Wednesday, July 17

"And I’ve been keeping all the letters that I wrote to you, each one a line or two,“I’m fine baby, how are you?” "

Sentado na mesa da cozinha mirava os caixotes de cartão por abrir. Os últimos dias passara-os nesta correria da mudança.
Tinha uma mesa, duas cadeiras, uma cama e uma máquina de lavar e um montão de caixotes por abrir, as horas que passara a organizar tudo cartesianamente.
Mas agora ali sentado viera-lhe um súbito desânimo.
Estivera calor a tarde toda, ele entre o trabalho e a mudança lembrara-se vezes demais dela.
Dela, da casa antiga, do conforto de tudo numa ordem plácida, irresistível.
O Verão já no fim estava impregnado dela.
Sabia bem poder voltar atrás.
Sabia que o cheiro provocante do fim das tardes de Verão sempre o lembrariam dela, da casa antiga, da realidade que escolheu não ter tido.
Agora era preciso força para carregar caixotes de vidas passadas, coragem para desempacotar lembranças antigas, macetes para colocar tudo no devido lugar deste novo espaço que acabara de o invadir.
E claro, rezar pela chegada rápida de um Inverno frio que lhe congelasse as memórias dela, da casa antiga, da vida interrompida.

Tuesday, July 16

"Now you say you're lonely, You cry the long night through, Well, you can cry me a river, I cried a river over you..."

Gosto de ouvir chover. Gosto do som das gotas grossas, indómitas a espancar os meus vidros.
Não sei se já te disse mas a casa onde moro tem muitas janelas. Enormes luminosas, resistentes na sua aparente fragilidade. Deixam ver muito para fora, mas olhando para dentro delas não se consegue ver quase nada.
São assim as minhas janelas e eu gosto delas.

Especialmente quando a chuva lhes bate com força, as encharca, ficam a escorrer a raiva que a tempestade tem de não entrar ali.
Elas, orgulhosas, quase soberbas, não se compadecem do lamento das gotas que por elas desfalecem.
A intempérie nada pode contra a resistência dos polímeros que as enformam.
Às vezes apiedo-me da chuva e dá-me vontade de estilhaçar um vidro para que a água invada tudo.
Só para que elas saibam que não se pode ganhar sempre.

Sunday, July 14

"Erased all your numbers, blocked all your calls, Tried another lover, built up my walls, Told myself it's over, don't know what else I can do, I can't shake you..."


Desenha-me a vida.
Pinta com cores de faz-de-conta o passado que ficou por suceder.Traçando a linhas reticentes esta vida que não é, preenche com padrões e texturas a irrealidade do que quase fui.
A feltro fluorescente pontilha o caminho até ti para que eu me escape destas formas sem figura.
Em alto-relevo sinto já o que está para ser e, na bonança que a ausência de cores permitiu, prevejo assim a paleta de emoções que por ti virá.

Por isso desenha-me a vida.
Para que o escuro que em mim há se acostume depressa à luz do arco-íris que soías trazer dentro.

"Staring at the ceiling in the dark, Same old empty feeling in your heart, 'Cause love comes slow and it goes so fast."


O que gostava nele era o tom de desespero que se escutava no fundo da sua voz mesmo quando falava de coisas boas. Como se ele temesse pelo fim do tempo antes de dizer e fazer todas as coisas que tinha planeado.
E ele tinha muitos planos...
O que adorava nele era aquele seu sorriso perene. Um sorriso que deixava antever um pouco da luz que trazia dentro ainda que por enquanto tudo nele jazesse adormecido no escuro de uma espécie de noite sem fim.

Wednesday, November 30

"...Oh and when you held my hand, I knew that it was now or never, Those were the best days of my life..."

Recuperava a espaços da chuva e do frio que trazia dentro.
Iam-se-lhe degelando os sentidos, voltava a ter impressão nas pontas do dedos para de novo ser tentado a abraçar a Invernia.
Temia o frio mais que tudo e ainda assim não conseguia chegar-se ao sol.
As estações do ano passavam por ele indiferentes, indistintas, como os dias de Verão pelas mãos de uma criança.
É que desde que a encontrara só experimentara este Inverno que lhe vinha corroendo os dias.

Tuesday, November 29

" Say a word or two to brighten my day, do you think that you could see your way to lay yourself down..."

Quanto mais o via menos o conseguia imaginar.
O contrário era ainda mais verdadeiro.
Nem se recordava sequer da última vez que se cruzaram, sempre na urgência de ter que ir, na pressa de ter que fazer.
Eram como rios paralelos, acompanhando-se no leito mas sem nunca se tocar.
Ele vítreo e de águas tranquilas, ela nublosa, inconstante, sem bem deixar ver o fundo.
Seguiam na firmeza de um propósito derradeiro, na irrealidade de um objectivo comum, de um encontro num mar longínquo quando se cumprisse o sentido daquele seu suceder paralelo.
Esqueciam-se tão só que o instante do seu encontro seria de imediato diluído na imensidão de outras águas, apressadas, obstinadas, convergentes para o mesmo fim.

"...em ti vejo o tempo que passou, vejo o sangue que correu, vejo a força que moveu, quando tudo parou em ti, a tempestade que não há em ti..."

Começavam lentamente a voltar-lhe as palavras.
Sentia o degelar dos dedos pelo ligeiro torpor que lhe recordava as mãos e o acompanhava nos últimos dias.
Como andorinhas buliçosas e extemporâneas para uma Primavera ainda tormentosa.
Todas as pessoas sabiam que uma andorinha não fazia a Primavera.
Ele também, mas por enquanto apaziguava-se com essa expectativa.

"...And I know just why you could not come along with me, this was not your dream, but you always believe in me..."

A espaços as mãos dele eram como água.
Não havia resquício de si por onde não passassem, não havia milímetro que não perscrutassem.
Umas mãos quentes e suaves, imperfeitas e insistentes na sua timidez aparente.
Se havia coisa nele incapaz de mentir eram as mãos.
Foi por elas que percebeu que tudo havia terminado.
Muito tempo antes de o ouvir da boca dele, já as suas mãos haviam dito tudo o que havia para dizer.

Sunday, November 27

Once upon a time...

Todas as noites, antes de dormires, sussurro-te histórias.
Mesmo não estando ai, mesmo aqui deste lado, sussurro-te histórias.
Algumas alegres de aventuras e diversão, outras de calamidades e infortúnio.
Em todas tento falar numa voz suave para te ajudar a adormecer ao som das imagens que vou criando, mas não raro calho de me entusiasmar e reproduzir os sons, imitar vozes das personagens, que quando me apercebo, estás ainda mais desperto e ávido de saber o final daquele disparate todo.
São mais as vezes que falho neste intento de te fazer sonhar, do que as que venço no propósito de te fazer dormir, mas tu não pareces importar-te nada com isso.
Dilatam-se-te as pupilas ao som da minha voz, explodes nesse teu riso de luz e ganhas vontade de tudo menos de adormecer.
Queria que os sons de mim fossem a última coisa que escutavas antes de adormecer mas na maior das vezes as histórias puxam por outras lembranças e quando o sono realmente vem já me perdeste na meada que a minha história desenrolou.
Não faz mal. A recompensa de te ver dormir basta-me.
E é pelo melhor que ai não estou.
Estou certa que não resistiria à vontade que tenho agora de te fazer acordar.

Saturday, November 26

Grelha da vida real

Lembras-te de mim a espaços, como um "eu sei lá" do qual sabíamos tão pouco.
2 anos é muito tempo na vida de uma rapariga, pensava.
Na tua também, eu sei.
Agora nessa tua vida formatada recordas-te de mim nos intervalos da alinhamento contratado.
Sou o anúncio que se consegue escapulir entre os segundos de um zapping que as tuas mãos diligentes comandam.
Tenho ainda assim a aspiração de te ter ficado na memória, como a publicidade ao chocolate em que o coelhinho vai com o pai natal e o palhaço no comboio ao circo.
Sou aquele gingle que não te lembras sequer de ter ouvido mas que te ocorre de quando em vez a propósito de coisa nenhuma.
Não te apoquentes meu querido, a programação habitual seguirá dentro de momentos...

Friday, November 25

"life unexpected"

Entrava em casa cada dia mais tarde.
Não era o excesso de trabalho, não era a demora no trânsito.
A indolência que se apoderava dele nas horas do fim do cárcere.
Um arrastar de pés que o fazia demorar no arrumar dos papéis, no encerrar dos ficheiros, no arquivar de documentos.
Nem bem sabia porque.
E talvez fosse melhor assim.
Teria que regressar... forçosamente. Não podia deixar-se ficar ali, apagado, inerte.
Não era do seu feitio desistir. Sem explicações, sem ponderações, sem raciocínios milimetricamente calculados nada acontecia na sua vida.
Esta sua existência insonora e vaga de acontecimentos.
Todos em seu redor acreditavam na sua solidez.
O confiável e prestável Antunes.
Faltava-lhe coragem na verdade.
Foi-se conformando com uma realidade que não era a sua, até que se tornou tarde demais para soltar os grilhões.
Cresciam-lhe já líquenes na sola dos sapatos, em volta dos tornozelos, subindo as canelas magras.
Sabia que cada vez que saía no fim de outro dia de trabalho, lhe pareceria mais impossivel voltar na manhã seguinte.
Fechou meticulosamente as gavetas, encerrou o computador, arrumou as canetas no estojo e alinhou os papéis com esmero.
Levantou-se da cadeira e dirigia-se já para a porta quando reparou então na leve flutuação da cortina.
Ainda hesitou uns segundos, a caminho da porta, depois, como que atraído pelo ar frio deste fim de dia de Outono, dirigiu-se para a janela.
Com a mão no trinco viu as luzes acesas desta cidade quase dormente.
Na altura do seu escritório já não se ouvia o ruído da vida dos outros.
Afastou um pouco mais a cortina e abriu totalmente a janela.
Passou-lhe uma vertigem pela cabeça e teve vontade de descobrir o cheiro do vento quando se cai do 57º andar.
Pareceu-lhe tão apelativa a calma iluminada daquele ínicio de noite.
Ali, parado naquele instante, com a mão no trinco, aquela janela, aquele vento e todas aquelas luzes de fundo pareceram-lhe sem qualquer hesitação a melhor saída para a sua inexistência.

Thursday, November 24

"...e a sombra está em tudo o que se vê, lá fora ninguém sabe o que a luz pode fazer..."

Se não fosse pedir muito fazias-me uma lista dos teus defeitos.
Arranja aí uns minutos e enumera-me as tuas falhas.
Elenca as tuas imperfeições e cataloga as deformidades.
Faz o rol dos teus vicíos e descreve com minúcia as impropriedades.
Relata-me os teus equívocos e ilustra sem pudor todos os teus comportamentos desviantes.
Especifica-me os teus erros e todas as desumanidades.
Conta-me aquela vez que pisaste um cachorro perdido ou deste um encontrão na velhota cega que mora no fim da rua.
Fala-me do algodão-doce que roubaste do miúdo do andar ou da bola dos putos da vizinhança que chutaste para o saguão do condomínio do lado.
Descreve-me como puxaste as tranças daquela cândida meninha loira ou como não darias o lugar no autocarro a nenhuma mulher grávida.
Diz-me que não reciclas, que escovas os dentes de torneira aberta e que deixas o ar condicionado ligado quando sais de casa.
Que usas o carro para ir na padaria da esquina, só usas prato descartável e que não desligas os electrodomésticos na tomada.
Que mandas o teu estagiário buscar café, obrigas a secretária a chegar mais cedo para ir levantar as camisas na lavandaria e não pagas o salário da doméstica a tempo e horas.
Conta-me dos piropos grosseiros que lanças a miúdas de saia curta com que te cruzas na rua ou da loira burra casada com o chefe de departamento que cobiças desavergonhadamente nas festas da empresa.
Fala-me daquele sitío dentro de ti onde não chega a luz, onde se esborniam todos os tons de negro que ocultas ao mundo.
Diz-me dos fracassos, da libertinagem, dos pecados, dos ódios de estimação....

Enfim... conta-me histórias daquilo que não vi.

Wednesday, November 23

summer's base notes

Sentada no sombra do alpendre via-o chegar ao fim da tarde, atravessando o infindável areal branco à sua frente.
Quando se aproximava o momento que o previa de volta vinha sentar-se assim na beira do alpendre.
Começava a vê-lo ainda sem o distinguir da linha do horizonte, difuso na luz reflectida nas ondas de calor que saiam do chão. A luz que a obrigava a piscar os olhos quando lhe tentava distinguir a figura.
Depois já mais de perto via-lhe os contornos do rosto que parecia mais queimado do que de facto estava.
Ia chegando cada vez mais cerca da longa escadaria de madeira que subia até ao alpendre onde ela o esperava todas as tardes.
Trazia a pele curtida do sal, horas passadas entre o sol e o mar, as mesmas que ela perdida entre os seus livros, com os seus papéis, na lassidão da casa-de-praia amortecida pela fresca penumbra das persianas semi-cerradas.
Tomava um banho fresco deixando a água demorar-se por si, vestia com calma um vestido leve, preparava uma limonada e ia sentar-se no alpendre com um grande copo cheio de gelo, esperando-o.
Ele sorria quando ainda no fundo das escadas a via plácida, ávida, sentada, piscando os olhos à força daquela luz forte de um Verão ainda a meio.
Ele sabia que as mãos dela cheirariam às folhas de hortelã-pimenta que misturava na limonada que preparava para ele.
Ela sabia que na pele dele estaria o gosto do sal daquele mar onde ela não entrava.
Passariam as horas seguintes pegados, indistinguíveis, inseparáveis, ela com a boca cartografando-lhe o corpo ao ritmo dos grãos de sal, ele com a mãos aspirando-lhe o espírito com notas de hortelã-pimenta.

Era assim neste Estio que parecia não ter fim, fora assim desde o dia que se encontraram naquela mesma praia, num tormentoso dia de Inverno.

Tuesday, November 22

"while you were out"

Ando muito tempo sem pensar nisto...
Distraído nos pesados dias que corto com episódicos instantes do que para os outros parece insanidade.
Quisera passar a vida em episódios. Não ter fio condutor, não haver certezas de percursos expectáveis, não ter o peso de ter que ser "all I can be".
O peso jupiteriano do que o outros esperam de nós.
Depois aparece qualquer coisa que nos lembra de tudo isto e "there you go again" dizem eles.
5 meses de um mundo a cores e depois de novo a realidade a preto e branco.
Ando muito tempo sem pensar nisto...
Tempo suficiente ou de menos conforme resultem as panaceias que me vou administrando.
Depois vem um vento frio, vem o Sol dourar a ponte uma manhã ou as cores de um grafitti no caminho de casa e aí volta tudo ao inicio.
E de novo a certeza de que isto por episódios era tudo muito melhor. Uma vida na qual o inesperado seria temperado pela certeza de que tudo terminará dentro de 43 minutos. Ou 2 horas se se tratar de um especial ou de um season finale.
E na próxima semana cá estaremos com novo enredo.
Ando muito tempo sem pensar nisto...

Mas na realidade o que importa mesmo é manter os espectadores presos ao ecrã.

"ladri di biciclette"

 
Foge comigo dizes ...
Hoje não posso, tenho que terminar esta questão.
Sempre tu com essas propostas desonestas.
Queria eu ver se dissesse que sim.
Depois pelo mundo, a roubar fruta pelas veredas de uma vida não programada.
A viver das laranjas e das romãs com que o caminho nos iria presenteando.
A dormir na praia e a beber a água das folhas.
Foge comigo dizes ...
Hoje não posso, tenho ainda um assunto para resolver.
Como se a vida pudesse ser só isso.
Um repente de lucidez que se nos atravessa o rumo e nos brinda o cristalino com o mundo ao virar da esquina.
A insensatez de um impulso que fica sempre sem o ser.
A vida vivida no pleno do que é, não na dúvida do que podia ser.
Ao som da chuva miúda numa noite de Verão sob as estrelas e eu e tu onde agora achas suposto.
Foge comigo dizes ...

Fujo... amanhã.

" I don't remember you looking any better, but then again, I don't remember you..."

Há tanta coisa entre nós que já não vemos.
Tanta coisa que se perdeu na memória de todas as vezes que pareceram poucas, de escasso que era o tempo de nos descobrirmos.
Eu não me lembro dos teus olhos a piscar à ameaça da primeira luz.
Tu não sabes onde estão os dois sinais pequeninos que tenho na anca.
Eu perdi-me da memória daquela piscina fresca num fim de tarde só para nós.
Tu não conheces mais o Sol de Agosto a queimar a muralha de S.Jorge.
Eu não sei onde foi a barba que já não tens.
Tu nada recordas os chuviscos da fonte da Praça do Império nos fins de tarde de sábado de Verão.
Eu não me lembro do toque das tuas mãos sempre mornas.
Tu és incapaz de descrever o sabor da minha pele.
Eu desaprendi o ritmo que tínhamos de acordar.
Tu esqueceste os beijos que te dava no pescoço.
Eu perdi o teu perfume que se me colava à pele.
Tu não sabes mais o caminho até à padaria nos sábados de manhã enquanto eu dormia.
Eu não sei mais das mil tardes escondidos debaixo dos meus lençóis brancos para que não nos encontrasse a vida.
Tu não sabes nada das minhas rotinas nocturnas.
Eu não me lembro das tardes de Outubro no cinema.
Tu desconheces agora a sombra das árvores da avenida, boa para passeios em Maio.
Eu não sei que fazes às tuas canetas de escrever as cartas que já não me envias.
Tu não te lembras da banheira enorme que havia na minha casa.
Eu não recordo a voz do Tony Bennett a tocar sempre que eu chegava à tua.
Tu já não te deixas perder a calma de cada vez que me vês dançar.
Eu não me lembro de como me sentia pequenina enroscada no teu colo.
Tu olvidaste o frio da parede onde nos encostávamos quando havia muita pressa.
Eu nada sei de adormecer no teu ombro.
Tu não és mais capaz de me completar as frases.
Eu não consigo mais ler-te os pensamentos.
Tu não sabes nada do meu sorriso...

Eu não tenho já coisa alguma que ver com o teu...

Wednesday, April 27

"I need you right now, let's get lost tonight..."

E ainda assim continuava ali, à espera.
Sem saber das coisas, sem ter certeza alguma, só das dúvidas que me trazias de cada vez que te via.
Do que era certo, do que era impossivel, do que eu queria, do que tu não querias.
E tu cada dia mais distante, isto como se alguma vez tivesses estado cerca.
Eu presa a tudo o que devia ser, tudo que devia sentir.
Tu que nunca me tocavas casualmente, nunca sem propósito, e eu, cheia das más intenções que nunca revelava a ninguém, as provas que incinerava furtivamente, o pânico de que o que tinha dentro fosse uma luz aos olhos dos outros, os que me descobririam e me condenariam ao saber.
E tu ignorante de tudo, de mim principalmente.
Eu a tentar ignorar-me por tudo, por ti principamente.
E depois, ainda assim, eu ali à espera.
Como num concurso. Como se não quissesse perder por nada, a não saber como enfrentar a derrota num jogo no qual não estivera sequer inscrita.
E tentava por tudo ir convencendo-me que não era bem isto que tu havias de querer, não era nada do que eu era que tu desejavas.
Eu que nem bem te conhecia sequer.
Eu já sem tempo para te conhecer até.
Mas que se me aparecesses destruirias tudo.
Eu que, a um mero capricho teu, me saberia perdida, derrotada neste meu mundo de areias inconstantes.
E a esperança que eu tinha nessa perdição.
E o terror que me inspirava essa esperança de destruição por ti.
E, ainda assim eu, ali, à espera...

Monday, April 25

" - I don't want to leave. - So don't. Stay here with me. We'll start a jazz band."

Sei lá eu o que tu queres.
Não queres nada ou queres o tudo que às vezes, por infinitesimais instantes, pareces desejar.
Though you never act on it, do you?Por isso se calhar não queres mesmo nada, e isto sou só eu a imaginar tudo que queria agora.
Tu sentado a meu lado a cantarolar músicas impossíveis e eu a rir e a rir e a esperar que esta noite se aguentasse, a gastar todos os desejos do dia de aniversário para conseguir que a noite durasse só mais um bocadinho e depois logo se via…
Tu ligeiramente enfastiado, eu ligeiramente enfatuada.
É pelo riso que me sou vencida sempre.
Pelo riso e pela improbabilidade…
E que impossível que tu és. Que improvável que sou eu.
A minha falta disto, a minha falta daquilo, o meu excesso disto, o meu excesso daquilo, uma combinação por demais impraticável.
But still this doubt in my head, still this imprinted desire on the dark side of my mind.Não te sei ler, é o que é. Não descortino o sentido das tuas palavras, as inflexões dos teus súbitos silêncios, as alternâncias da tua disposição, o despropositado do teu toque.
Não te entendo, não me entendo, não te vejo, não me vês.
Oh, but how delightfully strange and intriguing you are…

Sunday, April 24

"Sono fatta della stessa materia di cui sono fatti i sogni"

A mim, sensata, ninguém me saberia capaz destes desvarios.
Mas tenho uma imaginação tão prolixa quão perigosa e não raras são as vezes que me deixo levar por ela e o pior é que, quando quero voltar, já é noite, está escuro e não acho o caminho de volta.
Nos últimos tempos tens sido esse caminho pelo qual me deixei ir.
Foi muito fácil esta ideia de chegar a ti.
Meter-me no autocarro e lá ia eu.
Tantos eram os detalhes que eu queria saber do percurso.
Nem bem saberia como começar, as coisas pensadas fazem sempre mais sentido e depois a voz atrapalha tudo, como quando cantamos em silêncio com os headphones no máximo e temos a dicção perfeita, a pronúncia perfeita, o tom perfeito... e depois damo-nos a ouvir aos outros só para descobrir que somos completamente tone-deaf.
Mas adiante...
O embaraço está em que agora nunca te acho.
Nunca te encontro, não me apareces, não te vislumbro, não me surges.
No caminho que és tu, desencontrei-me de ti.
E de nada adianta mudar de autocarro, mudar de linha, mudar de transportadora.
Por mais imaginação que me cresça não mais sei como te achar.
Pior que agora já é noite, está escuro e eu não acho o caminho de volta.

Saturday, April 23

Memória de elefante

Depois deixava que voltasses como se nada fosse.
Estes meses todos que passaram.
Perdia a memória do dia em que, de malas no hall de entrada, disseste que não podia mais ser, que não conseguias mais esta vida.
Eu a entrar em casa, mal tirara a chave da porta e tu num atabalhoado de frases, que já não podia ser mais e que era preciso ir buscar o miúdo ao colégio e tinha que ir passear o cão e ir à reciclagem.
E eu carregada de sacos, com a chave ainda na porta, o sapato direito a magoar-me o calcanhar, sem alcançar o que dizias, sem saber que te dizer.
Mas agora esquecia-me de tudo, estes meses todos de cansaço, as contas todas para mim, o miúdo sem entender nada, cada vez mais silencioso, o cão pelos cantos da casa, a reciclagem que deixei de fazer porque não há tempo porque ou faço o jantar ou brinco com o miúdo e ainda tenho que o ajudar nos trabalhos de casa e contar-lhe uma história de adormecer e eu que já nem tenho tempo para dormir, os relatórios por terminar para a reunião de amanhã.
Deixava de me lembrar da culpa que sinto pelas horas extra que pago ao colégio para lá terem o miúdo, que nunca consigo lá estar às 6h, ele com um sorriso triste quando chego fora de horas para o ir buscar, carregada dos dossiers que ainda vou rever à noite, e já todos os outros meninos estão em casa com as mães cumpridoras.
Olvidava os telefonemas rápidos, 3 em tantos meses, para saber como o miúdo estava, do aniversário que tu esqueceste, o presente dele por correio quase duas semanas depois e nem uma palavra.
Não me lembrava das noites sem dormir, do espaço vago nas gavetas da cómoda, do teu cheiro por todo lado, nem à força de tanto detergente se evapora, nos livros que faltam na estante do escritório, do relógio que deixaste por esquecimento na mesinha de cabeceira e que o miúdo passou a trazer sempre no bolso pequenino dos calções, da tua camisa azul que passei a usar para dormir, ainda o (teu) toque do algodão macio.
Agora esquecia-me de tudo e deixava que voltasses como se nada fosse...

Friday, April 22

"Abandon hope all ye who enter here..."


E o dia antes de partires encontrava-te num sitio qualquer desses que tu descobres nem bem imagino como, e nem bem eras tu, eras o tu que imagino que sejas, o que no fundo é a mesma coisa, depois sentados lado a lado, sem bem nos tocarmos, eu ouvia-te dizer das coisas que viste e das que ainda vais ver.
E eras menos tímido do que me pareces sempre e dizias todas as graças que me habituaste a ler.
E no meio de tudo, com o som da tua voz em fundo, eu lembrava-me da última vez que te vi fumar, os anéis de fumo branco adocicado que fazias desatento, eu sem me importar sequer com o fumo, ligeiramente enfatuada por estares ali e eu também e tu ainda assim sem me veres e eu a pensar que isto podia ser perigoso não fora o inteligível facto de tu nem me veres.
E no mesmo instante a lembrar-me que amanhã já aqui não estás, a pena que eu tenho disso, tu tão longe e eu que te queria por um pouco mais de tempo, nem bem saberia para quê ou se calhar até sei.
E agora já só penso na tua boca e tento por tudo desconcentrar-me dela e ouvir-te porque temo que já me tenhas percebido, mas que raios sei eu, que coisa vem depois do beijo que agora te dava, esses teus olhos inquietos, porque diabos não és capaz de me olhar de frente quando me falas, mas isto agora já sou eu a imaginar coisas.
E eu já sem coragem de te dizer do beijo que te queria ter dado num certo labirinto de flores de luz que agora se apagaram e o tremor que tenho no estômago de te saber a ir a qualquer momento, o mesmo que sinto sempre que te imagino chegar.
E tu que segues contando dos planos que fizeste e eu que me animo com a tua antecipação, o som da tua voz que me perturba um pouquinho mais, e isto sou eu que quero muito e que se me tocasses agora acredita que me consumia.
E espera só mais um pouco que eu estou quase a perder o receio de te sussurar esta expectativa que tenho de te descobrir, de me descobrires, porque eu queria muito que te valesse a pena descobrires-me e a vontade que tenho de te tocar de leve, eu bem sei que não sou nada do que tu queres, que isto não é nada o que estás habituado, eu tão pouco indicada, eu tão flagrantemente inapropriada.
E que já se faz tarde, tu que tens que ir e que tudo me começa a parecer tão impossível, tudo muito improvável, muito pouca vontade da tua parte porque no fundo, em verdade, do que sobra és só tu a ser simpático.

Thursday, April 21

from hell...

Se deixasse os dedos fugir pelas letras saberias de mim o que oculto.
Se permitisse ao meu ânimo falar dar-te-ia ciência do negra que é a imensa vontade que trago dentro.
Saberias dos desejos que me atormentam a hora de dormir e do apetite que tenho de te fazer acordar.
Nas letras estariam inconfessáveis os pecadilhos nos quais estou imersa e as palavras seriam mostruário do que queria fazer contigo.
É escuro aqui onde me refugio, não chega jamais a claridade.
É pelo melhor assim, nada cresce sem luz e assim talvez tenha sucesso nesta incumbência que me impuseste.
Venho empenhando-me arduamente nestes trabalhos tantálicos.
Aqui dentro, onde se esborniam todos os tons de negro deste breu onde me escondo, labora-se com afinco.
Mas assim, na escuridão, é difícil ver o caminho e, dependendo dos dias, mais se erra do que se acerta.
Ultimamente tenho andado aos tropeções...
Menos mal que aqui no escuro, dependendo dos dias, nem se me vêem as escoriações...

Wednesday, April 20

The hottest state

Se calho de me lembrar da tua respiração pela manhã está tudo perdido.
Ando o resto do dia num reboliço, não há forma de me sossegar.
Uma lembrança puxa por outra e não tarda que te sinta o gosto.
A memória tem destas coisas e se souberes ai de alguma droga é informar que estou aberta a experimentação.
Seguem-se os conselhos alheios e tentam-se mezinhas estranhas.
Mas não arranjo forma de iludir o espírito, de que se me arrefeça o corpo e é um ver se te avias para me concentrar em algo que não tu.
E eu esforço-me, afianço-te que me esforço.
Mas tu chegas-me assim sem pedir licença, sem aviso e sem controlo, sem sequer ser vontade tua.
O calor da tua pele acelera-me os sentidos.
O ar que exalas destrói-me a calma.
A ínfima memória de ti reduz-me a um estado de humidade permanente.
E eu esforço-me, afianço-te que me esforço.
Mas sou fraca e esse teu sorriso espolia-me da pouca seriedade que me resta.
Encontro o teu cheiro por todo lado e não há onde me esconda que ele não me ache.
Essa tua voz que me pede...
E essas tuas mãos por mim...
Arrepia-se-me a pele pela antecipação do teu toque.
A tua boca que me arruína os planos de contenção.
No fundo nem tenho culpa. Eu não decidi isto.
Não te sabia assim tão entranhável, tão inextinguível .
Nem queria que te pegasses a mim deste jeito irremediável.
E agora, que queres que faça?!
Nada, pois que não há coisa alguma a fazer.
É aguentar, resistir, reduzir-me, esperar que isto me passe, à força de muita água, poucas palavras e muita inacção.
É matar borboletas com balas de canhão.

E eu esforço-me meu querido, afianço-te que me esforço...

Tuesday, April 19

Turner

















Queremos tantas coisas.
Queremos muitas coisas ao mesmo tempo.
Muitas coisas em tempos que não são os nossos.
Coisas para as quais não há sequer tempo.
Porque aqui o tempo seca depressa de mais a água que vamos misturando com os pigmentos dos dias que se passam devagar.
Queremos sossego.
Queremos que a luz deixe de nos turbar a vista.
Queremos que a água que vamos acrescentando à vida dilua os resquícios das cores que nos magoam o cristalino.
Quermos coisas demais.
Queremos tudo.
Queremos a perfeição das pessoas que vamos encontrando.
Como se de uma tela se tratasse.
Como se a vida pudesse ser isso, o instante no qual, à força de tanto querer, conseguimos reter o pigmento que a água teima em fazer escorrer das nossas mãos.
E na realidade sabemos que não há nada a fazer.
Que nunca houve.
Que a água é mais forte que tudo. Que a água levará sempre o seu desígnio.
Que as cores nunca são, de facto, nossas.
Pedimos emprestadas, usamos, a seco, em bruto, liquefeitas consoante a precisão.
Mas na verdade, e por força de tanta diluição, as cores vão-se transmutando, nunca o mesmo tom, nunca a mesma consistência, sempre arredias, nunca nossas, nunca de ninguém, sempre da água...
Queremos tantas coisas.
Queremos sempre as coisas para as quais não há mais tempo.
Queremos sempre as coisas para as quais o nosso tempo nunca foi...

Monday, April 18

as time goes by

Queria dizer-te que temos muito tempo.
Muito tempo para o que eu quero de ti...
Muito tempo para o que tu queres do mundo...
Muito tempo para o que queremos da vida...
E no meio dela que tivessemos todo o tempo...
Queria dizer-te que temos muito tempo...
Muito do tempo que de facto nunca temos...
Esse tempo que verdadeiramente é só teu, pois o meu, assim, aqui, meu querido, está a acabar-se...

Saturday, April 16

"...Then these small wonders, Keep us awake at night, These small wonders, Hold us down to the ground, And show us who we are..."

Gostava das mãos dele.
As mãos dele onde cabiam as dela fechadas.
Escondida na palma das suas mãos onde ela cabia inteira.
As mãos dele a agarrar-lhe suavemente a nuca.
Os cabelos a escorregar sem pressa por entre os dedos das suas mãos.
A cara dela entre as suas mãos suaves.
As suas mãos sempre quentes a deslizar-lhe pelas costas.
A tamborilar-lhe nas costas qualquer uma das melodias perenes que trazia na cabeça.
A desenhar-lhe nas costas nuas as formas de palavras que lhe pedia para adivinhar.
E sempre, de todas as vezes, se lhe arrepiava levemente a pele na antecipação do toque das suas mãos.
As mãos dele que lhe seguravam todas as portas que tiveram de atravessar.
As mãos dele sempre estendidas quando ela chegava.
O princípio acontecera inteiro pelas mãos dele.


O fim fora todo pelas dela...

Friday, April 15

"It's dark I know but then again, It's the brightest thing I got, Cause I'm covered in rain..."

Como será possível ter medo de um nome?
Ter receio que a pronúncia do teu substantivo destrua a constância que venho retomando.
Não te repeti mais, na aflição de que o que resta me transpareça e se desvaneça depois como o Verão a fingir que Abril auspiciava.
Vejo-te escrito em muros todos os dias e esforço-me por não crer que possa ser obra minha, nalgum acometimento de sonambulismo recorrente.
Não há anagrama que te disfarce a identidade.
Não há filologia que te revele a minha.

Thursday, April 14

Virá agora um dia em que não estarei mais aqui e aí tu quererás de mim o mesmo que um deserto sob a inclemência do Estio.

Depois uma noite, não conseguindo esperar mais, saiu de casa como um louco.
Chovia muito e não havia forma de fazer parar um táxi.
Corria por entre poças de água suja mas sentia as gotas lavarem-lhe os afectos.
Fixara os olhos na luz ao fundo que achava ser a casa dela e desviava-se com brusquidão dos guarda-chuvas em sentido contrário.
Estava molhado até à alma quando chegou à sua porta.
Quando ela abriu a porta e o olhou com náusea alcançou que nada mais havia a fazer.
Deixou-se então por fim diluir no pranto dos céus e estava já morto há três dias quando o acharam.
Na verdade sabia-se extinto desde que a conhecera, fazia mais de um ano.
Só não tivera até então a mundícia de o reconhecer.

Wednesday, April 13

it´s the end of the world as we know it

De vez em quando recordava o som do seu riso.
De vez em quando relembrava a energia silenciosa que emanava da sua voz, como rios de calma amaciando as margens da intemperança dela.
De vez em quando vislumbrava o sorriso perene que lhe iluminava o rosto.
Aí saía desnorteada pelas ruas, escrevendo o nome dele nos muros, nos autocarros, nos passeios, nas pontes, nos rios, nas portas das casas das pessoas, nas nuvens, no ar, dentro dela. Ali, em todos os sítios onde sabia que ele não podia chegar.
Foi então que um dia, depois de um destes frenesins, a cidade acordou com o nome dele escrito por todo lado.
Um nome que invadiu tudo, que tomou de assalto todo o espaço livre, que não deixava mais nada para dizer, um nome que por isso se tornou irrepetível.

rules and regulations

Apaixonava-se por palavras.
Excitava-se com o som de certos vocábulos.
Degustava com minúcia a pronúncia de determinadas locuções.
Deleitava-se com os pequenos detalhes que o léxico tinha para oferecer.
Um dia, porém, furtaram-lhe o dicionário.
Foi então que se viu extraviada, despercebida, muda por uma gramática que ignorava.

Tuesday, April 12

been there, did not do that

Ter a coragem de ir lá... e a cobardia de ficar à porta.
Ter a coragem de sair cedo de casa numa correria doida para chegar, um nó na garganta pelas palavras que me sabia não me iam sair, as borboletas no estômago revoltas de tamanho disparate... e a cobardia de ficar a olhar para as portas de vidro, para as pessoas apressadas na expectativa da partida.
Ter a coragem de sair do autocarro, parar mesmo em frente... e a cobardia de ficar à porta por receio de ser tida como despicienda.
Ter tido a coragem de querer fazer... e viver agora com a cobardia de quase ter feito.

wAtErCoLoReD wOrLdS

He used to read from her every night now. A page, maybe two, sometimes three if he felt tempted. It had been like that since she left.
He never really cared much for her stories when they were together, but since she left he could not help it. Like some strange line to her had to be preserved, needed to be held to keep him afloat.
They were together a short while, not even a year. It started off with something silly, really, her coming into the gallery to pick up a painting for a client of hers, a brief introduction by the curator, and all the light of the world suddenly sprang from her eyes.
All the time they were together he could not draw her eyes right, he could not read all the colorful worlds she had inside.
She didn’t look at him, she gazed. It was embarrassing really, but she seemed not to be able to avoid it.
He was a prince of colors, a king of shapes, picking up the meaningless object and drawing it into life.
She virtually gasped for air in his presence. He felt a bit narcissistic around her, and has they started seeing each other he gained even more confidence and that started showing in his work.
He won award after award that year, the talent he had inside pouring out like a dam after a flood.
She was the quiet type, never spoke much, a bit shy most of the time. Not the kind to turn heads you see.
Only that light in her eyes when he was around.
He spent hours working, didn’t like to be distracted, so she sat by herself and wrote stories. Funny ones, sad ones, real and make believe ones.
He didn’t care much for them then. It was her way of passing the time until he was tired and took a break.
Then he would come out of his world, never letting her in, bathing in her relinquished admiration.
She had in him a sort of earth shuttering faith, a certainty that he was destined for greatness, an admiration that went without a spot.
There were other women of course. High legged models he met at award ceremonies, rich women waiting for a bite at the newcomer artist of the year, beautiful women just seeking a thrill.
Not one with the same light in their eyes, not one with that palette of colors springing out of their iris.
As if the colors of his drawings had fled to her eyes, seeking refuge from his enslaving. They then dropped from her round eyes to paper, coloring her lifeless stories.
He never read any of them at the time, so he knew nothing of these verbal sketches she made while he worked.
As time passed he began to grow even more famous, having to work harder every time, with lesser time for her.
Her eyes grew dimmer, like the watercolors of a pond fading with the mix of raindrops, until one day he noticed there was no more light inside.
He knew that when she looked at him now she saw only a simple boy with blank sheets of paper and a handful of unsharpened, broken down crayons.
That’s when he made her leave, when he noticed he had no more colors to share with the world.
She left as quieter as she came, some of her things left behind, her stories forgotten in a drawer.
Immersed in his sudden uncolorfulness, he never came around to throwing them away.
Until one day he picked up a couple of pages.
As he read them he began to recognize the pigment he used in one particular drawing, and then a bit of tincture from a certain painting, and some dye from a specific illustration.
At first he felt enraged, robbed, violated,
But as he went from page to page, from word to word, he began grasping the meaning of her stories.
He had never shared his colors with her, you see. For all the shades and pigments he had inside, he never found the time to let her glimpse at his world.
So she absorbed what she could from his work, saving it inside her big pondy eyes, letting it slip down as words to her stories.
Now every night he reads one or two pages, three if he feels tempted.
Sipping back all the colors into his life, he began to work again.
His most remarkable drawing if that of a woman's eyes, where if one looks close enough, all the colors in the world are to be found.

Monday, April 11

"Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvageria ignorada..."- Fernando Pessoa

Lá estás tu ai outra vez a desassossegar-me.
Raios, que não há sexta-feira em que um homem não possa trabalhar em paz.
Tu és assim, cíclica, pertinaz
Deve ser de teres o ócio ao virar das 5.30, e pronto, dá-te para isto.
Eu, aqui cheio de trabalho, desde das 8h da manhã a terminar relatórios de contas e balancetes semanais.
Tu, com as tuas entradas triunfantes de madonna sem arrependimento, alvoroças-me os papéis todos.
Nem as fotos de família que por aqui espalhei te coíbem pois não?
Sentes-te ainda mais espicaçada pelo interdito.
Degustas melhor o pecado.
E esse vestido pegadiço mulher, isso é o que? E com este frio.
Já te adivinho as formas, já te prevejo as emoções.
Tu não tens receio de te constipar não, de adoecer? E depois como seria?
Acabava-se logo esta tua insanidade semanal.
Talvez fosse até melhor, sabes?! É que fanhosa e com o nariz a pingar perdias de certeza a pose.
Não olhes para mim. Já te disse que não, que não pode ser, que não haveria repetições.
Deixa-te ai estar no teu cubículo. Não te levantes, que diabo.
Não te quero ver as curvas, notar o balanço das ancas, ou perceber o reboliço interior.
Ai, mas eu não disse para te deixares estar quieta? Lá vens tu daí desse lado da sala.
Não te estou a ver, concentrado no balancete da produtividade.
Que não vejo, que não quero, que não posso.
Olha, mas tu livra-te de que eu te sinta o cheiro, tu livra-te de me tocar.
Não pode ser, está tudo perdido, estás a 3 passos e já te sinto o perfume, estás a 2 passos e já te sinto o calor, estás a 1 passo e já sei que te não vou resistir.
Creio-te por um magneto de proporções incontornáveis.
Agora que me relembraste o gosto não há nada a fazer.
Daqui a quando, já te vejo sem o vestido, já te tenho sem relutâncias, já te tomo sem hesitações.
Na sala das fotocópias, no elevador da administração, na mesa da sala de reunião, pouco importa. Não vou lembrar-me da mulher, da filha pequenina, dos cães, da hipoteca da casa, da prestação do carro, dos balancetes, dos relatórios, da reunião da administração.
Só vais ser tu, o teu cheiro na minha boca, o teu sabor na minha respiração, o calor da tua pele a derreter-me os sentidos, a pressão das tuas coxas à minha volta, as tuas mãos que me enlaçam o corpo, a premência do desejo retardado à força de tanta reticência.

What will happen to that hot affair we will have twice a year?

No fim de contas (ainda é um bocado cedo para me por a fazer contas, que isto de serem 6 da manhã não é hora própria para nada a não ser dormir, porque até para sonhar há muito que já passou a hora), no fim das contas que irei fazer, isto até nem foi tão terrível assim.
Quer dizer, tu não foste, fui eu (raios que se há definição para o conceito de meter os pés pelas mãos, ai onde me lês podes ficar seguro que eu sou a (in)definida) com tanta hesitação e titubeio, a enrolar as palavras que queria que não te soasse ralas.
Tu, mais que tudo és uma boa razão. Em forma de gente, e pleno de formas. E de cores (eu já te disse que tu és cheio de cores não já? Que te vejo numa paleta policromática, uma espécie de caleidoscópio do arco-íris, vá-se lá saber porquê. Sim, creio que já te disse.)
Melhor que uma boa, uma óptima razão (se me permites a ousadia, por eu sei que já não me é permitida muita coisa, mas como pelo menos aqui quem manda ainda sou eu, posso fazer o que quiser que ninguém me prende) para tudo, para o que quer que seja. Para escrever, para pensar, para andar a esquadrinhar realidades paralelas, para tudo que eu sei lá se de verdade existe, para escapar para a Polinésia e viver na praia a vender colares feitos com pedrinhas coloridas vindas de montanhas do outro lado do mundo, para as histórias que descobri que gosto de criar..
E que isto para parecer bonito (que mania que nós temos de querer que tudo pareça, não nos contentamos com deixar que as coisas só sejam, e eu também quis que isto parecesse bonito e não deixei que fosse só o que é) para parecer menos cru, menos visceral, menos episódico e insensato, isto teria que ter sido menos como foi e mais como devia ter sido (já sei, já sei estou a enrolar outra vez, tem calma, antes que se me esgotem as palavras e mais cedo do que se esgote a tua paciência isto vai chegar a algum lado).
Mas escrevia eu, isto para ser o que podia, devia ter começado com todos os desenhos (que sabes que não sei fazer) com um risco.

Um risco na forma das letras, resultando na soma das palavras que explicariam a vontade que tenho de te verificar pelo uso.
Como as tatuagens de faz de conta, com desenhos de super heróis que me saíam nos gelados que comia em pequena e que não resistia em decalcar na pele( fazes lá ideia o raspanete que a minha mãe me passava por causa da porcaria que aquilo era, de como sujava a roupa toda e ia ser uma trabalheira para sair) passando eternidades ostentando orgulhosa a marca da ilusão de ser, por umas semanas( que aquilo demorava mesmo a sair) a ajudante secreta do super herói sensação.
Eu queria provar-te a ilusão, ainda que com a certeza, com a segurança, de saber que no final me ias acabar por sair da pele.
Era assim que eu queria ter começado ( não comecei, já sei, já sei, e o começo não é coisa que dê para repetir), com um risco. Um risco a marcar o até onde queria ir (melhor talvez um tracejado para tu poderes completar os espaços e definires o percurso da experimentação que me estaria permitida, não achas?), a marcar até onde era o caminho que tanta água e areia depois, nos estava permitido percorrer.
Mas não comecei. Fartei-me de fazer linhas incompletas, pontos por todo o lado e com tanto rabisco nada ficou perceptível (agora gostava de saber desenhar, só para conseguir decalcar esse sorriso perene que te ilumina o rosto, eu já te disse que estás sempre a sorrir? Sim, acho que já te disse)
Eu não sou boa a desenhar, nunca fui. Construo imagens com palavras e pinto com letras a realidade das cores que queria ver.
Na volta teria sido mais acertado munir-me de um bloco de post-it (ou 2, talvez será melhor).
Daqueles amarelos fluorescentes para ir escrevinhando as imagens e colando por ti as cores do que te queria dizer (já te estou a ver repleto de papelinhos, no meio da rua com as pessoas apressadas, cinzentas, a olhar para ti pelo canto do olho, e tu como se não fosse nada contigo, seguindo complacente o meu caminho sem vontade). Depois também uns post-it verdes para quando te sentisse já mais atento, mais receptivo a tamanha imprudência (já sei, já sei, estou a ser presunçosa)
O que eu devia ter começado por dizer era que, no princípio, no meio e no fim de contas (as tais que eu, no inicio desta conversa, dizia ser muito cedo para fazer ainda) o que eu queria era ter-te provado o cheiro, descoberto o sabor, apreendido a leveza, ensinado a imprudência, tacteado o calor, escamoteado a sensatez.
(Ah, mas e depois, estarás tu ai, cauteloso, ajuizado, sensato, a interrogar-te).
E depois? Depois disto nada. Ficava o que restava de agora a somar ao que era de antes.
Era só, bastava-me.

Como se na realidade tudo isto fosse pouco.
Terminou de escrever as mesmas palavras pela enésima vez e novamente rasgou as folhas que lançou para o monte de papel amachucado que jazia a seus pés.Sentiu a vida lá fora acordar de mansinho ao ritmo da luz do sol que começava a despontar no horizonte. Quando o gato entrou sorrateiro no seu quarto soube que eram horas para despertar da vígilia que a mantivera dormente tanto tempo. Vindo do quarto do filho sentiu um remexer de lençóis que a puxou bruscamente para a realidade.
A sua vida continuava ali.

Sunday, April 10

on, and on, and on...

E depois uma vez, mais uma vez e ainda outra vez a tua mão nas minhas costas, a tua boca no meu pescoço, a tua vontade contra a minha.
Deste-me ordem de despejo, mas qual inquilina ocupante, recuso-me a sair.
De novo a tua mão na minha coxa, tu colado a mim na urgência de me tomares e eu impressa contra esta parede.
Ainda assim, persisto na recusa em vagar o imóvel de pessoas e bens conforme ordenado.
Na tua pressa arrancas um botão e libertas-me a alça da sua função. Sentes o frio do cimento da parede e as minhas costas nuas queimarem-te os braços.
Dou-me por derrotada com a tua invasão.
Não me resta mais que desvanecer-me.
Seja feita a tua vontade.

Saturday, April 9

Andar presa por fios de água e ter as mãos marcadas por cortes de papel. Agora o pior que lhe podia acontecer era chegar o Verão.

Ou como desvanecer-se aos primeiros sinais de Estio.

"Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, não lhe posso tocar."- Fernando Pessoa

Fazia 3 anos que não falava a ninguém.
3 anos de um ruidoso silêncio, de um protesto aceso a gritar aos ouvidos de quantos a conheciam.
3 anos em que os únicos sons que saíam da sua boca eram tão só os de um embalo sereno de respiração enquanto dormia.
Parecia um anjo enquanto dormia.
Acordada era outra história.
Era um demónio de silêncio a deixar a sua revolta escrita em todas as superfícies que conseguia encontrar.

climate changes

Havia dias assim.
Gélidos, de sol, de céu azul pacífico e nuvens de todas as cores impossíveis de Hayao.
Dias em que o querer contendia com a razão.
Dias em que o vento que lhe queimava a cara auxiliava na recolha dos pedaços espalhados de si.
Dias que auspiciavam mudanças no tempo.
No seu.

back to you

Na última hora correu para o aeroporto.
Não pensou em explicações contundentes, agarrou o casaco e foi.
Apanhou um táxi que nunca mais chegava e se rezasse teria ido todo o tempo a pedir nevoeiro cerrado para atrasar a partida.
Nem bem saberia o que dizer.
Uma coisa de cada vez e agora o importante era chegar.
E aquele táxi que não andava, e o condutor com as desculpas da praxe, a conversa sobre o tempo, o trânsito.
E a estrada vazia, as luzes da rua sucumbindo atrás de si com o anunciar da madrugada.
Via já o clarão do aeroporto. Sentiu um frio no estômago.
E o condutor que não se calava com as desculpas da praxe, a conversa sobre o tempo, o trânsito.
Não se lembra de ter parado em frente ao terminal das partidas, não se lembra de ter pago o táxi.
Olhou para o relógio, tinha já começado o check-in.
Dirigiu-se rapidamente para as portas de entrada e no último segundo deteve-se.
Ficou ali em frente às portas automáticas com o sensor a detectar a sua presença e a abrir e fechar repetidamente, confuso com a falta de decisão, com a inércia que veio assim de supetão.
O que diria se resolvesse entrar? Qual iria ser a reacção? Não tinha nenhuma justificação plausível para ali estar.
Como iria ser este encontro? Que poderia explicar tamanho despropósito?
Que tolice esta... para o que haveria de lhe ter dado... assim, sem mais razão que um olhar que durou uns segundos além que o comum.
E as portas furiosas a abrir e fechar insistentemente, as pessoas atrasadas que se acotovelam para entrar, o ruído dos aviões que começam a descolar.
Via instantâneos de despedidas do lado de dentro do terminal, cortadas pelo fechar da porta automática e do seu reflexo inerte plasmado nela.
Sem precisão de relógio sentia os minutos atravessarem-lhe as entranhas deixando tudo gelado, dormente.
O tempo que lhe escorria pelas mãos com a areia de uma ampulheta.
Não se conseguia forçar a entrar, as portas sempre a fecharem quando parecia que a decisão ia chegar.
Com ar de zombaria abriam-se depois, em tom de desafio deixando antever tudo o que poderia estar para vir.
Mantinha-se na inércia, no temor de um acolhimento menos efusivo, na falta de justificativas para atitude tão despropositada.
As portas fechando e abrindo como se controladas por um desígnio superior, como se escarnecendo da sua hesitação.
Não lhe restava muito mais tempo para persistir naquele torpor.
Doíam-lhe as mãos do frio sibilante daquela aurora de Inverno.
Doía-lhe o corpo todo do tremor da incerteza.
E as pessoas que entravam animadas, carregadas de malas e de expectativas.
A porta sempre a fechar e abrir, o sensor a detectar a sua presença, confuso com uma indecisão pouco comum em quem desta porta se aproximava.
E o seu corpo preso ao chão, as suas mãos geladas da dúvida, a sua indecisão plasmada nos vidros brilhantes da porta automática.

Friday, April 8


- Oh Carlos, venha cá, venha cá que eu não aguento mais isto
E o Carlos, hirsuto, obediente, entrou no gabinete do escrivão. Aquilo antes era o arquivo morto, mas desde que tinha acontecido aquilo da reforma das estruturas e o escrivão foi promovido, aquilo passou a ser o "gabinete do senhor escrivão".
Mas adiante, com Carlos já no gabinete, manga-de-alpaca puída, deviam ser duas mas o ano passado roubaram-lhe a direita, e ainda não desistira de achar o malandro e aí é que eles iam ver como elas mordem, iam sim senhor ou não se chamasse ele Carlos Ricardo Melo Ifúria.
-Mas então que foi Sr. Escrivão? - Num tom de quem suplica pela ausência de réplica, e ainda com as folhas do despacho na mão, olhando de soslaio para o sossego da sua mesinha do canto.
E o escrivão passeando a impaciência pelo acanhado gabinete, prosseguindo no seu semi-monólogo.
-Isto só a mim Carlos, só a mim! O que me estava reservado, homem, aos 57 anos. Eu nem quis crer, mas as evidências Carlos, as evidências
-É claríssimo, Carlos, que nem água, que nem água
E Carlos ali de pé, paciente, resignado – Então Sr. Escrivão, tenha calma, olhe a pressão -
E o escrivão numa agitação pueril– Mas é inegável, homem, inegável – prossegue.
- A rapariga deita-me olhos, e que olhos, Carlos, que olhos! Eu nem queria acreditar Carlos, mas um cego veria, ah podes apostar que veria -
E Carlos, já com uma ponta de fartura – Rapariga, Sr. Escrivão? – enquanto tenta calcular o número de passos até à gasta mesinha do canto.
- Sim, Carlos, mas tu não me estás a ouvir?
- A rapariga do Fonseca do restaurante! A roliça dos olhos verdes. Bota-me cá uns olhares, de despertar um morto
-
E Carlos, pasmado, com as folhas do despacho na mão.
- Faz semanas que andava a notar que quando era ela que me servia, a travessa do cozido vinha sempre mais cheia, a fatia de melão era sempre a melhor – prossegue o escrivão, homem de hábitos alimentares disciplinados.
- Ao início achei-me enganado, mas depois aquilo caiu-me no goto e a hora do almoço começou-me a parecer tardar. Principiei a sentir um nervoso miúdo quando entrava no restaurante e hoje então foi o fim, Carlos. Com aqueles olhos, o cozido não me descia a goela, e a moça quando peço a conta, ao trazer a factura, roça-me ao de leve no ombro e pergunta – "Então hoje o cozidinho não estava bom Sr. Dr.?" –
- Chamou-me Sr. Dr., Carlos, e tudo isto com o calmeirão do Fonseca do outro lado do balcão, a polir os copos com um pano sebento, atento aos trocos dos empregados. -
Carlos, atónito com a presunção do escrivão, o escrivão bexigoso, balofo, asqueroso, quase um anão, deixa escapar um – De facto, Sr. Escrivão, de facto – quando o que lhe apetecia dizer, o que queria cuspir na cara do escrivão, era que ele, Carlos Ricardo Melo Ifúria,oficial de justiça de 2ª classe, andava ia para 2 anos a papar a Adélia dos olhos verdes, a desfrutar a Adélia do Fonseca que era sua 3 vezes por semana, de toda a forma e feitio, quando o Fonseca saia de madrugada para ir ao mercado fornecer o restaurante, a sua Adélia que tinha nojo do escrivão que com a cara bexigosa lhe lembrava um amante da sua mãe, que lhe batia muito e que era fadista em Alfama.
Ficou-se por um – Pois, pois, de facto Sr. Escrivão, de facto – e saiu do gabinete para a placidez da sua mesa do canto, já a antever o seu gozo com a sua Adélia dos olhos verdes, nesta madrugada de mercado do Fonseca, deixando o escrivão naquela agitação húmida, demente, geriátrica.

Thursday, April 7

Misplaced...

Estava já atrasado para o consultório. Telefonara-lhe a secretária a avisar que a doente das 9h já estava à espera.
E então encontrou o amigo ao virar da esquina.
Pareceu-lhe mais velho, no meio daquela neblina matinal, a cidade ainda meia dormente.
Passados os cumprimentos iniciais, o aperto de mão sincero onde imprimiu um “onde andaste tu?”, o embaraço do amigo pelas roupas amassadas e gastas do tempo perdido a calcorrear caminhos que levam a lado nenhum, notou que o amigo não sorria mais.
Conhecera-o com um sorriso, franco, perene.
Agora nas linhas gastas e magras do rosto não lhe conseguia descobrir impressões.
Enquanto falavam de banalidades (“tu tens visto o Tomás?...) com as mãos invisíveis remexia-lhe a pele da cara, (“Encontrei no outro dia o António, casado com um filho pequeno pela mão...”) levantava cada vinco e esquadrinhava cada prega à procura dos resquícios daquilo que o amigo fora para ele.
Em três minutos que lhe pareceram uma vida inteira, viu como o desarrumar dos dias na rotina do consultório, hospital, casa, o haviam afastado do amigo de sempre, este de quem um dia soubera tudo e agora de quem nem o sorriso conseguia recordar.
Notou uma tristeza latente que se lhe aflorava aos olhos, as marés vivas da barra a escalarem o granito do passeio marítimo.
O amigo falava, arrastando as palavras com cada sílaba a estilhaçar-lhe a alma, dos azares da vida, da mulher que o deixou, do filho que não via há mais de 3 anos, do natal a chegar, dos amigos que nunca lhe respondiam às chamadas, das saudades das tertúlias do Santa Maria.
E ele compenetrado a impedir as vagas de galgarem a margem, a escalpelar o rosto do amigo para lhe descobrir resíduos de uma alegria que não tinha mais.
Quando a urgência da doente das 9h se fez de novo ouvir, deu graças a deus pela salvação implícita.
É que pior que não encontrar mais o sorriso do amigo foi a gritante percepção de se achar culpado do extravio.

Wednesday, April 6

Até ver

Um dia acordou e já era outra vida.
De repente toda a corrida das festas lhe parecia milhares de anos-luz no passado, numa viagem interestelar que o levara do sítio onde estava antes para um outro onde ainda não sabia se ficaria.
Gostava deste corpo ao seu lado.
Desta nova miúda que não era bem uma mulher ainda.
Que não era bem a mulher que deixara para trás.
A mulher plausível, segura, apropriada.
Esta miúda quase mulher, que ainda não sabia se era para ficar.
Desconcertava-o, desarmava-o de todas as convicções.
Ela era um choque de cores numa paleta que se queria sóbria.
Era todos os porque não que vivera a vida toda incutindo-se.
Com os seus pensamentos em soluço, os actos dela em antagonismo com as suas crenças.
Vivia absorto por um filme do qual se supunha realizador e ela tinha sempre uma bom argumento para cada loucura que lhe propunha cometerem.
Ele, pacífico, ocioso, um pouco indolente até, ia-se deixando ir. Até ver.
Abismava-se com uma vida como nunca imaginara e deixava-se encantar por planos inusitados que nem bem sabia se queria.
No fundo notava que se desconhecia a cada dia que a ia revelando a ela.
Mas ainda assim não sabia bem se era para ficar.
Às vezes acordava pela manhã, depois de uma noite de revolução, e sentia que já bastava, que era hora de voltar ao seu sossego prazenteiro, à sua casa dormente, aos seus livros protectores, à sua vida camuflada.
Mas, outras tantas vezes, se calhava de acordar e não a ter ao lado, sentia-se extraviado, envelhecido, sozinho num canto onde não chegava mais a luz.
Vivia entre o sossego do lusco-fusco que deixara para trás e receio da aurora que tinha pela frente.
Mas esta miúda, que não era bem uma mulher ainda, não sabia se era para ficar...

Tuesday, April 5

O arrumador de memórias

Tinha contratado um empregado doméstico.
É verdade, um empregado.
Um sujeito que veio à entrevista de emprego impecavelmente vestido e que ela descobrira nas páginas amarelas, na secção de mordomos.
Apresentou-lhe a empreitada, esclareceu-lhe o caderno de encargos, analisou-lhe o curriculum documentador da experiência profissional, discutiram salário e horário de trabalho.
Ficou combinado que começaria na semana seguinte.
Para lhe dar tempo a ela de se habituar a ver assim as suas coisas invadidas por um recém conhecido.
Nos primeiros dias de trabalho aquilo foi uma correria.
Sentia-o andar de um lado para o outro na sua cabeça, arrastar armários, fechar caixas e abrir gavetas.
Chegou a temer por enxaquecas ou cefaleias.
Tirava as coisas de um sítio, arrumava noutro e com isto ela ia descobrindo lembranças que julgava perdidas, recordações que não sabia onde tinha deixado.
Aquilo começou a parecer-lhe uma grande ideia, ele a catalogar por ordem alfabética as emoções e os pensamentos, as ideias e os disparates.
Passou a ter tudo à mão, a encontrar tudo a tempo.
Tudo bem organizado na prateleira de cima, ou na caixa azul, no armário do centro ou na gaveta da entrada.
Mas havia ainda um compartimento onde ele não entrara.
Onde se amontoavam as recordações profundas, a tralha que se queria recôndita.Os pensamentos mais secretos e os desejos mais inconfessáveis
E foi de lá de onde lhe começou a surgir uma indistinta estranheza.
Como se as lembranças, as memórias, as recordações agora assim tão arrumadinhas, em tão perfeita ordem não fossem mais suas, tivessem deixado de lhe pertencer.
Assim foram prosseguindo os trabalhos, até que, mais de um mês depois, o empregado veio um dia com um papelucho onde se podia ler que pretendia a rescisão do contrato com justa causa por falta de pagamento do salário merecido.
Primeiro chocou-a o desplante do sujeito.
Depois pensando melhor, o papelucho começou a parecer-lhe uma carta de alforria.
Ao que parece as memórias da sala que nunca foi arrumada juntaram-se uma noite à socapa, tiveram a brilhante ideia de esquecerem de a lembrar que tinha que pagar o trabalho do empregado.
Voltou tudo ao caos inicial.
E no meio de tanta confusão voltou a sentir tudo como seu.

Monday, April 4

invisível a cores

Depois na urgência de fuga vestia-se com roupas diferentes.
Disfarçava-se do que não era na expectativa de deixar de ser vista.
Circulava por artérias etéreas qual fantasma de vestido escarlate e trazia nos lábios o sorriso desbotado de uma existência porvir.
Nunca parava tempo suficiente para querer ficar.
Se parava tempo bastante começavam a querer que ficasse.
Então não sabia resistir. A doçura agrilhoava-a.
Ai despia-se das vidas passadas e arrumava no armário do canto o vestido escarlate.
O sorriso coloria-se um pouco mais e não tardava a que a memória de desejos embutidos na sua essência lhe falhasse.
Vivia então a espaços uma existência prazenteira, sem sobressaltos e ninava as águas da voragem que trazia dentro.
Até que um dia, nas rotinas da sua comezinha existência, deslizando por uma montra fosca, via um vestido escarlate.
Cresciam-lhe então os olhos, dois espelhos demasiado grandes para continuar a conter a imensidão de água que trazia dentro.
A sobressalto, e com despudor, o vazio ocupado por todas as coisas que não se cumpriam, tomava de assalto, o espaço das salas por onde compartimentava a sua existência, até não sobrar mais lugar para si própria.
Abria então o armário do canto, voltava a pôr o vestido escarlate, descolorava o sorriso e retomava o caminho das recordações futuras.
Uma existência porvir que trazia consigo os arautos de uma implosão expectada.
Soltava os rios que trazia dentro e afogava nele as memórias de cada vida interrompida.
Escorregava das mãos dos outros como água por um passador de rede.
Tornava-se de novo invisível.

Sunday, April 3

bAcK tO yOu

Na última hora correu para o aeroporto.
Não pensou em explicações contundentes, agarrou o casaco e foi.
Apanhou um táxi que nunca mais chegava e se rezasse teria ido todo o tempo a pedir nevoeiro cerrado para atrasar a partida.
Nem bem saberia o que dizer.
Uma coisa de cada vez e agora o importante era chegar.
E aquele táxi que não andava, e o condutor com as desculpas da praxe, a conversa sobre o tempo, o trânsito.
E a estrada vazia, as luzes da rua sucumbindo atrás de si com o anunciar da madrugada.
Via já o clarão do aeroporto. Sentiu um frio no estômago.
E o condutor que não se calava com as desculpas da praxe, a conversa sobre o tempo, o trânsito.
Não se lembra de ter parado em frente ao terminal das partidas, não se lembra de ter pago o táxi.
Olhou para o relógio, tinha já começado o check-in.
Dirigiu-se rapidamente para as portas de entrada e no último segundo deteve-se.
Ficou ali em frente às portas automáticas com o sensor a detectar a sua presença e a abrir e fechar repetidamente, confuso com a falta de decisão, com a inércia que veio assim de supetão.
O que diria se resolvesse entrar? Qual iria ser a reacção? Não tinha nenhuma justificação plausível para ali estar.
Como iria ser este encontro? Que poderia explicar tamanho despropósito?
Que tolice esta... para o que haveria de lhe ter dado... assim, sem mais razão que um olhar que durou uns segundos além que o comum.
E as portas furiosas a abrir e fechar insistentemente, as pessoas atrasadas que se acotovelam para entrar, o ruído dos aviões que começam a descolar.
Via instantâneos de despedidas do lado de dentro do terminal, cortadas pelo fechar da porta automática e do seu reflexo inerte plasmado nela.
Sem precisão de relógio sentia os minutos atravessarem-lhe as entranhas deixando tudo gelado, dormente.
O tempo que lhe escorria pelas mãos com a areia de uma ampulheta.
Não se conseguia forçar a entrar, as portas sempre a fecharem quando parecia que a decisão ia chegar.
Com ar de zombaria abriam-se depois, em tom de desafio deixando antever tudo o que poderia estar para vir.
Mantinha-se na inércia, no temor de um acolhimento menos efusivo, na falta de justificativas para atitude tão despropositada.
As portas fechando e abrindo como se controladas por um desígnio superior, como se escarnecendo da sua hesitação.
Não lhe restava muito mais tempo para persistir naquele torpor.
Doíam-lhe as mãos do frio sibilante daquela aurora de Inverno.
Doía-lhe o corpo todo do tremor da incerteza.
E as pessoas que entravam animadas, carregadas de malas e de expectativas.
A porta sempre a fechar e abrir, o sensor a detectar a sua presença, confuso com uma indecisão pouco comum em quem desta porta se aproximava.
E o seu corpo preso ao chão, as suas mãos geladas da dúvida, a sua indecisão plasmada nos vidros brilhantes da porta automática.

for the rest of the days...

Eu fiz-me ridícula.
Nessa tua parcimónia de actos e palavras tornaste-me risível.
A mim, plena de experimentações que não foram, a quem nunca transpareciam os sentimentos.
Deixaste-me nua da minha solidez.
Paira no ar o pó a que reduziste as minhas fortalezas.
Encontro-me feitora de domínios sem préstimo.
Eu, com as minhas certezas desacreditadas, subjugada a uma inefável contingência.
Eu faço-me ridícula.
Insistindo em sugestões do que não há-de ser.
Teimando em arroubos do improvável.
Perseverando em quimeras indeléveis.
Neste engano dos sentidos, nesta ofensa a uma inteligência que teimo em manter encarcerada, torno-me risível.
Estou simplificada ao que deixei de ser.
Venho-me desfazendo num orvalho que se foi condensando na tua janela, e que à força de tanto persistir se desfez em gotas que escorrem agora para algum mar interior.
Rios de água evaporada para aplacar queimadas de labirintos sem árvores.
Com tudo isto fiz-me risível.
E por tudo isto não achei feitio de me reparares graça.

everyday... never...

Deixava-se ficar imóvel todas as manhãs.
Escutava o despertador dele e falseava continuar dormente.
Ele levantava-se, ia para a casa de banho, abria o chuveiro e ela nem se mexia.
Ficava quieta a imaginá-lo debaixo daquela sólida cortina de água quente.
Nem mudava de posição para ele não a desconfiar atenta.
Depois o calor e os cheiros que inundavam o quarto quando ele abria a porta e saia enlaçado numa nuvem de água sublimada.
De olhos cerrados assistia aos arranjos cuidados dele que, incauto, não fazia o menor ruído para a não despertar.
Quando estava pronto sentia-o hesitar entre um beijo de despedida e o receio de a acordar.
Ganhava o receio. E ela sempre inerte.
Só depois de o ouvir bater a porta, só depois de o sentir entrar na garagem, fazia alguma diligência para se despertar.
À noite persistia na fabulação.
Era assim que vinham evitando encontrar-se.
Era assim que os dois conseguiam coexistir sem nunca se descobrir.

no more...

Que o largasse, que isto assim não podia ser. Não podia.
E sempre as suas mãos por todo lado.
E ele sempre com a mesma atitude reticente, repetente.
A boca que murmura uma coisa e os olhos e o corpo que clamam por outra.
Que não podia ser. Que tinha a mulher, os filhos pequeninos, o cão, a hipoteca da casa.
Que não podia ser.
Mas era sempre.
Fora sempre assim desde que se conheceram e seria sempre assim até ela dizer basta.
Ambos o sabiam bem.
Mas ainda assim, ou talvez por isso, tinham-se quando não podiam, onde não queriam.
Em todo lado, sempre.
E ele sempre que o largasse, que isto não podia ser.
Mas não havia outra forma menos fugaz, menos dolosa para existirem.
Nem mais veemente, mais imponderada, mais insistente.
E nunca podia ser.
Nunca podia.

a duas mãos

Most of the time she did not know what to do with herself.
Or with him for that matter.
Passavam horas imaginando experimentar-se a mezza luna.
Depois separados, cada um no seu cubículo aguardando que por dissonâncias magnéticas, que por desequilíbrios do sistema os pensamentos dela chegassem à cabeça dele, as mãos dele chegassem ao corpo dela.
À espera de retransmitir pulsões através dos enleios de cabos telefónicos dispostos aos seus pés.
Mas como para todas as transmissões não autorizadas há sempre uma firewall de plantão, muitas das respectivas assistolias perdiam-se numa rede de fios de água.
Tamanha repetição de impulsos interferia com os desígnios do servidor comodamente instalado numa qualquer super potência relapsa.
But in deed, most of the time she did not know what to do with herself.
Or with him for that matter.

black, white and grey

Once upon a time there was this colorful prince.
Once upon a time there was this blank princess.
One day the princess stared at a sunflower and found all the colors she had not been looking for.
The prince went about his business and was never to be seen again.
The prince’s eyes were shut to the princess’s colors.
Somehow the prince was disenchanted and the princess lost her new found bright.
A dyed princess trapped inside a canvas too large to suppress such inexcusable grief.

still words

Um dia encontrou o postal numa gaveta que não abria fazia décadas.
Dizia tão só:

" Tu gostavas de ser diferente, mas és como és e é escusado teres vergonha, não vale a pena. És assim, perfeito, nem podes ser de outra maneira, e eu gosto de ti assim, já te disse. "

Sempre soubera que havia palavras bonitas.
Naquele dia arrependeu-se de nunca ter mandado o postal.
Agora seriam para sempre apenas palavras mudas paradas num tempo passado, inútil, perdido.

for this night only

Tinha as palavras espalhadas pela casa toda.
Via letras desordenadas pelas paredes, gotejavam vocábulos descabidos de cada torneira aberta.
Esbarrava com frases duras pelo chão entre a cozinha e o escritório.
Não havia nada a dizer e ela a chocar com elocuções obstinadas por tudo o que era canto.
Via-as penduradas nas cortinas, manhosas, escorregando pelas ombreiras das portas, espalhadas insolentemente em cima da cama.
Jorravam das estantes e escorriam, grosseiras, pelas beiras do sofá.
Havia palavras frias dentro de cada recipiente, bazando secamente de todos os copos, nadando descontraidas em cada tigela vazia.
E quando se deitava achava-as entre os lençóis, ásperas, desconfortando-lhe a alma, roubando-lhe o sono.
Abria os olhos e tinha-as especadas no tecto, incandescentes, a corromper-lhe a retina.
Levantava-se, andava descalça pela casa e magoava os pés em palavras rasgantes, hostis.
Agarravam-se-lhe aos tornozelos, irascíveis, tolhiam-lhe os movimentos.
Sonegavam-lhe a clareza, melindravam-lhe o espirito.
Em casa existiam também as outras.
Armários plenos de palavras melífluas, ternas, balsâmicas para os melindres que se ia inflingindo.
Temia abri-los com receio que lhe escapassem.
Fazia anos que as não via.
Mantinha-se carcereira de vocábulos prazenteiros.
Nalgumas noites insones, com afirmações agrestes já a escalarem-lhe as pernas, espreitava pelas frinchas dos armários para se certificar que ainda lá estavam.
Ao aproximar-se sentia o estomâgo borboletear e via as correntes verbais que lhe estorvavam os passos recuar para a sua parcimónia.
Era assim que as sabia ainda lá.
Voltava então para a cama sacudindo os lençóis para se libertar das sentenças que lhe aguilhoavam o sono.
Pelo menos por esta noite dormiria sossegada.
Colhia nos muros as palavras que espalhava como sementes numa ilusória página negra.
Colhia nas paredes a significância das coisas que lhe faltava viver.
Mas o muro esgotava-se e a voz dele também.
Precisava de encontrar rotas novas para poder continuar a encher aquelas folhas.
As páginas em branco sempre a haviam incomodado...

everyday... always

Invariavelmente voltava todas as noites a casa dela.
Umas vezes ela permitia-lhe a entrada. Outras não.
Ele, estoicamente, perseverava.
Vencê-la-ia pela lassidão.
Vencia-a já pela doçura...

temporary blindness

Às vezes à força de tanto abrir os olhos não vemos o que está mesmo à nossa frente.
Esfregamos a vista, arregalamos as órbitas, dilatamos a retina para nos manter cegos ao que nos está defronte.
Se por acaso nos surge algum lampejo de realidade, imputamos tal disformidade a um qualquer cisco que nos mutila momentaneamente a íris, que nos enxovalha o cristalino.
Não fomos feitos para ver.
Não estamos desenhados para observar.
Não fomos pensados para atentar no real, no palpável.
Fomos concebidos para imaginar.
Fomos planeados para sonhar.
Fomos gerados para idealizar.
A realidade entra em nós qual incendiário por campo de trigo seco e com celeridade apaziguamos o (ar)dor das chamas com uma previdente e onírica liquidez.
Às vezes à força de tanto abrir os olhos desconectamos os demais sentidos.
Apagamos o gosto, desfazemos o tacto, extinguimos a audição, aquietamos o olfacto e abatemos a razão.
E depois só nos sobram um olhos ostensivamente abertos.
Só nos restam uns olhos por demais grandes para fazer seja o que for que não seja desfazer-se no humor vítreo que persiste em nos turvar o desvario.

O ponto final

Esteve anos sem dele saber nada.
Um dia numa festa uma amiga contou-lhe que ele tinha sido pai.
Sentiu-se escoar pelas frestas do chão.
Evaporar-se pela janela em laivos de fogo fátuo.
Nem sequer soubera que ele tinha casado.
Ainda tinha ouvido dizer que andou uns tempos pelas festas com uma miúda nova, estrangeira de pernas esguias, mas depois nada mais.
E agora um filho.
Ele que nem queria filhos.
Ficou zonza. Fugia-lhe o chão.
Na verdade mal pensara nele durante estes anos.
Logo depois do fim, sim, ainda lhe vinham desejos dele, nas noites mais frias, mais solitárias, quando não passava nenhum filme na televisão e era tarde para ir ao videoclube.
Recordava-se do cheiro das panquecas que ele fazia quando ela estava triste e vinha-lhe uma dormência melancólica, uma incerteza sobre se teria tomado a escolha devida.
Mas depois adormecia, nascia o sol, sentia-se alentada e tudo ficava na gaveta da lembrança de uma noite esquecida.
E com o tempo a memória, caprichosa, foi ficando mais ténue, mais esbatida, mais plena de novas sensações.
Agora de súbito esta bofetada.
Sentiu-se desfalecer.
Um filho.
Uma mulher.
Viu-se traida.
Viu-se trocada.
Viu-se um resíduo de uma memória ultrapassada.
Ela que era a que seria para sempre.
Ela que era a que não haveria jamais outra.
Era agora a parte do passado dele que não durara.
A parcela da lembrança que fica perdida junto com os berlindes esmurrados e os carrinhos sem rodas.
O pedaço que esquecemos junto com os cromos de jogadores de futebol guardados numa velha caixa de sapatos.
Nunca mais poderia voltar atrás.
Desfazer o equívoco, refazer aquela história, recomeçar aquela vida, reconstruir aquele passado.
E agora um filho.
O filho que era o iníco da vida dele e o fim da eventualidade dela.

Por lado algum

E depois pode até nem ser nada disto.
Por-se a pensar nisto e naquilo para não se lembrar deste ou daquele de quem não se pode saber nada e que não paramos de encontrar em todo os recantos onde nos tentamos eclipsar.
Na mesinha de cabeceira ao acordar, no banho, no frasco de perfume, no vidro do carro, na parede da casa cor-de-rosa, no muro de jardim, omnipresente até à exaustão.
E entretanto de ti nada.
Não ter a mais ínfima ideia de para onde foste quando já aqui não estavas.
Diz ai nessa água toda que te já foste de verdade.
E eu sem ter a mínima ideia de ti.
Só a te encontrar todos os dias em lado nenhum.
A encontrar-te por ai nos sitios onde não vou.

memória sem fim...

Um dia tivera um filho.
Um bébé adorável com umas perninhas gorditas, pele cor de rosa e uma gargalhada que fazia o mundo desaparecer.
Que passava o dia a brincar com as pequeninas mãozitas e a olhar para as mil estrelas de cores infinitas que ela colara no tecto por cima do berço meses antes de ele nascer.
Que balbuciava feliz palavras imaginárias numa conversa secreta que ela conhecia de cor.
Um bébé que não se parecia com a mãe nem com o pai, que tinha olhar de oceano e um narizinho para beijos de esquimó.
Um dia tivera um filho.
Depois, um dia perdera um filho.
Perdera um filho diziam.
Como se perdem as chaves do carro, se esquece o telemóvel nalguma loja ou não se regam as plantas quando vamos de férias.
Perdera um filho como quem não sabe onde deixou um livro, como quem se esquece de tomar o pequeno almoço ou perde a lembrança do aniversário de um amigo.
Perdera um filho diziam.
Não se lembrava de nada.
Talvez fosse por isso que diziam que perdera o filho.
Lembrava-se dos sorrisos do seu bébé todas as manhãs durante o banho, do agitar das pernitas enquanto tentava vesti-lo, ou das sessões de cócegas durante as intermináveis tardes de brincadeira à sombra.
Não se lembrava de o te perdido.
Recordava-se do dia em que o trouxe para casa, da primeira vez em que o deitou no berço e entrou no quarto dele um milhão de vezes durante a noite para lhe escutar o respirar pausado.
Não se recordava de o ter perdido.
Tinha-lhe o cheiro nas mãos, a suavidade da sua pele recém moldada.
Via-lhe ainda os deditos rosados curiosos de todas as formas novas.
O perscrutar inquisito de todas as cores à sua volta e os olhitos profundos pendentes do som da voz dela.
Não tinha memória de o ter perdido.
Perdera um filho diziam.
Como se perde o instante do pôr do sol depois de um dia de praia, como se perde a queda da última gota de chuva no fim de um domingo triste de Março.
Perdera um filho como se deixa fugir o momento do primeiro beijo ou se não nota o suspiro de um amigo.
Perdera o filho cujo calor ainda sentia nos braços.
Não tinha lembrança de coisa alguma que não o seu filho.
Tinha um entorpecimento espalhado pelo corpo, dentro da entranhas, bem até ao fundo da alma.
Não tinha lembrança de coisa alguma que não fosse o seu filho.
E não tinha esperança de coisa nenhuma que não fosse o seu filho perdido.