Tuesday, November 22

"while you were out"

Ando muito tempo sem pensar nisto...
Distraído nos pesados dias que corto com episódicos instantes do que para os outros parece insanidade.
Quisera passar a vida em episódios. Não ter fio condutor, não haver certezas de percursos expectáveis, não ter o peso de ter que ser "all I can be".
O peso jupiteriano do que o outros esperam de nós.
Depois aparece qualquer coisa que nos lembra de tudo isto e "there you go again" dizem eles.
5 meses de um mundo a cores e depois de novo a realidade a preto e branco.
Ando muito tempo sem pensar nisto...
Tempo suficiente ou de menos conforme resultem as panaceias que me vou administrando.
Depois vem um vento frio, vem o Sol dourar a ponte uma manhã ou as cores de um grafitti no caminho de casa e aí volta tudo ao inicio.
E de novo a certeza de que isto por episódios era tudo muito melhor. Uma vida na qual o inesperado seria temperado pela certeza de que tudo terminará dentro de 43 minutos. Ou 2 horas se se tratar de um especial ou de um season finale.
E na próxima semana cá estaremos com novo enredo.
Ando muito tempo sem pensar nisto...

Mas na realidade o que importa mesmo é manter os espectadores presos ao ecrã.

"ladri di biciclette"

 
Foge comigo dizes ...
Hoje não posso, tenho que terminar esta questão.
Sempre tu com essas propostas desonestas.
Queria eu ver se dissesse que sim.
Depois pelo mundo, a roubar fruta pelas veredas de uma vida não programada.
A viver das laranjas e das romãs com que o caminho nos iria presenteando.
A dormir na praia e a beber a água das folhas.
Foge comigo dizes ...
Hoje não posso, tenho ainda um assunto para resolver.
Como se a vida pudesse ser só isso.
Um repente de lucidez que se nos atravessa o rumo e nos brinda o cristalino com o mundo ao virar da esquina.
A insensatez de um impulso que fica sempre sem o ser.
A vida vivida no pleno do que é, não na dúvida do que podia ser.
Ao som da chuva miúda numa noite de Verão sob as estrelas e eu e tu onde agora achas suposto.
Foge comigo dizes ...

Fujo... amanhã.

" I don't remember you looking any better, but then again, I don't remember you..."

Há tanta coisa entre nós que já não vemos.
Tanta coisa que se perdeu na memória de todas as vezes que pareceram poucas, de escasso que era o tempo de nos descobrirmos.
Eu não me lembro dos teus olhos a piscar à ameaça da primeira luz.
Tu não sabes onde estão os dois sinais pequeninos que tenho na anca.
Eu perdi-me da memória daquela piscina fresca num fim de tarde só para nós.
Tu não conheces mais o Sol de Agosto a queimar a muralha de S.Jorge.
Eu não sei onde foi a barba que já não tens.
Tu nada recordas os chuviscos da fonte da Praça do Império nos fins de tarde de sábado de Verão.
Eu não me lembro do toque das tuas mãos sempre mornas.
Tu és incapaz de descrever o sabor da minha pele.
Eu desaprendi o ritmo que tínhamos de acordar.
Tu esqueceste os beijos que te dava no pescoço.
Eu perdi o teu perfume que se me colava à pele.
Tu não sabes mais o caminho até à padaria nos sábados de manhã enquanto eu dormia.
Eu não sei mais das mil tardes escondidos debaixo dos meus lençóis brancos para que não nos encontrasse a vida.
Tu não sabes nada das minhas rotinas nocturnas.
Eu não me lembro das tardes de Outubro no cinema.
Tu desconheces agora a sombra das árvores da avenida, boa para passeios em Maio.
Eu não sei que fazes às tuas canetas de escrever as cartas que já não me envias.
Tu não te lembras da banheira enorme que havia na minha casa.
Eu não recordo a voz do Tony Bennett a tocar sempre que eu chegava à tua.
Tu já não te deixas perder a calma de cada vez que me vês dançar.
Eu não me lembro de como me sentia pequenina enroscada no teu colo.
Tu olvidaste o frio da parede onde nos encostávamos quando havia muita pressa.
Eu nada sei de adormecer no teu ombro.
Tu não és mais capaz de me completar as frases.
Eu não consigo mais ler-te os pensamentos.
Tu não sabes nada do meu sorriso...

Eu não tenho já coisa alguma que ver com o teu...