Esteve anos sem dele saber nada.
Um dia numa festa uma amiga contou-lhe que ele tinha sido pai.
Sentiu-se escoar pelas frestas do chão.
Evaporar-se pela janela em laivos de fogo fátuo.
Nem sequer soubera que ele tinha casado.
Ainda tinha ouvido dizer que andou uns tempos pelas festas com uma miúda nova, estrangeira de pernas esguias, mas depois nada mais.
E agora um filho.
Ele que nem queria filhos.
Ficou zonza. Fugia-lhe o chão.
Na verdade mal pensara nele durante estes anos.
Logo depois do fim, sim, ainda lhe vinham desejos dele, nas noites mais frias, mais solitárias, quando não passava nenhum filme na televisão e era tarde para ir ao videoclube.
Recordava-se do cheiro das panquecas que ele fazia quando ela estava triste e vinha-lhe uma dormência melancólica, uma incerteza sobre se teria tomado a escolha devida.
Mas depois adormecia, nascia o sol, sentia-se alentada e tudo ficava na gaveta da lembrança de uma noite esquecida.
E com o tempo a memória, caprichosa, foi ficando mais ténue, mais esbatida, mais plena de novas sensações.
Agora de súbito esta bofetada.
Sentiu-se desfalecer.
Um filho.
Uma mulher.
Viu-se traida.
Viu-se trocada.
Viu-se um resíduo de uma memória ultrapassada.
Ela que era a que seria para sempre.
Ela que era a que não haveria jamais outra.
Era agora a parte do passado dele que não durara.
A parcela da lembrança que fica perdida junto com os berlindes esmurrados e os carrinhos sem rodas.
O pedaço que esquecemos junto com os cromos de jogadores de futebol guardados numa velha caixa de sapatos.
Nunca mais poderia voltar atrás.
Desfazer o equívoco, refazer aquela história, recomeçar aquela vida, reconstruir aquele passado.
E agora um filho.
O filho que era o iníco da vida dele e o fim da eventualidade dela.