Monday, April 11

"Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvageria ignorada..."- Fernando Pessoa

Lá estás tu ai outra vez a desassossegar-me.
Raios, que não há sexta-feira em que um homem não possa trabalhar em paz.
Tu és assim, cíclica, pertinaz
Deve ser de teres o ócio ao virar das 5.30, e pronto, dá-te para isto.
Eu, aqui cheio de trabalho, desde das 8h da manhã a terminar relatórios de contas e balancetes semanais.
Tu, com as tuas entradas triunfantes de madonna sem arrependimento, alvoroças-me os papéis todos.
Nem as fotos de família que por aqui espalhei te coíbem pois não?
Sentes-te ainda mais espicaçada pelo interdito.
Degustas melhor o pecado.
E esse vestido pegadiço mulher, isso é o que? E com este frio.
Já te adivinho as formas, já te prevejo as emoções.
Tu não tens receio de te constipar não, de adoecer? E depois como seria?
Acabava-se logo esta tua insanidade semanal.
Talvez fosse até melhor, sabes?! É que fanhosa e com o nariz a pingar perdias de certeza a pose.
Não olhes para mim. Já te disse que não, que não pode ser, que não haveria repetições.
Deixa-te ai estar no teu cubículo. Não te levantes, que diabo.
Não te quero ver as curvas, notar o balanço das ancas, ou perceber o reboliço interior.
Ai, mas eu não disse para te deixares estar quieta? Lá vens tu daí desse lado da sala.
Não te estou a ver, concentrado no balancete da produtividade.
Que não vejo, que não quero, que não posso.
Olha, mas tu livra-te de que eu te sinta o cheiro, tu livra-te de me tocar.
Não pode ser, está tudo perdido, estás a 3 passos e já te sinto o perfume, estás a 2 passos e já te sinto o calor, estás a 1 passo e já sei que te não vou resistir.
Creio-te por um magneto de proporções incontornáveis.
Agora que me relembraste o gosto não há nada a fazer.
Daqui a quando, já te vejo sem o vestido, já te tenho sem relutâncias, já te tomo sem hesitações.
Na sala das fotocópias, no elevador da administração, na mesa da sala de reunião, pouco importa. Não vou lembrar-me da mulher, da filha pequenina, dos cães, da hipoteca da casa, da prestação do carro, dos balancetes, dos relatórios, da reunião da administração.
Só vais ser tu, o teu cheiro na minha boca, o teu sabor na minha respiração, o calor da tua pele a derreter-me os sentidos, a pressão das tuas coxas à minha volta, as tuas mãos que me enlaçam o corpo, a premência do desejo retardado à força de tanta reticência.