Gosto de ouvir chover. Gosto do som das gotas grossas, indómitas a espancar os meus vidros.
Não sei se já te disse mas a casa onde moro tem muitas janelas. Enormes luminosas, resistentes na sua aparente fragilidade. Deixam ver muito para fora, mas olhando para dentro delas não se consegue ver quase nada.
São assim as minhas janelas e eu gosto delas.
Especialmente quando a chuva lhes bate com força, as encharca, ficam a escorrer a raiva que a tempestade tem de não entrar ali.
Elas, orgulhosas, quase soberbas, não se compadecem do lamento das gotas que por elas desfalecem.
A intempérie nada pode contra a resistência dos polímeros que as enformam.
Às vezes apiedo-me da chuva e dá-me vontade de estilhaçar um vidro para que a água invada tudo.
Só para que elas saibam que não se pode ganhar sempre.