Sunday, April 3

memória sem fim...

Um dia tivera um filho.
Um bébé adorável com umas perninhas gorditas, pele cor de rosa e uma gargalhada que fazia o mundo desaparecer.
Que passava o dia a brincar com as pequeninas mãozitas e a olhar para as mil estrelas de cores infinitas que ela colara no tecto por cima do berço meses antes de ele nascer.
Que balbuciava feliz palavras imaginárias numa conversa secreta que ela conhecia de cor.
Um bébé que não se parecia com a mãe nem com o pai, que tinha olhar de oceano e um narizinho para beijos de esquimó.
Um dia tivera um filho.
Depois, um dia perdera um filho.
Perdera um filho diziam.
Como se perdem as chaves do carro, se esquece o telemóvel nalguma loja ou não se regam as plantas quando vamos de férias.
Perdera um filho como quem não sabe onde deixou um livro, como quem se esquece de tomar o pequeno almoço ou perde a lembrança do aniversário de um amigo.
Perdera um filho diziam.
Não se lembrava de nada.
Talvez fosse por isso que diziam que perdera o filho.
Lembrava-se dos sorrisos do seu bébé todas as manhãs durante o banho, do agitar das pernitas enquanto tentava vesti-lo, ou das sessões de cócegas durante as intermináveis tardes de brincadeira à sombra.
Não se lembrava de o te perdido.
Recordava-se do dia em que o trouxe para casa, da primeira vez em que o deitou no berço e entrou no quarto dele um milhão de vezes durante a noite para lhe escutar o respirar pausado.
Não se recordava de o ter perdido.
Tinha-lhe o cheiro nas mãos, a suavidade da sua pele recém moldada.
Via-lhe ainda os deditos rosados curiosos de todas as formas novas.
O perscrutar inquisito de todas as cores à sua volta e os olhitos profundos pendentes do som da voz dela.
Não tinha memória de o ter perdido.
Perdera um filho diziam.
Como se perde o instante do pôr do sol depois de um dia de praia, como se perde a queda da última gota de chuva no fim de um domingo triste de Março.
Perdera um filho como se deixa fugir o momento do primeiro beijo ou se não nota o suspiro de um amigo.
Perdera o filho cujo calor ainda sentia nos braços.
Não tinha lembrança de coisa alguma que não o seu filho.
Tinha um entorpecimento espalhado pelo corpo, dentro da entranhas, bem até ao fundo da alma.
Não tinha lembrança de coisa alguma que não fosse o seu filho.
E não tinha esperança de coisa nenhuma que não fosse o seu filho perdido.