Thursday, April 7

Misplaced...

Estava já atrasado para o consultório. Telefonara-lhe a secretária a avisar que a doente das 9h já estava à espera.
E então encontrou o amigo ao virar da esquina.
Pareceu-lhe mais velho, no meio daquela neblina matinal, a cidade ainda meia dormente.
Passados os cumprimentos iniciais, o aperto de mão sincero onde imprimiu um “onde andaste tu?”, o embaraço do amigo pelas roupas amassadas e gastas do tempo perdido a calcorrear caminhos que levam a lado nenhum, notou que o amigo não sorria mais.
Conhecera-o com um sorriso, franco, perene.
Agora nas linhas gastas e magras do rosto não lhe conseguia descobrir impressões.
Enquanto falavam de banalidades (“tu tens visto o Tomás?...) com as mãos invisíveis remexia-lhe a pele da cara, (“Encontrei no outro dia o António, casado com um filho pequeno pela mão...”) levantava cada vinco e esquadrinhava cada prega à procura dos resquícios daquilo que o amigo fora para ele.
Em três minutos que lhe pareceram uma vida inteira, viu como o desarrumar dos dias na rotina do consultório, hospital, casa, o haviam afastado do amigo de sempre, este de quem um dia soubera tudo e agora de quem nem o sorriso conseguia recordar.
Notou uma tristeza latente que se lhe aflorava aos olhos, as marés vivas da barra a escalarem o granito do passeio marítimo.
O amigo falava, arrastando as palavras com cada sílaba a estilhaçar-lhe a alma, dos azares da vida, da mulher que o deixou, do filho que não via há mais de 3 anos, do natal a chegar, dos amigos que nunca lhe respondiam às chamadas, das saudades das tertúlias do Santa Maria.
E ele compenetrado a impedir as vagas de galgarem a margem, a escalpelar o rosto do amigo para lhe descobrir resíduos de uma alegria que não tinha mais.
Quando a urgência da doente das 9h se fez de novo ouvir, deu graças a deus pela salvação implícita.
É que pior que não encontrar mais o sorriso do amigo foi a gritante percepção de se achar culpado do extravio.