Saturday, April 9

Andar presa por fios de água e ter as mãos marcadas por cortes de papel. Agora o pior que lhe podia acontecer era chegar o Verão.

Ou como desvanecer-se aos primeiros sinais de Estio.

"Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, não lhe posso tocar."- Fernando Pessoa

Fazia 3 anos que não falava a ninguém.
3 anos de um ruidoso silêncio, de um protesto aceso a gritar aos ouvidos de quantos a conheciam.
3 anos em que os únicos sons que saíam da sua boca eram tão só os de um embalo sereno de respiração enquanto dormia.
Parecia um anjo enquanto dormia.
Acordada era outra história.
Era um demónio de silêncio a deixar a sua revolta escrita em todas as superfícies que conseguia encontrar.

climate changes

Havia dias assim.
Gélidos, de sol, de céu azul pacífico e nuvens de todas as cores impossíveis de Hayao.
Dias em que o querer contendia com a razão.
Dias em que o vento que lhe queimava a cara auxiliava na recolha dos pedaços espalhados de si.
Dias que auspiciavam mudanças no tempo.
No seu.

back to you

Na última hora correu para o aeroporto.
Não pensou em explicações contundentes, agarrou o casaco e foi.
Apanhou um táxi que nunca mais chegava e se rezasse teria ido todo o tempo a pedir nevoeiro cerrado para atrasar a partida.
Nem bem saberia o que dizer.
Uma coisa de cada vez e agora o importante era chegar.
E aquele táxi que não andava, e o condutor com as desculpas da praxe, a conversa sobre o tempo, o trânsito.
E a estrada vazia, as luzes da rua sucumbindo atrás de si com o anunciar da madrugada.
Via já o clarão do aeroporto. Sentiu um frio no estômago.
E o condutor que não se calava com as desculpas da praxe, a conversa sobre o tempo, o trânsito.
Não se lembra de ter parado em frente ao terminal das partidas, não se lembra de ter pago o táxi.
Olhou para o relógio, tinha já começado o check-in.
Dirigiu-se rapidamente para as portas de entrada e no último segundo deteve-se.
Ficou ali em frente às portas automáticas com o sensor a detectar a sua presença e a abrir e fechar repetidamente, confuso com a falta de decisão, com a inércia que veio assim de supetão.
O que diria se resolvesse entrar? Qual iria ser a reacção? Não tinha nenhuma justificação plausível para ali estar.
Como iria ser este encontro? Que poderia explicar tamanho despropósito?
Que tolice esta... para o que haveria de lhe ter dado... assim, sem mais razão que um olhar que durou uns segundos além que o comum.
E as portas furiosas a abrir e fechar insistentemente, as pessoas atrasadas que se acotovelam para entrar, o ruído dos aviões que começam a descolar.
Via instantâneos de despedidas do lado de dentro do terminal, cortadas pelo fechar da porta automática e do seu reflexo inerte plasmado nela.
Sem precisão de relógio sentia os minutos atravessarem-lhe as entranhas deixando tudo gelado, dormente.
O tempo que lhe escorria pelas mãos com a areia de uma ampulheta.
Não se conseguia forçar a entrar, as portas sempre a fecharem quando parecia que a decisão ia chegar.
Com ar de zombaria abriam-se depois, em tom de desafio deixando antever tudo o que poderia estar para vir.
Mantinha-se na inércia, no temor de um acolhimento menos efusivo, na falta de justificativas para atitude tão despropositada.
As portas fechando e abrindo como se controladas por um desígnio superior, como se escarnecendo da sua hesitação.
Não lhe restava muito mais tempo para persistir naquele torpor.
Doíam-lhe as mãos do frio sibilante daquela aurora de Inverno.
Doía-lhe o corpo todo do tremor da incerteza.
E as pessoas que entravam animadas, carregadas de malas e de expectativas.
A porta sempre a fechar e abrir, o sensor a detectar a sua presença, confuso com uma indecisão pouco comum em quem desta porta se aproximava.
E o seu corpo preso ao chão, as suas mãos geladas da dúvida, a sua indecisão plasmada nos vidros brilhantes da porta automática.