Quer dizer, tu não foste, fui eu (raios que se há definição para o conceito de meter os pés pelas mãos, ai onde me lês podes ficar seguro que eu sou a (in)definida) com tanta hesitação e titubeio, a enrolar as palavras que queria que não te soasse ralas.
Tu, mais que tudo és uma boa razão. Em forma de gente, e pleno de formas. E de cores (eu já te disse que tu és cheio de cores não já? Que te vejo numa paleta policromática, uma espécie de caleidoscópio do arco-íris, vá-se lá saber porquê. Sim, creio que já te disse.)
Melhor que uma boa, uma óptima razão (se me permites a ousadia, por eu sei que já não me é permitida muita coisa, mas como pelo menos aqui quem manda ainda sou eu, posso fazer o que quiser que ninguém me prende) para tudo, para o que quer que seja. Para escrever, para pensar, para andar a esquadrinhar realidades paralelas, para tudo que eu sei lá se de verdade existe, para escapar para a Polinésia e viver na praia a vender colares feitos com pedrinhas coloridas vindas de montanhas do outro lado do mundo, para as histórias que descobri que gosto de criar..
E que isto para parecer bonito (que mania que nós temos de querer que tudo pareça, não nos contentamos com deixar que as coisas só sejam, e eu também quis que isto parecesse bonito e não deixei que fosse só o que é) para parecer menos cru, menos visceral, menos episódico e insensato, isto teria que ter sido menos como foi e mais como devia ter sido (já sei, já sei estou a enrolar outra vez, tem calma, antes que se me esgotem as palavras e mais cedo do que se esgote a tua paciência isto vai chegar a algum lado).
Mas escrevia eu, isto para ser o que podia, devia ter começado com todos os desenhos (que sabes que não sei fazer) com um risco.
Um risco na forma das letras, resultando na soma das palavras que explicariam a vontade que tenho de te verificar pelo uso.
Como as tatuagens de faz de conta, com desenhos de super heróis que me saíam nos gelados que comia em pequena e que não resistia em decalcar na pele( fazes lá ideia o raspanete que a minha mãe me passava por causa da porcaria que aquilo era, de como sujava a roupa toda e ia ser uma trabalheira para sair) passando eternidades ostentando orgulhosa a marca da ilusão de ser, por umas semanas( que aquilo demorava mesmo a sair) a ajudante secreta do super herói sensação.
Como as tatuagens de faz de conta, com desenhos de super heróis que me saíam nos gelados que comia em pequena e que não resistia em decalcar na pele( fazes lá ideia o raspanete que a minha mãe me passava por causa da porcaria que aquilo era, de como sujava a roupa toda e ia ser uma trabalheira para sair) passando eternidades ostentando orgulhosa a marca da ilusão de ser, por umas semanas( que aquilo demorava mesmo a sair) a ajudante secreta do super herói sensação.
Eu queria provar-te a ilusão, ainda que com a certeza, com a segurança, de saber que no final me ias acabar por sair da pele.
Era assim que eu queria ter começado ( não comecei, já sei, já sei, e o começo não é coisa que dê para repetir), com um risco. Um risco a marcar o até onde queria ir (melhor talvez um tracejado para tu poderes completar os espaços e definires o percurso da experimentação que me estaria permitida, não achas?), a marcar até onde era o caminho que tanta água e areia depois, nos estava permitido percorrer.
Mas não comecei. Fartei-me de fazer linhas incompletas, pontos por todo o lado e com tanto rabisco nada ficou perceptível (agora gostava de saber desenhar, só para conseguir decalcar esse sorriso perene que te ilumina o rosto, eu já te disse que estás sempre a sorrir? Sim, acho que já te disse)
Eu não sou boa a desenhar, nunca fui. Construo imagens com palavras e pinto com letras a realidade das cores que queria ver.
Na volta teria sido mais acertado munir-me de um bloco de post-it (ou 2, talvez será melhor).
Daqueles amarelos fluorescentes para ir escrevinhando as imagens e colando por ti as cores do que te queria dizer (já te estou a ver repleto de papelinhos, no meio da rua com as pessoas apressadas, cinzentas, a olhar para ti pelo canto do olho, e tu como se não fosse nada contigo, seguindo complacente o meu caminho sem vontade). Depois também uns post-it verdes para quando te sentisse já mais atento, mais receptivo a tamanha imprudência (já sei, já sei, estou a ser presunçosa)
O que eu devia ter começado por dizer era que, no princípio, no meio e no fim de contas (as tais que eu, no inicio desta conversa, dizia ser muito cedo para fazer ainda) o que eu queria era ter-te provado o cheiro, descoberto o sabor, apreendido a leveza, ensinado a imprudência, tacteado o calor, escamoteado a sensatez.
Era assim que eu queria ter começado ( não comecei, já sei, já sei, e o começo não é coisa que dê para repetir), com um risco. Um risco a marcar o até onde queria ir (melhor talvez um tracejado para tu poderes completar os espaços e definires o percurso da experimentação que me estaria permitida, não achas?), a marcar até onde era o caminho que tanta água e areia depois, nos estava permitido percorrer.
Mas não comecei. Fartei-me de fazer linhas incompletas, pontos por todo o lado e com tanto rabisco nada ficou perceptível (agora gostava de saber desenhar, só para conseguir decalcar esse sorriso perene que te ilumina o rosto, eu já te disse que estás sempre a sorrir? Sim, acho que já te disse)
Eu não sou boa a desenhar, nunca fui. Construo imagens com palavras e pinto com letras a realidade das cores que queria ver.
Na volta teria sido mais acertado munir-me de um bloco de post-it (ou 2, talvez será melhor).
Daqueles amarelos fluorescentes para ir escrevinhando as imagens e colando por ti as cores do que te queria dizer (já te estou a ver repleto de papelinhos, no meio da rua com as pessoas apressadas, cinzentas, a olhar para ti pelo canto do olho, e tu como se não fosse nada contigo, seguindo complacente o meu caminho sem vontade). Depois também uns post-it verdes para quando te sentisse já mais atento, mais receptivo a tamanha imprudência (já sei, já sei, estou a ser presunçosa)
O que eu devia ter começado por dizer era que, no princípio, no meio e no fim de contas (as tais que eu, no inicio desta conversa, dizia ser muito cedo para fazer ainda) o que eu queria era ter-te provado o cheiro, descoberto o sabor, apreendido a leveza, ensinado a imprudência, tacteado o calor, escamoteado a sensatez.
(Ah, mas e depois, estarás tu ai, cauteloso, ajuizado, sensato, a interrogar-te).
E depois? Depois disto nada. Ficava o que restava de agora a somar ao que era de antes.
E depois? Depois disto nada. Ficava o que restava de agora a somar ao que era de antes.
Era só, bastava-me.
Como se na realidade tudo isto fosse pouco.
Como se na realidade tudo isto fosse pouco.
Terminou de escrever as mesmas palavras pela enésima vez e novamente rasgou as folhas que lançou para o monte de papel amachucado que jazia a seus pés.Sentiu a vida lá fora acordar de mansinho ao ritmo da luz do sol que começava a despontar no horizonte. Quando o gato entrou sorrateiro no seu quarto soube que eram horas para despertar da vígilia que a mantivera dormente tanto tempo. Vindo do quarto do filho sentiu um remexer de lençóis que a puxou bruscamente para a realidade.
A sua vida continuava ali.