Há tanta coisa entre nós que já não vemos.
Tanta coisa que se perdeu na memória de todas as vezes que pareceram poucas, de escasso que era o tempo de nos descobrirmos.
Eu não me lembro dos teus olhos a piscar à ameaça da primeira luz.
Tu não sabes onde estão os dois sinais pequeninos que tenho na anca.
Eu perdi-me da memória daquela piscina fresca num fim de tarde só para nós.
Tu não conheces mais o Sol de Agosto a queimar a muralha de S.Jorge.
Eu não sei onde foi a barba que já não tens.
Tu nada recordas os chuviscos da fonte da Praça do Império nos fins de tarde de sábado de Verão.
Eu não me lembro do toque das tuas mãos sempre mornas.
Tu és incapaz de descrever o sabor da minha pele.
Eu desaprendi o ritmo que tínhamos de acordar.
Tu esqueceste os beijos que te dava no pescoço.
Eu perdi o teu perfume que se me colava à pele.
Tu não sabes mais o caminho até à padaria nos sábados de manhã enquanto eu dormia.
Eu não sei mais das mil tardes escondidos debaixo dos meus lençóis brancos para que não nos encontrasse a vida.
Tu não sabes nada das minhas rotinas nocturnas.
Eu não me lembro das tardes de Outubro no cinema.
Tu desconheces agora a sombra das árvores da avenida, boa para passeios em Maio.
Eu não sei que fazes às tuas canetas de escrever as cartas que já não me envias.
Tu não te lembras da banheira enorme que havia na minha casa.
Eu não recordo a voz do Tony Bennett a tocar sempre que eu chegava à tua.
Tu já não te deixas perder a calma de cada vez que me vês dançar.
Eu não me lembro de como me sentia pequenina enroscada no teu colo.
Tu olvidaste o frio da parede onde nos encostávamos quando havia muita pressa.
Eu nada sei de adormecer no teu ombro.
Tu não és mais capaz de me completar as frases.
Eu não consigo mais ler-te os pensamentos.
Tu não sabes nada do meu sorriso...
Eu não tenho já coisa alguma que ver com o teu...