Sunday, April 3

a (des)propósito

E de repente no meio do dia pensar-te.
Tu és terrivel aí sentada com essa tua boca em estado de pura provocação.
Gostas de me atormentar não gostas?
Essa tua boca como água para a minha sede.
Quando humedeces esse teu segmento carnudo empalideço...
Depois mordiscas a comissura e endoideces-me.
É desígnio teu fazer-me perder o tino, confessa...
É teu propósito desprover-me da circunspecção a que me constrange este sítio, admite...
Pára de me olhar, não vou fazer nada, agora, aqui.
Não posso, percebes-me?
Vá, pára com isso, não te resisto, tu sabes-me...
Escorrega-te a alça do vestido... malvada, estás a tentar-me reconhece...
O ombro assim nu, esse lábio humedecido e eu aqui sem poder cumprir as promessas que tu fazes.
Pára por favor.
Não toques nesse vestido, se sobes um centímetro que seja desresponsabilizo-me.
Deixa-te estar quieta, não me olhes assim.
Daqui a pouco tenho uma reunião e olha o meu estado, esta descompostura.
Coloca a alça no sítio.
Não me olhes já te pedi...
Porque me infliges tamanho tormento?
Já te disse que não posso fazer nada, daqui a pouco tenho a tal reunião.
Não posso estar para tamanho disparate.
Mas tu não recompões a alça?
E essa mão, larga o vestido, por favor...
Que raio de vestido esse que se te cola às curvas e me deixa adivinhar-te os propósitos.
Aqui, no meio dos meus papéis, tanta folha perdida, para o que me havia de dar, lembrar-me de ti nesta hora, com a tal reunião a começar não tarda nada.
E tu aí sentada nessa cadeira, à minha frente, a quebrantar-me o ânimo.
Não dizes nada malvada?
Satisfazes-te em me debilitar o dia, em me abalar a intenção.
Essa tua boca transtorna-me, não te posso olhar mais nessa sinuosa promessa do que está para vir.
Que ombro esse que não se deixa resguardar... tamanho impudor não se afigura cabal.
E essa fissura rubra, insidiosa, enclausura-a de vez porque aí tão perto não me afianço.
Repara que não é má vontade, é a tal reunião, daqui a pouco tenho que ir, e não estou lúcido.
Esse teu ombro desnudado, esse teu lábio trémulo, o teu vestido cheio de curvas, não há quem se abstenha.
Agora vais ter que me perdoar minha querida, tenho que ir... a tal reunião eu disse-te, já me chamaram.