Se não fosse pedir muito fazias-me uma lista dos teus defeitos.
Arranja aí uns minutos e enumera-me as tuas falhas.
Elenca as tuas imperfeições e cataloga as deformidades.
Faz o rol dos teus vicíos e descreve com minúcia as impropriedades.
Relata-me os teus equívocos e ilustra sem pudor todos os teus comportamentos desviantes.
Especifica-me os teus erros e todas as desumanidades.
Conta-me aquela vez que pisaste um cachorro perdido ou deste um encontrão na velhota cega que mora no fim da rua.
Fala-me do algodão-doce que roubaste do miúdo do 3º andar ou da bola dos putos da vizinhança que chutaste para o saguão do condomínio do lado.
Descreve-me como puxaste as tranças daquela cândida meninha loira ou como não darias o lugar no autocarro a nenhuma mulher grávida.
Diz-me que não reciclas, que escovas os dentes de torneira aberta e que deixas o ar condicionado ligado quando sais de casa.
Que usas o carro para ir na padaria da esquina, só usas prato descartável e que não desligas os electrodomésticos na tomada.
Que mandas o teu estagiário buscar café, obrigas a secretária a chegar mais cedo para ir levantar as camisas na lavandaria e não pagas o salário da doméstica a tempo e horas.
Conta-me dos piropos grosseiros que lanças a miúdas de saia curta com que te cruzas na rua ou da loira burra casada com o chefe de departamento que cobiças desavergonhadamente nas festas da empresa.
Fala-me daquele sitío dentro de ti onde não chega a luz, onde se esborniam todos os tons de negro que ocultas ao mundo.
Diz-me dos fracassos, da libertinagem, dos pecados, dos ódios de estimação....
Enfim... conta-me histórias daquilo que não vi.