Às vezes à força de tanto abrir os olhos não vemos o que está mesmo à nossa frente.
Esfregamos a vista, arregalamos as órbitas, dilatamos a retina para nos manter cegos ao que nos está defronte.
Se por acaso nos surge algum lampejo de realidade, imputamos tal disformidade a um qualquer cisco que nos mutila momentaneamente a íris, que nos enxovalha o cristalino.
Não fomos feitos para ver.
Não estamos desenhados para observar.
Não fomos pensados para atentar no real, no palpável.
Fomos concebidos para imaginar.
Fomos planeados para sonhar.
Fomos gerados para idealizar.
A realidade entra em nós qual incendiário por campo de trigo seco e com celeridade apaziguamos o (ar)dor das chamas com uma previdente e onírica liquidez.
Às vezes à força de tanto abrir os olhos desconectamos os demais sentidos.
Apagamos o gosto, desfazemos o tacto, extinguimos a audição, aquietamos o olfacto e abatemos a razão.
E depois só nos sobram um olhos ostensivamente abertos.
Só nos restam uns olhos por demais grandes para fazer seja o que for que não seja desfazer-se no humor vítreo que persiste em nos turvar o desvario.