Lá estás tu ai outra vez a desassossegar-me.
Raios, que não há sexta-feira em que um homem não possa trabalhar em paz.
Tu és assim, cíclica, pertinaz
Deve ser de teres o ócio ao virar das 5.30, e pronto, dá-te para isto.
Eu, aqui cheio de trabalho, desde das 8h da manhã a terminar relatórios de contas e balancetes semanais.
Tu, com as tuas entradas triunfantes de madonna sem arrependimento, alvoroças-me os papéis todos.
Nem as fotos de família que por aqui espalhei te coíbem pois não?
Sentes-te ainda mais espicaçada pelo interdito.
Degustas melhor o pecado.
E esse vestido pegadiço mulher, isso é o que? E com este frio.
Já te adivinho as formas, já te prevejo as emoções.
Tu não tens receio de te constipar não, de adoecer? E depois como seria?
Acabava-se logo esta tua insanidade semanal.
Talvez fosse até melhor, sabes?! É que fanhosa e com o nariz a pingar perdias de certeza a pose.
Não olhes para mim. Já te disse que não, que não pode ser, que não haveria repetições.
Deixa-te ai estar no teu cubículo. Não te levantes, que diabo.
Não te quero ver as curvas, notar o balanço das ancas, ou perceber o reboliço interior.
Ai, mas eu não disse para te deixares estar quieta? Lá vens tu daí desse lado da sala.
Não te estou a ver, concentrado no balancete da produtividade.
Que não vejo, que não quero, que não posso.
Olha, mas tu livra-te de que eu te sinta o cheiro, tu livra-te de me tocar.
Não pode ser, está tudo perdido, estás a 3 passos e já te sinto o perfume, estás a 2 passos e já te sinto o calor, estás a 1 passo e já sei que te não vou resistir.
Creio-te por um magneto de proporções incontornáveis.
Agora que me relembraste o gosto não há nada a fazer.
Daqui a quando, já te vejo sem o vestido, já te tenho sem relutâncias, já te tomo sem hesitações.
Na sala das fotocópias, no elevador da administração, na mesa da sala de reunião, pouco importa. Não vou lembrar-me da mulher, da filha pequenina, dos cães, da hipoteca da casa, da prestação do carro, dos balancetes, dos relatórios, da reunião da administração.
Só vais ser tu, o teu cheiro na minha boca, o teu sabor na minha respiração, o calor da tua pele a derreter-me os sentidos, a pressão das tuas coxas à minha volta, as tuas mãos que me enlaçam o corpo, a premência do desejo retardado à força de tanta reticência.
Monday, April 11
What will happen to that hot affair we will have twice a year?
No fim de contas (ainda é um bocado cedo para me por a fazer contas, que isto de serem 6 da manhã não é hora própria para nada a não ser dormir, porque até para sonhar há muito que já passou a hora), no fim das contas que irei fazer, isto até nem foi tão terrível assim.
Quer dizer, tu não foste, fui eu (raios que se há definição para o conceito de meter os pés pelas mãos, ai onde me lês podes ficar seguro que eu sou a (in)definida) com tanta hesitação e titubeio, a enrolar as palavras que queria que não te soasse ralas.
Tu, mais que tudo és uma boa razão. Em forma de gente, e pleno de formas. E de cores (eu já te disse que tu és cheio de cores não já? Que te vejo numa paleta policromática, uma espécie de caleidoscópio do arco-íris, vá-se lá saber porquê. Sim, creio que já te disse.)
Melhor que uma boa, uma óptima razão (se me permites a ousadia, por eu sei que já não me é permitida muita coisa, mas como pelo menos aqui quem manda ainda sou eu, posso fazer o que quiser que ninguém me prende) para tudo, para o que quer que seja. Para escrever, para pensar, para andar a esquadrinhar realidades paralelas, para tudo que eu sei lá se de verdade existe, para escapar para a Polinésia e viver na praia a vender colares feitos com pedrinhas coloridas vindas de montanhas do outro lado do mundo, para as histórias que descobri que gosto de criar..
E que isto para parecer bonito (que mania que nós temos de querer que tudo pareça, não nos contentamos com deixar que as coisas só sejam, e eu também quis que isto parecesse bonito e não deixei que fosse só o que é) para parecer menos cru, menos visceral, menos episódico e insensato, isto teria que ter sido menos como foi e mais como devia ter sido (já sei, já sei estou a enrolar outra vez, tem calma, antes que se me esgotem as palavras e mais cedo do que se esgote a tua paciência isto vai chegar a algum lado).
Mas escrevia eu, isto para ser o que podia, devia ter começado com todos os desenhos (que sabes que não sei fazer) com um risco.
Quer dizer, tu não foste, fui eu (raios que se há definição para o conceito de meter os pés pelas mãos, ai onde me lês podes ficar seguro que eu sou a (in)definida) com tanta hesitação e titubeio, a enrolar as palavras que queria que não te soasse ralas.
Tu, mais que tudo és uma boa razão. Em forma de gente, e pleno de formas. E de cores (eu já te disse que tu és cheio de cores não já? Que te vejo numa paleta policromática, uma espécie de caleidoscópio do arco-íris, vá-se lá saber porquê. Sim, creio que já te disse.)
Melhor que uma boa, uma óptima razão (se me permites a ousadia, por eu sei que já não me é permitida muita coisa, mas como pelo menos aqui quem manda ainda sou eu, posso fazer o que quiser que ninguém me prende) para tudo, para o que quer que seja. Para escrever, para pensar, para andar a esquadrinhar realidades paralelas, para tudo que eu sei lá se de verdade existe, para escapar para a Polinésia e viver na praia a vender colares feitos com pedrinhas coloridas vindas de montanhas do outro lado do mundo, para as histórias que descobri que gosto de criar..
E que isto para parecer bonito (que mania que nós temos de querer que tudo pareça, não nos contentamos com deixar que as coisas só sejam, e eu também quis que isto parecesse bonito e não deixei que fosse só o que é) para parecer menos cru, menos visceral, menos episódico e insensato, isto teria que ter sido menos como foi e mais como devia ter sido (já sei, já sei estou a enrolar outra vez, tem calma, antes que se me esgotem as palavras e mais cedo do que se esgote a tua paciência isto vai chegar a algum lado).
Mas escrevia eu, isto para ser o que podia, devia ter começado com todos os desenhos (que sabes que não sei fazer) com um risco.
Um risco na forma das letras, resultando na soma das palavras que explicariam a vontade que tenho de te verificar pelo uso.
Como as tatuagens de faz de conta, com desenhos de super heróis que me saíam nos gelados que comia em pequena e que não resistia em decalcar na pele( fazes lá ideia o raspanete que a minha mãe me passava por causa da porcaria que aquilo era, de como sujava a roupa toda e ia ser uma trabalheira para sair) passando eternidades ostentando orgulhosa a marca da ilusão de ser, por umas semanas( que aquilo demorava mesmo a sair) a ajudante secreta do super herói sensação.
Como as tatuagens de faz de conta, com desenhos de super heróis que me saíam nos gelados que comia em pequena e que não resistia em decalcar na pele( fazes lá ideia o raspanete que a minha mãe me passava por causa da porcaria que aquilo era, de como sujava a roupa toda e ia ser uma trabalheira para sair) passando eternidades ostentando orgulhosa a marca da ilusão de ser, por umas semanas( que aquilo demorava mesmo a sair) a ajudante secreta do super herói sensação.
Eu queria provar-te a ilusão, ainda que com a certeza, com a segurança, de saber que no final me ias acabar por sair da pele.
Era assim que eu queria ter começado ( não comecei, já sei, já sei, e o começo não é coisa que dê para repetir), com um risco. Um risco a marcar o até onde queria ir (melhor talvez um tracejado para tu poderes completar os espaços e definires o percurso da experimentação que me estaria permitida, não achas?), a marcar até onde era o caminho que tanta água e areia depois, nos estava permitido percorrer.
Mas não comecei. Fartei-me de fazer linhas incompletas, pontos por todo o lado e com tanto rabisco nada ficou perceptível (agora gostava de saber desenhar, só para conseguir decalcar esse sorriso perene que te ilumina o rosto, eu já te disse que estás sempre a sorrir? Sim, acho que já te disse)
Eu não sou boa a desenhar, nunca fui. Construo imagens com palavras e pinto com letras a realidade das cores que queria ver.
Na volta teria sido mais acertado munir-me de um bloco de post-it (ou 2, talvez será melhor).
Daqueles amarelos fluorescentes para ir escrevinhando as imagens e colando por ti as cores do que te queria dizer (já te estou a ver repleto de papelinhos, no meio da rua com as pessoas apressadas, cinzentas, a olhar para ti pelo canto do olho, e tu como se não fosse nada contigo, seguindo complacente o meu caminho sem vontade). Depois também uns post-it verdes para quando te sentisse já mais atento, mais receptivo a tamanha imprudência (já sei, já sei, estou a ser presunçosa)
O que eu devia ter começado por dizer era que, no princípio, no meio e no fim de contas (as tais que eu, no inicio desta conversa, dizia ser muito cedo para fazer ainda) o que eu queria era ter-te provado o cheiro, descoberto o sabor, apreendido a leveza, ensinado a imprudência, tacteado o calor, escamoteado a sensatez.
Era assim que eu queria ter começado ( não comecei, já sei, já sei, e o começo não é coisa que dê para repetir), com um risco. Um risco a marcar o até onde queria ir (melhor talvez um tracejado para tu poderes completar os espaços e definires o percurso da experimentação que me estaria permitida, não achas?), a marcar até onde era o caminho que tanta água e areia depois, nos estava permitido percorrer.
Mas não comecei. Fartei-me de fazer linhas incompletas, pontos por todo o lado e com tanto rabisco nada ficou perceptível (agora gostava de saber desenhar, só para conseguir decalcar esse sorriso perene que te ilumina o rosto, eu já te disse que estás sempre a sorrir? Sim, acho que já te disse)
Eu não sou boa a desenhar, nunca fui. Construo imagens com palavras e pinto com letras a realidade das cores que queria ver.
Na volta teria sido mais acertado munir-me de um bloco de post-it (ou 2, talvez será melhor).
Daqueles amarelos fluorescentes para ir escrevinhando as imagens e colando por ti as cores do que te queria dizer (já te estou a ver repleto de papelinhos, no meio da rua com as pessoas apressadas, cinzentas, a olhar para ti pelo canto do olho, e tu como se não fosse nada contigo, seguindo complacente o meu caminho sem vontade). Depois também uns post-it verdes para quando te sentisse já mais atento, mais receptivo a tamanha imprudência (já sei, já sei, estou a ser presunçosa)
O que eu devia ter começado por dizer era que, no princípio, no meio e no fim de contas (as tais que eu, no inicio desta conversa, dizia ser muito cedo para fazer ainda) o que eu queria era ter-te provado o cheiro, descoberto o sabor, apreendido a leveza, ensinado a imprudência, tacteado o calor, escamoteado a sensatez.
(Ah, mas e depois, estarás tu ai, cauteloso, ajuizado, sensato, a interrogar-te).
E depois? Depois disto nada. Ficava o que restava de agora a somar ao que era de antes.
E depois? Depois disto nada. Ficava o que restava de agora a somar ao que era de antes.
Era só, bastava-me.
Como se na realidade tudo isto fosse pouco.
Como se na realidade tudo isto fosse pouco.
Terminou de escrever as mesmas palavras pela enésima vez e novamente rasgou as folhas que lançou para o monte de papel amachucado que jazia a seus pés.Sentiu a vida lá fora acordar de mansinho ao ritmo da luz do sol que começava a despontar no horizonte. Quando o gato entrou sorrateiro no seu quarto soube que eram horas para despertar da vígilia que a mantivera dormente tanto tempo. Vindo do quarto do filho sentiu um remexer de lençóis que a puxou bruscamente para a realidade.
A sua vida continuava ali.
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