Tuesday, April 5

O arrumador de memórias

Tinha contratado um empregado doméstico.
É verdade, um empregado.
Um sujeito que veio à entrevista de emprego impecavelmente vestido e que ela descobrira nas páginas amarelas, na secção de mordomos.
Apresentou-lhe a empreitada, esclareceu-lhe o caderno de encargos, analisou-lhe o curriculum documentador da experiência profissional, discutiram salário e horário de trabalho.
Ficou combinado que começaria na semana seguinte.
Para lhe dar tempo a ela de se habituar a ver assim as suas coisas invadidas por um recém conhecido.
Nos primeiros dias de trabalho aquilo foi uma correria.
Sentia-o andar de um lado para o outro na sua cabeça, arrastar armários, fechar caixas e abrir gavetas.
Chegou a temer por enxaquecas ou cefaleias.
Tirava as coisas de um sítio, arrumava noutro e com isto ela ia descobrindo lembranças que julgava perdidas, recordações que não sabia onde tinha deixado.
Aquilo começou a parecer-lhe uma grande ideia, ele a catalogar por ordem alfabética as emoções e os pensamentos, as ideias e os disparates.
Passou a ter tudo à mão, a encontrar tudo a tempo.
Tudo bem organizado na prateleira de cima, ou na caixa azul, no armário do centro ou na gaveta da entrada.
Mas havia ainda um compartimento onde ele não entrara.
Onde se amontoavam as recordações profundas, a tralha que se queria recôndita.Os pensamentos mais secretos e os desejos mais inconfessáveis
E foi de lá de onde lhe começou a surgir uma indistinta estranheza.
Como se as lembranças, as memórias, as recordações agora assim tão arrumadinhas, em tão perfeita ordem não fossem mais suas, tivessem deixado de lhe pertencer.
Assim foram prosseguindo os trabalhos, até que, mais de um mês depois, o empregado veio um dia com um papelucho onde se podia ler que pretendia a rescisão do contrato com justa causa por falta de pagamento do salário merecido.
Primeiro chocou-a o desplante do sujeito.
Depois pensando melhor, o papelucho começou a parecer-lhe uma carta de alforria.
Ao que parece as memórias da sala que nunca foi arrumada juntaram-se uma noite à socapa, tiveram a brilhante ideia de esquecerem de a lembrar que tinha que pagar o trabalho do empregado.
Voltou tudo ao caos inicial.
E no meio de tanta confusão voltou a sentir tudo como seu.