Wednesday, November 23

summer's base notes

Sentada no sombra do alpendre via-o chegar ao fim da tarde, atravessando o infindável areal branco à sua frente.
Quando se aproximava o momento que o previa de volta vinha sentar-se assim na beira do alpendre.
Começava a vê-lo ainda sem o distinguir da linha do horizonte, difuso na luz reflectida nas ondas de calor que saiam do chão. A luz que a obrigava a piscar os olhos quando lhe tentava distinguir a figura.
Depois já mais de perto via-lhe os contornos do rosto que parecia mais queimado do que de facto estava.
Ia chegando cada vez mais cerca da longa escadaria de madeira que subia até ao alpendre onde ela o esperava todas as tardes.
Trazia a pele curtida do sal, horas passadas entre o sol e o mar, as mesmas que ela perdida entre os seus livros, com os seus papéis, na lassidão da casa-de-praia amortecida pela fresca penumbra das persianas semi-cerradas.
Tomava um banho fresco deixando a água demorar-se por si, vestia com calma um vestido leve, preparava uma limonada e ia sentar-se no alpendre com um grande copo cheio de gelo, esperando-o.
Ele sorria quando ainda no fundo das escadas a via plácida, ávida, sentada, piscando os olhos à força daquela luz forte de um Verão ainda a meio.
Ele sabia que as mãos dela cheirariam às folhas de hortelã-pimenta que misturava na limonada que preparava para ele.
Ela sabia que na pele dele estaria o gosto do sal daquele mar onde ela não entrava.
Passariam as horas seguintes pegados, indistinguíveis, inseparáveis, ela com a boca cartografando-lhe o corpo ao ritmo dos grãos de sal, ele com a mãos aspirando-lhe o espírito com notas de hortelã-pimenta.

Era assim neste Estio que parecia não ter fim, fora assim desde o dia que se encontraram naquela mesma praia, num tormentoso dia de Inverno.