Entrava em casa cada dia mais tarde.
Não era o excesso de trabalho, não era a demora no trânsito.
A indolência que se apoderava dele nas horas do fim do cárcere.
Um arrastar de pés que o fazia demorar no arrumar dos papéis, no encerrar dos ficheiros, no arquivar de documentos.
Nem bem sabia porque.
E talvez fosse melhor assim.
Teria que regressar... forçosamente. Não podia deixar-se ficar ali, apagado, inerte.
Não era do seu feitio desistir. Sem explicações, sem ponderações, sem raciocínios milimetricamente calculados nada acontecia na sua vida.
Esta sua existência insonora e vaga de acontecimentos.
Todos em seu redor acreditavam na sua solidez.
O confiável e prestável Antunes.
Faltava-lhe coragem na verdade.
Foi-se conformando com uma realidade que não era a sua, até que se tornou tarde demais para soltar os grilhões.
Cresciam-lhe já líquenes na sola dos sapatos, em volta dos tornozelos, subindo as canelas magras.
Sabia que cada vez que saía no fim de outro dia de trabalho, lhe pareceria mais impossivel voltar na manhã seguinte.
Fechou meticulosamente as gavetas, encerrou o computador, arrumou as canetas no estojo e alinhou os papéis com esmero.
Levantou-se da cadeira e dirigia-se já para a porta quando reparou então na leve flutuação da cortina.
Ainda hesitou uns segundos, a caminho da porta, depois, como que atraído pelo ar frio deste fim de dia de Outono, dirigiu-se para a janela.
Com a mão no trinco viu as luzes acesas desta cidade quase dormente.
Na altura do seu escritório já não se ouvia o ruído da vida dos outros.
Afastou um pouco mais a cortina e abriu totalmente a janela.
Passou-lhe uma vertigem pela cabeça e teve vontade de descobrir o cheiro do vento quando se cai do 57º andar.
Pareceu-lhe tão apelativa a calma iluminada daquele ínicio de noite.
Ali, parado naquele instante, com a mão no trinco, aquela janela, aquele vento e todas aquelas luzes de fundo pareceram-lhe sem qualquer hesitação a melhor saída para a sua inexistência.