lado.
Via-a em cada mulher com quem se cruzava.
Sentia-lhe o cheiro em cada lufada de ar, o sabor em cada coisa que levava à boca.
O calor da vontade dela queimava a pele dele.
Passou a tomar 3, 4, 5 banhos por dia para apaziguar tamanha exaltação.
Teve que ir ao médico porque não havia nada que lhe parasse no estomâgo e perdia peso a olhos vistos.
Depois ela voltava e era a opulência.
Nunca lhe dava explicações, ele também não pedia.
Ainda tentou das primeiras vezes. Estranhou que ela se tivesse ido assim, sem uma palavra e voltado no mesmo silêncio.
Mas a reacção dela à pergunta fez-lhe ver que aquilo não era assunto para se falar. E nunca mais perguntou.
Espera que viesse e enquanto não vinha endoidava.
Mas agora estava ali e esquecia-se de tudo. Vivia-a somente.
Desta vez parecia que se lembrara nele durante a ausência, trouxera-lhe um tapete branco, enorme, para o chão da sala.
E naquela noite teve-a, infinita, naquele tapete.
Daquela vez ela parecia mais presente, mais confiada ao momento.
As pernas dela à sua volta, a boca insaciável, o corpo dela que fervia, os olhos ainda mais profundos.
Na pele dourada cada poro exalava a vontade que a consumia.
Ele parava a cada momento para se certificar que Luz estava mesmo ali, que aquilo acontecia mesmo com ele.
Amanhecia já quando finalmente adormecera.
Lembrava-se que os primeiros raios de sol entravam já pelas enormes janelas da sala conferindo a tudo um tom dourado, quente, eterno.
Olhou para ela ao seu lado, ainda ali estava, diminuta naquele tapete branco.
Seria a última vez que a via.
Se ao menos tivesse adivinhado... teria perdido mais os olhos nela.
Teria encomendado à retina polaroids eternas de cada milímetro daquela pele.
Depois daquele dia nunca mais o sol roçou aquelas paredes, nunca mais o calor beijou aquele tapete.
Mandou fechar as portadas, correr as cortinas, encerrou-se num mausoléu de escuridão, para não ver a luz daquele tapete.
Aquele tapete com a silhueta dela indelével.
Viveu dias indistinguíveis, na ausência de luz.
Até que um dia acordou com um novo ímpeto.
Tomou banho, vestiu-se, preparou-se para sair,abriu as janelas do quarto, foi até à cozinha, abriu uma gaveta e tirou alguma coisa de dentro enquanto olhava para outra tarte, intocada, que a empregada deixara para ele no dia anterior.
Caminhou até à sala, deteve-se uns instantes na porta, entrou, abriu as portadas, afastou as cortinas, parou em cima do tapete, olhou para o pulso direito enquanto sentia a lâmina cortar a pele, o sangue quente escorrer pela mão, um ligeiro sabor metálico na boca.
Depois o pulso esquerdo com um pouco mais de segurança, maior rapidez, o mesmo sabor metálico a assomar-se-lhe aos lábios.
Sentiu uma vertigem, olhou para o tapete e viu as pintas de sangue que agora lhe escorria em fio dos pulsos, largou a faca e deixou-se cair.
Perdeu a consciência devagar, ao mesmo tempo que sentia o calor da pele dela naquela noite, o cheiro dela à sua volta, a boca dela por todo lado, os olhos dela como abismos.
Depois, foi todo aquele circo de luzes, de sons, de visitas de amigos com sorrisos tristes.
Tudo porque a empregada decidiu que era dia de limpar as janelas.
Assim que voltou da clínica mandou queimar o tapete.
Ah, e claro, despediu a empregada.

loucura desencontrada

Chegou a casa e sobre a mesa estava a correio.
Um postal colorido com ponto de interrogação no centro.
Escrevera apenas - Não podemos seguir com isto assim, vamos cometer uma loucura, encontras-te comigo às 7 horas na Liberdade, naquele café que adoramos?- mais nada.
Virou e revirou o postal e nada. Fora enviado no dia anterior, correio expresso, chegara naquela manhã, fora a empregada quem recebera.
Ela pensou que aquilo não era possivel. Não queria acreditar que ele ia fazer aquilo, estava tão longe, como chegaria tão rápido...
Teve um impulso de lhe telefonar apesar de terem combinado que não se telefonariam. Resistiu.
Ele devia ter planeado tudo na véspera.
Se ao menos tivesse sabido antes.
Não teria saido tão cedo esta manhã, ficaria na cama um pouco mais, tomaria o seu tempo para se arranjar.
O coração bateu-lhe mais forte.
Não era possivel.
Mas o postal era claro - encontra-te comigo na liberdade, 7horas, vamos cometer uma loucura- não deixava margem para incertezas.
Correu para o quarto, abriu o armário, escolheu o vestido preferido que por sorte estava engomado.
O verão tinha chegado finalmente, o dia estava quente e a noite também estaria de certeza.
Olhou-se ao espelho, despenteou o cabelo um pouco, ainda não lhe conhecia o penteado novo, será que ia gostar...
Foi à cozinha buscar um copo de água, lembrou-se que não tomara pequeno almoço e começava a ter fome.
Podia dormir um pouco antes do almoço.
Escureceu o quarto, deitou-se em cima da cama fresca, adormeceu.
Acordou despertada pela empregada - A Menina desculpe mas como não fez barulho o dia todo, tive medo que estivesse doente- dissera baixinho.
Que horas seriam, o susto, era tardissimo, quase 6.30, chegaria à justa se se despachasse.
A última coisa que queria era deixá-lo à espera.
Saiu de casa numa correria, apanhou um táxi, chegou mesmo às 7h.
Olhou à volta, a esplanada do café estava cheia àquela hora, como imaginara.
Ele teria sabido isso, tinha lá ido tantas vezes.
Mas esperaria um lugar, talvez ele estivesse já lá.
Olhou à volta novamente, não estava lá, a impaciência crescia.
Entretanto ele chegou.
Olhou em volta e não a viu.
Estava vento, esperava que ela se tivesse lembrado de trazer um casaco.As noites ultimamente estava muito frias e ela adoecia com facilidade.
Que loucura -pensou. Como será que ela teria conseguido arranjar-se para chegar a horas...
Olhou para o telemóvel. Bem sabia que tinham decidido não se telefonar, mas com tamanha loucura em curso achou que não podia correr o risco de se desencontrarem.
A esplanada do café estava vazia, era do vento frio.
Lembrou-se da última vez que ali estiveram à uns meses no fim do verão, aquilo fervilhava de gente.
Sentou-se ali mesmo no centro, para não perder um instante da sua chegada.
Ela continuava de um lado para o outro cada vez mais impaciente.
Viu as horas no telemóvel, 7:3O, não era costume ele atrasar-se.
Ainda bem que tinha decido trazer o telemóvel, em último caso violava o acordo e ligava-lhe, não podia correr o risco de se desencontrarem com esta loucura em curso.
Ele puxou a gola do casaco para cima, estava a ficar mais frio. Ela estava bastante atrasada, era já 7:50.
As luzes da rua estavam já acesas, viam-se menos carros, menos pessoas.
Olhou para o telemóvel, ia esperar mais 10 minutos e ligava.
Ela notou um casal a deixar a esplanada e sentou-se.
A cidade fervilhava aquela hora. Estava abafado e o sol ainda queimava.
Pegou no telemóvel, eram 8 horas, ia ligar, a impaciência estava a deseperá-la.
Ele olhou para o relógio, pegou no telemóvel, carregou no speed dial dela e ouviu o toque de chamada.
Ela olhou para o visor, viu o nome dele a piscar. Tremeram-lhe as mãos.
Atendeu, uns segundos de silêncio e dois - Onde estás,que não te vejo- simultâneos.
Sentado na esplanada vazia, bem no centro - responde ele- de frente para o Palácio.
Como assim- diz ela- A esplanada está cheia e não te vejo. Palácio, que Palácio, meu querido? - perguntou ela sem perceber nada, com o coração na boca já.
Pararam os dois um instante que pareceu uma vida, e o barulho daquele silêncio descomunal pelas linhas telefónicas ecoou como um anúncio do fim do mundo.
Perceberem, ao mesmo tempo que continuavam ainda nos respectivos paises.
Estavam ainda em liberdades diferentes.

it could happen to you

Chegar assim de surpresa.
Sem avisar, ligando só para dizer que estou aqui, que cheguei.
Sentir-te a voz incrédula do outro lado da linha.
Fazes uma brincadeira do tipo " ah , ok tão espera um minuto que estou a descer"
E eu a pedir desculpa, mas que te despachasses que estava frio e eu não gostava de estar ali só ao frio numa cidade estranha.
Tu mais incrédulo, a perguntar se estava a brincar, que aquilo não era possivel.
Eu a garantir que não, que estava mesmo ali, do outro lado da rua em frente ao Mac.
Que vejo a luz da tua sala ainda acesa e a tua sombra a passear de um lado para o outro enquanto falas comigo ao telefone.
Tu descrente a olhar pela janela, a repetir que não era possivel, a tentar ver-me lá do alto.
Eu a ver-te e a acenar com uma mão inutilmente, o telefone na outra, enregelada.
E tu sem me ver, mas cada vez mais convencido que estava ali.
O frio no teu estomâgo, as borboletas no meu.
Pousas o telefone, amparas-te na mesa assim que dás um passo para a porta.
Tomas um minuto para recuperar a sensatez, a compostura, afinal não é nada de mais, é só ela ali do outro lado da estrada, ao pé do Mac, ao frio, já está a ficar escuro.
É mesmo ela, será possivel, um átomo de dúvida.
Mais uns passos em direcção à porta, a mão no trinco, as pernas um pouco trémulas
Abres num ímpeto, uns passos em direcção ao elevador.
Eu aqui ao frio, não gosto de cidades novas quando está frio, escurece e estou sozinha.
Sou medrosa, os rostos duros, as pessoas que caminham depressa, que chocam comigo parada, fazem-me estremecer.
Quando aqui chegares não me vai importar o frio, o escuro, mas por enquanto ainda nem chegaste ao elevador e as minhas mãos começam a ficar roxas, o rosto a perder a cor.
Vim preparada para tudo menos para o frio.
E tu ainda a chegar ao elevador, se viesses pelas escadas já cá estavas, penso.
Se fosse pelas escadas já lá estava, pensas.
O elevador sobe, 2º, 3º, 4º, pára no 4º... recomeçou a subir, 5º, 6º, 7º enfim.
Que tormento, tu sem saber bem o que é aquilo tudo, ela do outro lado da estrada.
Abrem-se as portas, -Vai subir- avisam.
Hesitas sobre se entras ou esperas.
Entras, 8º, 9º, abrem-se as portas saem as três pessoas.
Ficas sozinho, começas a descer, um turbilhão dentro de ti.
Ela lá fora do outro lado da rua, em frente ao Mac ao frio, está a escurecer, e sabes que não gosta de estar sozinha numa cidade nova.
3º, 2º, 1º, hall....
As portas demoram uma eternidade a abrir, última hipótese para escapar, evitar tudo que por ai vem.
As portas abrem-se, as pessoas apressam-se a entrar e, automaticamente, tu sais.
Três passos para a porta da rua, já vês o Mac do outro lado, não a consegues ver ainda.
Nova molécula de descrédito.
Estou com frio. Um senhor apressado chocou comigo, magoou-me o tornozelo.
Estou triste, dói-me o tornozelo e tu não chegas.
Vejo as portas de vidro do teu prédio abrirem, sai alguém, serás tu?
É um pouco longe, está escuro, não distingo bem.
As portas de vidro abriram-se e saiste, dás dois passos na rua e já me vês.
Eras mesmo tu a sair, dói-me menos o tornozelo, já te vejo.
Estamos de lados opostos da rua, estás à minha frente, estou à tua frente.
O frio e as borboletas no estomâgo.
As pessoas, os carros que já não vemos, só um arrastar das luzes dos faróis que já precisam de estar acesos.
Passou o frio, o escuro,a descrédito, a dor no tornozelo e a estranheza da cidade, passou tudo.
Estamos os dois ali.

Um alinhavo de um desejo

Era sempre assim o começo.
O estar à espera.
O frio no estomâgo, o arrepio na pele, a vontade de tocar, de provar.
O medo jocoso que nos faz recuar para a frente.
A vontade persistente, a invariável humidade.
A euforia abusiva seguida da abrupta escuridão.
Andar nas nuvens, perder a fome, esquecer as horas, suspirar por um nada, sorrir por um tudo. Morrer na expectativa da reanimação dos beijos.
Exasperar-se com os outros pela impaciência de um.
Ser um disparate constante.
Uma concupiscência fecunda de desvarios.
O descompasso da alma ao ritmo de um coração que não nos pertence.
A destreza de uma imaginação que nunca conjecturamos possuir.
A traquinice de uns olhos que ganham uma indelével luz.
A calma exterior incongruente com a balbúrdia interna.
Uma palermice atrás de outra com o desprendimento de uma criança incipiente.
Sentir a vida num timbre distinto e fazer ouvidos moucos a tudo o resto.
Deixar o corpo fanfarrão alardear sem pudor o que nos vai dentro.
Usar de jeitos e macetes para roubar um beijo que, maroto, teimoso, se esconde no canto de um sorriso.
Esperar, desesperando, acalmando com mézinhas o reboliço que nos vai dentro.
Até que um dia, a panaceia para esta inquietude virá por um mar de água.
Ai a calma, o descanso, o sossego de por fim nos termos encontrado.

the mothman profecy

Queria levá-la para longe de tudo.
Salvá-la de tudo que lhe fazia mal.
A ela, e por arrasto a ele.
Era assim desde que a conhecia, era assim desde sempre.
Era o amigo que lhe oferecia o ombro, que lhe limpava as lágrimas, que lhe segurava a raiva.
Sempre lhe conseguira apagar as lágrimas, secar a dor.
E a dor que a destroçava vinha a matá-lo aos poucos.
Todos os homens da vida dela o iam matando um bocadinho cada dia.
Era assim desde sempre, era assim desde que a conhecia.
Ela havia de recuperar, com a ajuda dele recuperava sempre.
Mas para ele, para ele já não havia panaceia que servisse.
Desta vez os danos eram demasiados, as queimaduras de 1º grau estendiam-se até à alma.
Tinha o coração estropiado,o figado desfeito, a indiferença consumia-lhe as estranhas numa metástase fulminante.
Não lhe sobravam forças para nada, só sorria, só respirava só vivia quando ela vinha.
Se ao menos pudesse levá-la para longe de tudo.
Talvez os silêncios de um sitio novo a deixasse vê-lo.
Quem sabe o gosto de uma terra desconhecida lhe trouxesse a curiosidade de descobrir o cheiro dele.
Mas isso era enganar-se, era devanear...
A dor dela não duraria tempo suficiente para que ela o descobrisse.
A dor dela era terrivel na intensidade mas fugaz na duração.
A dor dela que passava e o deixava a ele sempre dormente.
A dor dela que se desvaneceria antes mesmo que ela o visse sequer, do outro lado da sala, moribundo, terminal...

uma saída fácil...

E um dia de manhã saiu para não voltar mais.
Pegou nas poucas coisas que tinha, arrumou tudo numa mala que não tinha certeza ser sua e foi-se embora.
Escrevera de véspera um bilhete no qual dizia “ Deixo-te porque não consigo mais viver sem ti. Não me procures, não me encontrarás e mesmo que me encontres não voltarei nunca para ti.”
Deixou o bilhete na mesa-de-cabeceira junto ao livro que andava a ler.
Saiu de casa batendo a porta com vigor, quem sabe fosse ela acordar e tentar impedi-lo.
Enquanto descia as escadas sentia o coração estremecer-lhe no peito.
Tocou com fúria a campainha do 1º andar e só quando a porteira se assomou à porta ainda de camisa de noite, se apercebeu do inusitado da hora. Deixou-lhe a renda paga por 6 meses com advertência expressa de jamais incomodar a que deixara a dormir na sua cama. Dali a 6 meses ela já teria deixado a casa, conhecia-a bem de mais e sabia que nem 3 semanas aguentaria ali, só.
Desceu vagarosamente os degraus que o separavam da porta da rua.
Já com a mão na porta sentiu tremerem-lhe as pernas.
Pensou no calor da pele dela, no gosto da saliva da sua boca, no cheiro do cabelo depois de sair do banho. As pernas dela a enroscarem-se nas suas a cada noite passada juntos.
Batia-lhe o coração com raiva ao lembrar-se do desejo que sentiu da primeira vez que dormiram juntos. Dormiram só, pois ela não consentira nada mais. Um teste à resistência dele, dissera ela, para ver se a queria mesmo ou era um desejo passageiro.
Passageiro foi que ele se sentira todo aquele tempo, numa viagem em que ela ditava a todo o instante uma mudança de rumo à satisfação da sua volubilidade.
Abriu a porta do prédio, recebeu uma lufada fria. O sol ainda nem bem tinha nascido quando se dispunha a transpor a fronteira do seu prédio. Novamente invadido pela memória do calor da boca dela, do gosto da sua pele, do toque do cabelo escorrendo quando saía do banho nua, envolta numa nuvem de vapor.
Sentiu arrepiar-se-lhe a pele, tremeram-lhe as pernas e o coração bateu mais lento... precisava de fugir dali, ganhar coragem e deixá-la para trás.
Agarrou com força a maçaneta da porta. Respirou fundo, por entre os prédios o sol começava a despontar e isso deu-lhe um raiar de esperança. Num último instante, novamente o calor dela na sua pele, o gosto dela na sua boca, o cheiro dela à sua volta...
Num ímpeto, lançou-se desenfreado para a rua
Em câmara lenta olhou para o seu lado esquerdo e viu uma luz forte atingi-lo com aspereza.
A última coisa que sentiu foi o cheiro do pão quente da padaria da esquina que acabara de abrir as portas...

uma força que magoa



Queria muitas vezes dizer-lhe que tanta força era escusada.
Que podia ser frágil, que podia precisar de colo, que ela estaria sempre ali para a apoiar em tudo.
Enfrentaram juntas a primeira decisão maior da vida de adulta dela.
Custou, doeu, fez-se, depois o alívio duro e elas sempre juntas.
Claro que ela nunca poderia saber o que aquilo significara, [ninguém poderia, NUNCA!!!] o que aquilo mudara a sua amiga.
A fragilidade dos caracóis loiros transformada na argamassa de uma muralha da China.
Parecendo que não, subrepticiamente, a amiga nunca mais foi a mesma.
Eram pequenas coisas, a seriedade num momento despropositado, a practicidade, a força para seguir caminhos que ela não soubera antecipar na amiga.
Mantinha-se forte, resistia às intempéries com a força de um Colosso de Rhodes.
Depois de algum tempo transformou-se até num farol para todos.
Mas agora, quando olhava para a amiga, não lhe via a luz da inocência, não lhe via a doçura.
Via-a carinhosa, via-a meiga, mas não lhe via a inocência dos cachos loiros e dos olhos azuis.
Crescera e tudo que a fez crescer endureceu-a.
Um dia a alegria, a felicidade maior e o brilho nos olhos da amiga a voltar.
Mas ainda assim, dentro daquele azul, uma centelha que persistia em se apagar.
Por mais que se tentasse fazer lume, por mais lenha que a fogueira tivesse, no fundo daquele mar uma centelha que teimava em se apagar a cada instante.
Adorava a amiga, era uma irmã que escolhera ao longo da vida que foram tendo juntas, era-lhe essencial, acima do tempo e da distância.
Por isso queria sempre muito dizer à amiga que tamanha força era prescindível.
Que a amiga podia quebrar-se...
Ela estaria sempre ali com a cola!
Que a amiga podia desfazer-se em água...
Ela recolheria cada gota para não se perder o mar.
Que a amiga podia soltar a raiva...
Ela estaria lá para ajudar a expulsar os demónios!
Que a amiga podia morrer um bocadinho...
Ela estaria lá com o desfibrilador para a trazer à vida!
Por enquanto oferecia colo, enchia de mimos, punha os braços à volta da amiga... talvez um pouquinho da sua dor, um pouquinho que fosse do peso que trazia nos olhos saisse com as lágrimas invisiveis que lhe banhavam o rosto desde sempre.
Porque ela adorava a amiga e pesava-lhe a certeza de não poder aquietar tamanha dor...


(para a A., que eu adoro, na esperança de um dia tudo deixar de ser tão duro)

a eternidade dEpOiS...

O dia depois é sempre pleno de tudo.
Fica-se com o gosto nas mãos e com os cheiros na boca.
Cada poro liberta ainda o calor das peles misturadas.
Sabes-me a sal na lembrança, cheiras-me a mar no cabelo.
Tenho grãos de areia invisivel entre os dedos, encontro-te resquícios de pele por mim toda.
Ficaste-me dentro...
Lembra-me ainda a pressa, a vontade enfim desamordaçada, o fervor das mãos, o silêncio das palavras a contrariar o estrondo dos corpos em ebulição.
Lembra-me ainda o estremecer do teu corpo contra o frio do metal, o meu sobressalto às tuas mãos quentes nas minhas costas.
Lembra-me ainda o metal do teu cinto a constranger-nos os desígnios.
Sinto ainda a premência de nos termos e a expectante certeza dos actos consequentes.
A noite depois é sempre despida de nada.
Tens-me dentro...
Queima-te a memória do toque da minha pele, sentes-me a humidade da língua no teu peito.
Queres-me de novo na impaciência da vontade. Desnudas-me insistentes vezes de formas sempre distintas.
Seguras-me na lembrança com a subtileza que a nossa sofreguidão consente.
Sentes-me o perfume na boca e tens-me a luz da pele nos dedos.
Visualizas-me os recantos e mentalmente deslizas as mãos por mim.
Percorres-me o corpo em memória antecipando a renovação das impressões.
Pretendes-me ainda na plenitude de uma vontade que se revitaliza.
Vês-me adormecida na alvura dos lençois que não serviram para nos resguardar de nós.
A eternidade depois ficou completa de nós...

Se me deixasses...

Se me deixasses fechava-me contigo numa sala.
Numa sala só com paredes para que nada nos distraísse do indelével prazer de nos aprender.
Decoro-te a boca com os dedos, sei-te de cor o gosto.
Com os dedos vorazes percorro-te o corpo e no percurso desnudas-me a alma.
São dias eternos que duram minutos num deleite diferido por tanto tempo à força de uma imensidão de água fria.
Despes-me com minúcia para não me perder os pedaços.
Perdes-te em cada recanto como se fosse ímpar.
A tua mão na minha nuca, a tua boca no meu pescoço, os teus olhos por todo lado e esta sala cada vez mais acanhada.
Nós a ocuparmos todo o espaço vazio até que não restava nenhum.
As tuas mãos na minha pele, a tua boca no meu ombro.
Uma precisão incontornável de nos revelarmos.
Uma eternidade demasiado lenta para tão veloz determinação.
A tua mão na minha anca, a tua língua no meu umbigo.
Esta sala cada vez mais tímida e nós cada vez menos dois, as paredes que nos encerram já demasiado frágeis para tamanha urgência.
As tuas mãos por todo lado e eu minúscula dentro de ti.
Os meus olhos nas tuas mãos, a minha boca na tua língua, as tuas mãos por todo lado e eu perdida dentro de ti.
Esta sala demasiado colossal para conter os breves milímetros que não nos uniam.
Uma urgência cada vez mais compressora.
Dois empenhos cada vez mais um corpo só, até que é impossível distinguir o fim de uma vontade e o começo de outro desejo.
Agora já me sabes o gosto, agora já te conheço a voracidade.
Ficamos até à inanição. Exaustos de uma tão longa eternidade para merecer nada menos que tudo que nos consumira durante tão intensa espera.
A sala voltou ao seu tamanho real. O mundo fora dela suspirou de alívio ao se ver poupado à devastação que lhe pressagiáramos.
A acalmia de uma curiosidade mitigada... pelo menos até me incendiares novamente a intemperança... ai de novo uma sala vazia demasiado acanhada para nos conter...

a um quase tu desconhecido

Enquanto circulo do sitio de onde venho para o sitio para onde vou, penso em ti.
Tu com esses teus olhos quase de água.
Esse teu gesto quase envergonhado, esse teu jeito quase tímido.
Penso na tua boca numa provocação quase temerária, nas tuas mãos numa diligência feroz.
Quase te disse que não queria ali estar, quase me disseste que não podias ali continuar.
Quis que me tivesses provado, não fossem as hecatombes que daí adviriam.
Vislumbrava já no crepúsculo tempestades de gafanhotos e anjos negros portadores de fatídicas novas.
Valerá o teu sabor o bosquejo de um beijo?
Valerá o teu tacto o esquisso de um toque?
Pensava em tudo isto enquanto via o tempo passar entre o sítio onde ainda agora estivera o sítio onde daqui a pouco chegaria.
Que soem as trompetas do apocalipse e que os mensageiros do imperecível tragam as novas que se lhes aprouverem.
Quero-te e isso é insofismável.

Dos dias que se passam, de uma espera assim tão curta...

Escrever para fazer passar os dias.
As noites que se arrastam quando aqui não estás.
Viver as horas à espera de te encontrar em todo lado.
After that wall, passing that street, through that door, at the top of those stairs, inside that room, laying on the bed, nestled inside...
Mas nunca te encontro, nunca estás.
Escrever para fazer passar os dias.
As noites que se demoram numa agonia estática quando aqui não estás.
E depois o dia uma paragem do autocarro, a pensar que se aquele carro abrandar, se aquele cão atravessar a estrada agora, se aquele menino agarrar a mão da mãe na passadeira, se estas folhas cairem assim contra o sol, se o semáforo passar a verde, se aquele pássaro levantar voo, se aquele senhor começar a ler o jornal a partir do fim, se aquela flor não perder a pétalas, se aquele avião deixar um risco branco no céu, se aquela nuvem não se desfizer em gotas, se o sol brilhar por trás daquele prédio, se aquela velhota tiver coragem para abrir a janela, se o próximo carro que passar for azul, se a matricula começar por L(eta), se a próxima música for a que adoro...
Então de certeza que as horas seriam a areia do tempo que se nos escorre das mãos e faltariam minutos para aqui estares, segundos para que after that wall, passing this street, through this door, at the top of these stairs, inside this room, laying on my bed, you would be at last nestled inside of me.
Afinal, agora já no sossego, não foi assim tão longa a espera para por fim nos encontrarmos, pois não?

wAnTiNgS

I want your hand down my back , I want your tongue on my neck
Pensa-se nisto e naquilo para se tentar não ver o que nos não está na frente dos olhos e não nos sai de dentro.
Arranco-te e planto-te em mim a toda a hora.
Não me sais de dentro.
I want your hand down my back, I want your tongue on my neck.
Encontro-te nos sitios onde nunca estivemos para depois te perder em lado nenhum.
Como foi que me perdi de ti?
Como foi que me perdeste de ti?
Estás por todo lado e nunca aqui.
I want your tongue on my neck , I want your hand down my back...

(un)colorful thoughts...

It seems like an eternity has passed since we first met
But you keep sending cyan shivers down my spine and magenta butterflies to my stomach.
What has happened to my greenish self?
What will become of these grey thoughts?
Yellow wishes cambering my days around you
I can’t eat, I can’t think, I can’t work, I can’t write…
Maybe I read this all wrong in light of my fuchsine desire
Could that be?
Soon I’ll wake up it was just a sweet dream
No you on my side.
I was flying, but I just feel tired now
Maybe we are not the flying type.
But still it is a really sweet dream.
I wish you were here by my side.
This overwhelming infatuation coloring my days and darkening my nights
Impatience is making me foolish, unwise
I crave all the shapes and colors in your hand.
Soon I’ll wake up it was just a sweet dream
No you on my side.
I was flying, but I just feel tired now
Maybe we are not the flying type.
But still it is a really sweet dream.

qUeRiA-tE...

Mudei de cenário, mudei de roupa, mudei de pele e ainda assim não me saías de dentro.
Do corpo, das mãos que teimavam em não estar quietas, da cabeça que não conseguia distrair de ti.
Não me conseguia concentrar, não me conseguia focar em nada e era mandatório fazer um esforço para pensar no que não podia esquecer e não me lembrar do que não me saía da cabeça.
Tinha-te o toque na pele, se fechasse os olhos conseguiria ver-te...
Distraia-me com o que aparecia, fazia um esforço para não te pensar e nada...
Entraste em mim com a delicadeza de quem não precisa de licença e agora já não te consigo expulsar, já não te quero expulsar.
Quanto tempo até te esquecer o gosto?
Quanto tempo até te perder os olhos?
Quanto tempo até te deixar de sentir o cheiro?
Quanto tempo até não me estremeceres ao toque?
Mudei de cenário, mudei de roupa, mudei de pele e ainda assim não me saías de dentro.
O principio e o fim estão-se sempre a confundir e algo que não chegou a começar não terá fim marcado.
Queria-te sentir o gosto!
Queria-te desvendar os olhos!
Queria-te reter o cheiro!
Queria-te para que me descobrisses ao toque!
Mudei de cenário, mudei de roupa, mudei de pele e ainda assim não me saíste de dentro...

as ideias do fim

Lera uma vez um escritor que achando-se certa vez prolífico de palavras enquanto numa linha de caixa de hipermercado se vira forçado a optar entre uma caixa de tampax e um pacote de leite à falta de outro suporte onde registar as ideias que naquele momento lhe acorriam qual compradores vorazes em dia de liquidação.
Lembrara-se disto enquanto descascava a laranja que sempre comia ao pequeno-almoço.
Passava pouco das 8h e ainda não estava atrasado como iria ficar quando terminasse de se arranjar naquela manhã.
Não se importava de facto, não eram todas os dias que tinham aquela importância, pensou enquanto saboreava cada gomo acre e imaginava o tal escritor aflito com a ideia de perder uma só palavra da torrente que se lhe abrira na mente.
Às vezes perder uma palavra que seja pode significar o fim de tudo. O fim de alguma coisa que não chegou sequer a começar pensou..
Enquanto isto, terminou a laranja, lavou bem as mãos após colocar a tigela na máquina.
Voltou para o quarto e reparou que ainda dormia.
Na casa de banho abriu a água do duche. Gostava de deixar correr um bom bocado antes ainda de se decidir a entrar.
Reentrou no quarto e o mesmo silêncio só cortado por uma pausada e indolente respiração.
Queria ter coragem de fazer ruído, queria que o maldito gato dela entrasse e a fizesse acordar.
Mas nada, só o ruído abafado do duche.
Assim que sentiu a água quente penetrar-lhe a pele teve a impressão de já não estar ali.
A água sempre tivera o privilégio de o alhear de tudo. Como uma capa impermeável que repelia o mundo exterior.
Ficava sempre até que a pele dos dedos se enrugava e só ai ganhava coragem para largar a segurança daquele torpor líquido.
Secou-se com a toalha dela da véspera, não tinha outra mais perto e aquele não lhe pareceu momento para ser tão esquisito.
Enrolado nela fez cuidadosamente a barba e reparou na quantidade de coisas que ela tinha espalhadas pelo chão, pelos armários, pelo lavatório, no fundo pela casa toda, pela vida dele toda.
Veio-lhe novamente à ideia o escritor da fila do hipermercado, já com as ideias eternizadas na caixa de tampax, no pacote de leite, a explicar ao editor a ordem daqueles pensamentos em tão inadequado suporte.
Entrou no quarto e começou a vestir-se.
Sentiu-a mexer na cama e viu-lhe os caracóis desenhar uma mancha escarlate no lençol branco.
Sentiu voltar-lhe a esperança ao imaginar que iria acordar mas de imediato o quarto voltou ao silêncio que a respiração pausada dela impunha.
Terminou de se vestir, escolheu o fato azul-escuro e a gravata turquesa que ela lhe oferecera a semana passada e que -“ vira numa montra na 5th e era a cara dele”- se bem que ele não se lembrava de gostar especialmente de turquesa.
Viu o gato entrar no quarto e quase suspirou de alívio enquanto o via contornar a cama e pensava que era agora que tudo terminava, que ela iria acordar de certeza.
Mas o gato não saltou para a cama – de facto sempre detestara aquele gato – e aninhou-se na chaise longue onde ela o costumava esperar aos sábados enquanto ele preparava o pequeno-almoço.
Mas naquele fim de semana não tinha havido pequeno almoço de sábado – “querido, tenho que ficar mais esta noite, o tempo está horrível e tu sabes como detestas que eu conduza de noite”- dissera ela rapidamente ao telefone.
Não, naquele fim-de-semana nada tinha sido habitual.
Quando ela voltou no sábado já ele tinha saído para correr.
Quando ela voltou no sábado ele já tinha aberto a caixa vermelha no armário deles quando procurava um sítio para esconder o anel que lhe tinha comprado.
Quando ela voltou no sábado já ele tinha lido as cartas, cheias de palavras perdidas para outros olhos que não os dele.
Não se viram naquele sábado, falaram brevemente ao telefone, ela desculpando-se pelo desencontro com palavras inúteis, ele dizendo que não conseguia perceber nada, dizendo que as palavras dela se estavam a perder.
Domingo era o dia que tinham cada uma para si e ele voltara a sair cedo enquanto ela dormia ainda.
Voltou à noite resolvido a esclarecer as coisas, abrir a caixa e deixar sair as palavras, mas quando chegou encontrou apenas um bilhete que anunciava um jantar inadiável com umas amigas e a promessa de voltar cedo.
Deitou-se às 2h sem que ela tivesse chegado e por esta altura tinha já a decisão tomada.
Enquanto tudo isto se lhe repetia na mente terminara de se vestir, colocando os botões de punho que foram do seu avô.
Antes de sair do quarto olhou novamente para ela, parecia-lhe tão inocente, tão livre de culpa.
Pegou na caixa vermelha do armário e trouxe-a para a sala, pousando-a na mesa grande.
Colocou-lhe em cima o envelope que tinha o bilhete que acompanhava o anel que ia dar-lhe no sábado e a nota que acrescentara no domingo à noite.
Olhou de novo para a porta do quarto na expectativa de algum ruído mas nada.
Viu as horas, passava já da 9h e estava claramente atrasado para a reunião de administração que presidia naquela manhã.
O sol reflectia-se já nos arranha-céus à sua frente e enchia a sala de uma luz liquida, quente e acolhedora.
Abriu as portadas de vidro da varanda ao mesmo tempo que ouvia o gato miar ao entrar na sala.
Olhou para trás uns segundos, deteve-se na caixa vermelha um instante, reparou num barco fumegante no Hudson enquanto voltava novamente a cabeça.
No instante em que caía do 74º andar e começava a sentir o vento forte na cara, lembrou-se da pena de não ter chegado a acabar o livro daquele escritor com pânico de perder as palavras.

Tempos fora de horas...

Andamos em voltas opostas na mesma esfera.
À procura de coisas que não vemos senão na realidade dos outros.
As pessoas vão passando pela nossa vida e só no fim é que descobrimos a fugacidade com que a vida passou por nós.
Esperei-te tanto tempo na minha cabeça enquanto deambulamos por repositórios públicos de prazeres imediatos, rodeados de luzes surdas descoladas de algum filme de Hayao, mexendo-se a um ritmo infinitamente mais rápido que nós, etéreos, a deslizar por entre o nosso universo de curiosidades.
Enquanto me tocavas o cabelo com os olhos quis provar-te a boca com os dedos...
Tocava-te o pescoço com a mão com a mesma avidez com que me tocavas com os olhos.
Pareceria-me insuficiente se aquele momento não durasse todo o tempo que precisassemos para nos descobrir.
Faz agora uma eternidade que nos deixamos e ainda me lembro de ti.
Dos meus olhos na tua boca, da tua boca no meu pescoço...
Distraio-me com o torpor dos dias e o remoinho de pessoas.
Adormeço ao som da tua voz no meu ouvido e acordo com a tua ausência na minha cabeça.
A poeira das manhãs sem sol já não é bastante para me ofuscar a vista e é obrigatório lembrar-me dos outros para me tentar esquecer de ti.
Faz agora uma eternidade que nos deixamos e ainda não me esqueci do sabor que não tivemos tempo de descobrir...

uma eternidade demasiado longa

A semana passada evadi-me.
Queria saber como seria a vida sem mim e decidi ir embora por uns dias.
Enquanto estivesse longe de mim imaginaria como andariam as coisas.
Perguntava-me se o porteiro ficaria admirado de não haver lixo para despejar, de não haver música a sair da minha janela ou de não ver chegar as compras que faziamos online.
Enquanto estivesse longe questionar-me-ia sobre se os caracóis dos teus cabelos já te roçavam os ombros, enquanto te passeavas nua pela minha vida, pela minha casa.
Já quase não saiamos de casa nos últimos tempos... Tu saías... sempre. Eu não saía.. quase nunca... (também para quê?! contigo aqui e com tudo que nos vêm trazer a casa já nem precisavamos de sair.)
E a luz que se te reflecte na pele terá o mesmo brilho, não estando eu aí para a ver?
Os comboios sucedem-se lá fora na rua e tu na cama, enorme com a luz a reflectir-se na tua pele( ou será o inverso? juro que às vezes já nem sei...) e eu não aí para te olhar como todos os dias.
Os caracóis já te deverão estar a chegar aos ombros de certeza...
E o porteiro, será que estranha não haver lixo?
Será que te diz "Bom dia" se te vir sair, sempre demasiado tarde para ser hora de acordar, será que te diz " Cumprimentos ao Dr. Lucas", como todos os dias, como se eu lá estivesse, como se eu fosse lá estar quando regressasses ao fim do dia para jantar.
Tu nunca fizeste jantar... nem precisavas, com a tua pele de luz e os caracóis quase pelos ombros, podias nem fazer nada, só existir já seria demasiado.
Por isso decidi evadir-me.
Vivia numa abundância que me pesava.
Como quando era pequeno e a minha mãe me mandava terminar a sopa e eu não queria mais sopa.
Ela insistia sempre com a lengalenga dos meninos que tinham fome.
Eu só pensava que não tinha culpa nenhuma que na minha casa houvesse tanta sopa e não houvesse na casa dos outros meninos e invariavelmente respondia-lhe "tão manda-lhes a minha sopa que eu não me importo" ao que ela, rendida, reagia tirando-me o prato da frente.
Eu tinha que me tirar da tua frente por isso decidi evadir-me.
Planeei cuidadosamente a minha fuga, armazenei na retina espelhos da luz reflectida na tua pele, encarreguei à memória milhares de minúsculos frascos do cheiro de jasmim de cada um dos teus caracóis, decorei com precisão cartesiana a distância exacta que ia de cada um dos teus caracóis até à pele dos teus ombros.
Depois saí cheio de cautelas uma manhã, entrei no carro estacionado em frente à porta, pus a chave na ignição e tenho estado aqui sentado desde o que me parece uma eternidade... será que já deste pela minha falta?
Estou atordoado com a dúvida.
Atormenta-me que os teus caracóis possam ter crescido desde que te deixei.
Estejam já a tocar-te os ombros nus e impeçam o reflexo da luz branca desta manhã ainda sem sol.
Atormenta-me que eu não aí esteja para ver isso.
Dói-me fisicamente tamanha incerteza.
Até que rendo.
Tiro a chave da ignição.
Volto a entrar em casa.
Tu continuas a dormir impávida.
Olho para o relógio que ainda funciona.
Afinal os teus caracóis não cresceram.
Volto a deitar-me ao teu lado e adormeço outra vez já menos atormentado.
Afinal, para mim naquele dia a eternidade demorou 5 minutos...

cOiSaS qUe nÃo AcOnTeCeM...

O mais fácil foi deixar-te.
O mais dificil foi aprende a viver sem ti.
Tive ajuda, muita ajuda...
Era essencial manter-me ocupada, por isso mantive-me ocupada.
But you were always there, you are always here...

Mesmo que não te veja, mesmo que não te ouça!
Apetece-me cheirar-te.... ainda que te cheire por todo o lado...
Feel like tasting you tonight... every night to be truthful...Não fico muito tempo perto de ti, tenho medo do que me possa acontecer...
Coisas estranhas acontecem quando não se está à espera, quando não se está a prestar atenção... como deixar-te... como aprender a viver sem ti...
E, na verdade, nunca se sabe o que pode acontecer connosco, pois não meu amor?!...

um amor destes em qualquer lado...

There were far to many places they had been with other people, places they were supposed to have gone together...
He had far to many things to say to her, things he knew he shouldn't say ( oh so they kept telling him...) ... things like " i wanna kiss you everytime you blink like that" " come hug me like i belong to you" " how much do you love that boy?" " do you still know how to touch my neck?"... " how long will my love for you last?" ...

Ou talvez não seja nada disto. Passam-se uns dias desorientados e depois não se sabe bem o que pensar!
Depois encontra-se aquele amor num sitio qualquer, a atravessar a rua, num centro comercial e estes pensamentos chegam assim em catadupa!
"Do you know i still get chills when you touch me?" "Do you notice we kiss just a bit to close to convention?" " I want your hand down my back... i want your tongue on my neck.."Depois isto passa.
No fim do dia estou perfeitamente a contento com a vida que tenho.
Já quase que gosto dela para dizer a verdade...

Afinal, sem ti na cama até consigo dormir...
Meu Querido,

Tenho-Te dito tanta coisa e ainda assim parece que me falta tanto.
E por mais que Te diga parece que nunca me consigo fazer entender, em vocábulos que se me enredam na boca como os caramelos que me dava a minha avó e que depois da sua morte não mais vi em lado nenhum.
Tentar explicar os sentimentos tem destas coisas... vou falando, falando e parece que cada vez digo menos.
E Tu continuas sem me entender... continuamos sem nos entender...
De repente tudo se desmoronou e agora não há mais nada a fazer.
Explicar porque não Te quero ao meu lado, porque não Te quero nem por perto...
Porque não Te quero ver... Porque não Te quero cheirar...
Todo o barulho em que as minhas palavras se transformaram só serve agora para nos assustar.
Enterras as palavras na almofada pequena para que não Te firam mais.
Que não Te doa toda esta verdade... foste só mais um que passou, só mais um que me veio roubar de mim.
Tu não és o primeiro, existiram outros, não serás o último... teimavam em me convencer do que não queria ser convencida. E com a doçura de tanta persistência deixava-me ir ao sabor dos beijos que me entorpeciam a boca e me drogavam os sentidos.
Era só um tempo em que não estava cá... que não era eu... depois voltava... de cada vez mais lentamente, com mais dor, da pior maneira, mas voltava sempre.
Tu não és o primeiro, nem serás certamente o último que desperta em mim esta loucura da qual só eu sou verdadeirmente culpada...
Castigo-Te pelo meu crime... minto-me porque não sei encontrar a Tua verdade...
Sei que fui eu a olhar-Te... lembrei-me de Ti no desespero e pensei que Tu é que me irias salvar de mim...
Enganei-me só mais outra vez...
Mais uma vez sem exemplo, prometo eu antes de me ir deitar sozinha.

Só por esta noite durmo sem lágrimas...

O policia, o varão de autocarro e a rapariga da boina cor de rosa

Como tantas vezes, regressava a casa no 42.
Reparava nas pessoas. Discretamente, para não constranger. Aos outros, a mim.
Sentada do outro lado do corredor uma rapariga, bonita, de boina cor de rosa.
Paragem brusca. Entram 2 policias, um novito, um sénior.
Não se sentam, o menos velho fica agarrado ao varão do autocarro.
E aí brilham os olhos da rapariga da boina cor de rosa.
Eu olhava para ela e ela olhava o policia novo. Quase que se vislumbrava o que lhe ia na mente, os olhos dela fincados no policia novo agarrado ao varão.
Desciam a Maria Pia e as luzes de Natal esbarravam no interior do autocarro e nos olhos escuros da rapariga.
Nunca tinha visto ninguém tão triste com uns olhos tão iluminados.
Nova paragem.
Vou acreditar sempre que, se não tem saido ali, a teríamos visto chorar antes de eu sair, como sempre, na minha rua.