Um dia acordou e já era outra vida.
De repente toda a corrida das festas lhe parecia milhares de anos-luz no passado, numa viagem interestelar que o levara do sítio onde estava antes para um outro onde ainda não sabia se ficaria.
Gostava deste corpo ao seu lado.
Desta nova miúda que não era bem uma mulher ainda.
Que não era bem a mulher que deixara para trás.
A mulher plausível, segura, apropriada.
Esta miúda quase mulher, que ainda não sabia se era para ficar.
Desconcertava-o, desarmava-o de todas as convicções.
Ela era um choque de cores numa paleta que se queria sóbria.
Era todos os porque não que vivera a vida toda incutindo-se.
Com os seus pensamentos em soluço, os actos dela em antagonismo com as suas crenças.
Vivia absorto por um filme do qual se supunha realizador e ela tinha sempre uma bom argumento para cada loucura que lhe propunha cometerem.
Ele, pacífico, ocioso, um pouco indolente até, ia-se deixando ir. Até ver.
Abismava-se com uma vida como nunca imaginara e deixava-se encantar por planos inusitados que nem bem sabia se queria.
No fundo notava que se desconhecia a cada dia que a ia revelando a ela.
Mas ainda assim não sabia bem se era para ficar.
Às vezes acordava pela manhã, depois de uma noite de revolução, e sentia que já bastava, que era hora de voltar ao seu sossego prazenteiro, à sua casa dormente, aos seus livros protectores, à sua vida camuflada.
Mas, outras tantas vezes, se calhava de acordar e não a ter ao lado, sentia-se extraviado, envelhecido, sozinho num canto onde não chegava mais a luz.
Vivia entre o sossego do lusco-fusco que deixara para trás e receio da aurora que tinha pela frente.
Mas esta miúda, que não era bem uma mulher ainda, não sabia se era para ficar...