Friday, April 8


- Oh Carlos, venha cá, venha cá que eu não aguento mais isto
E o Carlos, hirsuto, obediente, entrou no gabinete do escrivão. Aquilo antes era o arquivo morto, mas desde que tinha acontecido aquilo da reforma das estruturas e o escrivão foi promovido, aquilo passou a ser o "gabinete do senhor escrivão".
Mas adiante, com Carlos já no gabinete, manga-de-alpaca puída, deviam ser duas mas o ano passado roubaram-lhe a direita, e ainda não desistira de achar o malandro e aí é que eles iam ver como elas mordem, iam sim senhor ou não se chamasse ele Carlos Ricardo Melo Ifúria.
-Mas então que foi Sr. Escrivão? - Num tom de quem suplica pela ausência de réplica, e ainda com as folhas do despacho na mão, olhando de soslaio para o sossego da sua mesinha do canto.
E o escrivão passeando a impaciência pelo acanhado gabinete, prosseguindo no seu semi-monólogo.
-Isto só a mim Carlos, só a mim! O que me estava reservado, homem, aos 57 anos. Eu nem quis crer, mas as evidências Carlos, as evidências
-É claríssimo, Carlos, que nem água, que nem água
E Carlos ali de pé, paciente, resignado – Então Sr. Escrivão, tenha calma, olhe a pressão -
E o escrivão numa agitação pueril– Mas é inegável, homem, inegável – prossegue.
- A rapariga deita-me olhos, e que olhos, Carlos, que olhos! Eu nem queria acreditar Carlos, mas um cego veria, ah podes apostar que veria -
E Carlos, já com uma ponta de fartura – Rapariga, Sr. Escrivão? – enquanto tenta calcular o número de passos até à gasta mesinha do canto.
- Sim, Carlos, mas tu não me estás a ouvir?
- A rapariga do Fonseca do restaurante! A roliça dos olhos verdes. Bota-me cá uns olhares, de despertar um morto
-
E Carlos, pasmado, com as folhas do despacho na mão.
- Faz semanas que andava a notar que quando era ela que me servia, a travessa do cozido vinha sempre mais cheia, a fatia de melão era sempre a melhor – prossegue o escrivão, homem de hábitos alimentares disciplinados.
- Ao início achei-me enganado, mas depois aquilo caiu-me no goto e a hora do almoço começou-me a parecer tardar. Principiei a sentir um nervoso miúdo quando entrava no restaurante e hoje então foi o fim, Carlos. Com aqueles olhos, o cozido não me descia a goela, e a moça quando peço a conta, ao trazer a factura, roça-me ao de leve no ombro e pergunta – "Então hoje o cozidinho não estava bom Sr. Dr.?" –
- Chamou-me Sr. Dr., Carlos, e tudo isto com o calmeirão do Fonseca do outro lado do balcão, a polir os copos com um pano sebento, atento aos trocos dos empregados. -
Carlos, atónito com a presunção do escrivão, o escrivão bexigoso, balofo, asqueroso, quase um anão, deixa escapar um – De facto, Sr. Escrivão, de facto – quando o que lhe apetecia dizer, o que queria cuspir na cara do escrivão, era que ele, Carlos Ricardo Melo Ifúria,oficial de justiça de 2ª classe, andava ia para 2 anos a papar a Adélia dos olhos verdes, a desfrutar a Adélia do Fonseca que era sua 3 vezes por semana, de toda a forma e feitio, quando o Fonseca saia de madrugada para ir ao mercado fornecer o restaurante, a sua Adélia que tinha nojo do escrivão que com a cara bexigosa lhe lembrava um amante da sua mãe, que lhe batia muito e que era fadista em Alfama.
Ficou-se por um – Pois, pois, de facto Sr. Escrivão, de facto – e saiu do gabinete para a placidez da sua mesa do canto, já a antever o seu gozo com a sua Adélia dos olhos verdes, nesta madrugada de mercado do Fonseca, deixando o escrivão naquela agitação húmida, demente, geriátrica.