Saturday, April 23

Memória de elefante

Depois deixava que voltasses como se nada fosse.
Estes meses todos que passaram.
Perdia a memória do dia em que, de malas no hall de entrada, disseste que não podia mais ser, que não conseguias mais esta vida.
Eu a entrar em casa, mal tirara a chave da porta e tu num atabalhoado de frases, que já não podia ser mais e que era preciso ir buscar o miúdo ao colégio e tinha que ir passear o cão e ir à reciclagem.
E eu carregada de sacos, com a chave ainda na porta, o sapato direito a magoar-me o calcanhar, sem alcançar o que dizias, sem saber que te dizer.
Mas agora esquecia-me de tudo, estes meses todos de cansaço, as contas todas para mim, o miúdo sem entender nada, cada vez mais silencioso, o cão pelos cantos da casa, a reciclagem que deixei de fazer porque não há tempo porque ou faço o jantar ou brinco com o miúdo e ainda tenho que o ajudar nos trabalhos de casa e contar-lhe uma história de adormecer e eu que já nem tenho tempo para dormir, os relatórios por terminar para a reunião de amanhã.
Deixava de me lembrar da culpa que sinto pelas horas extra que pago ao colégio para lá terem o miúdo, que nunca consigo lá estar às 6h, ele com um sorriso triste quando chego fora de horas para o ir buscar, carregada dos dossiers que ainda vou rever à noite, e já todos os outros meninos estão em casa com as mães cumpridoras.
Olvidava os telefonemas rápidos, 3 em tantos meses, para saber como o miúdo estava, do aniversário que tu esqueceste, o presente dele por correio quase duas semanas depois e nem uma palavra.
Não me lembrava das noites sem dormir, do espaço vago nas gavetas da cómoda, do teu cheiro por todo lado, nem à força de tanto detergente se evapora, nos livros que faltam na estante do escritório, do relógio que deixaste por esquecimento na mesinha de cabeceira e que o miúdo passou a trazer sempre no bolso pequenino dos calções, da tua camisa azul que passei a usar para dormir, ainda o (teu) toque do algodão macio.
Agora esquecia-me de tudo e deixava que voltasses como se nada fosse...