Saturday, April 9

back to you

Na última hora correu para o aeroporto.
Não pensou em explicações contundentes, agarrou o casaco e foi.
Apanhou um táxi que nunca mais chegava e se rezasse teria ido todo o tempo a pedir nevoeiro cerrado para atrasar a partida.
Nem bem saberia o que dizer.
Uma coisa de cada vez e agora o importante era chegar.
E aquele táxi que não andava, e o condutor com as desculpas da praxe, a conversa sobre o tempo, o trânsito.
E a estrada vazia, as luzes da rua sucumbindo atrás de si com o anunciar da madrugada.
Via já o clarão do aeroporto. Sentiu um frio no estômago.
E o condutor que não se calava com as desculpas da praxe, a conversa sobre o tempo, o trânsito.
Não se lembra de ter parado em frente ao terminal das partidas, não se lembra de ter pago o táxi.
Olhou para o relógio, tinha já começado o check-in.
Dirigiu-se rapidamente para as portas de entrada e no último segundo deteve-se.
Ficou ali em frente às portas automáticas com o sensor a detectar a sua presença e a abrir e fechar repetidamente, confuso com a falta de decisão, com a inércia que veio assim de supetão.
O que diria se resolvesse entrar? Qual iria ser a reacção? Não tinha nenhuma justificação plausível para ali estar.
Como iria ser este encontro? Que poderia explicar tamanho despropósito?
Que tolice esta... para o que haveria de lhe ter dado... assim, sem mais razão que um olhar que durou uns segundos além que o comum.
E as portas furiosas a abrir e fechar insistentemente, as pessoas atrasadas que se acotovelam para entrar, o ruído dos aviões que começam a descolar.
Via instantâneos de despedidas do lado de dentro do terminal, cortadas pelo fechar da porta automática e do seu reflexo inerte plasmado nela.
Sem precisão de relógio sentia os minutos atravessarem-lhe as entranhas deixando tudo gelado, dormente.
O tempo que lhe escorria pelas mãos com a areia de uma ampulheta.
Não se conseguia forçar a entrar, as portas sempre a fecharem quando parecia que a decisão ia chegar.
Com ar de zombaria abriam-se depois, em tom de desafio deixando antever tudo o que poderia estar para vir.
Mantinha-se na inércia, no temor de um acolhimento menos efusivo, na falta de justificativas para atitude tão despropositada.
As portas fechando e abrindo como se controladas por um desígnio superior, como se escarnecendo da sua hesitação.
Não lhe restava muito mais tempo para persistir naquele torpor.
Doíam-lhe as mãos do frio sibilante daquela aurora de Inverno.
Doía-lhe o corpo todo do tremor da incerteza.
E as pessoas que entravam animadas, carregadas de malas e de expectativas.
A porta sempre a fechar e abrir, o sensor a detectar a sua presença, confuso com uma indecisão pouco comum em quem desta porta se aproximava.
E o seu corpo preso ao chão, as suas mãos geladas da dúvida, a sua indecisão plasmada nos vidros brilhantes da porta automática.