Foi sempre assim.
O começar e a acabar sempre a repetir-se.
Penso isto enquanto me dispo para o banho.
Cada peça de roupa uma delonga interminável, antecipando a gula que por mim se passeia, infinita, inextinguível.
Lembras-me um verão interminável de milhares de hectares ardidos e fatalidades em autoestradas que nunca se esvaziam.
Lembras-me uma noite de lua cheia a gelar as águas de algum mar interior.
Entro na banheira no ápice em que te destruo os princípios, em que derrubo a grua que sustem as fundações ainda em embrião.
Agora na água não te sinto o ardor, não me estremece o toque, confundo-te o sabor.
Lembras-me uma indolência sem sonhos nalguma cama perdida na penumbra, de um entorpecimento sem sobressaltos de uma tarde de domingo de chuva.
Penso nisto tudo enquanto a água me ocupa as reentrâncias das quais te desejo feitor.
Lembras-me as gotas de chuva que escorrem pelos vidros do carro a uma velocidade despropositada a caminho de lado nenhum.
Lembras-me a pele queimada de um sol de mediterrâneo e um bálsamo de beijos gulosos a desfalecer-me pelas costas.
Lembras-me uma noite de fogos de artificío reflectidos num rio negro a serpentear uma cidade insone.
Penso nisto no instante em que a pele se me encarquilha, à mercê de um água impiedosa que te deixou arrefecer.
Lembras-me as horas estagnadas numa qualquer urgência hospitalar, num banco de jardim parado no tempo de um velho que obliterou o caminho de casa.
Lembras-me a memória de coisas que não foram, do raso que é o passado que não acontece.
Lembras-me o extemporâneo de emoções insensatas, da inconsciência de um dia útil com sessão da tarde.
Lembras-me uma noite de flashes cadentes na escuridão de uma serra perdida num inverno de um frio seco.
Esqueço isto enquanto o roupão me reconforta o espirito e me socorre da hipotermia em que estes pensamentos me submergiram.