Tuesday, November 29

" Say a word or two to brighten my day, do you think that you could see your way to lay yourself down..."

Quanto mais o via menos o conseguia imaginar.
O contrário era ainda mais verdadeiro.
Nem se recordava sequer da última vez que se cruzaram, sempre na urgência de ter que ir, na pressa de ter que fazer.
Eram como rios paralelos, acompanhando-se no leito mas sem nunca se tocar.
Ele vítreo e de águas tranquilas, ela nublosa, inconstante, sem bem deixar ver o fundo.
Seguiam na firmeza de um propósito derradeiro, na irrealidade de um objectivo comum, de um encontro num mar longínquo quando se cumprisse o sentido daquele seu suceder paralelo.
Esqueciam-se tão só que o instante do seu encontro seria de imediato diluído na imensidão de outras águas, apressadas, obstinadas, convergentes para o mesmo fim.

"...em ti vejo o tempo que passou, vejo o sangue que correu, vejo a força que moveu, quando tudo parou em ti, a tempestade que não há em ti..."

Começavam lentamente a voltar-lhe as palavras.
Sentia o degelar dos dedos pelo ligeiro torpor que lhe recordava as mãos e o acompanhava nos últimos dias.
Como andorinhas buliçosas e extemporâneas para uma Primavera ainda tormentosa.
Todas as pessoas sabiam que uma andorinha não fazia a Primavera.
Ele também, mas por enquanto apaziguava-se com essa expectativa.

"...And I know just why you could not come along with me, this was not your dream, but you always believe in me..."

A espaços as mãos dele eram como água.
Não havia resquício de si por onde não passassem, não havia milímetro que não perscrutassem.
Umas mãos quentes e suaves, imperfeitas e insistentes na sua timidez aparente.
Se havia coisa nele incapaz de mentir eram as mãos.
Foi por elas que percebeu que tudo havia terminado.
Muito tempo antes de o ouvir da boca dele, já as suas mãos haviam dito tudo o que havia para dizer.