Depois na urgência de fuga vestia-se com roupas diferentes.
Disfarçava-se do que não era na expectativa de deixar de ser vista.
Circulava por artérias etéreas qual fantasma de vestido escarlate e trazia nos lábios o sorriso desbotado de uma existência porvir.
Nunca parava tempo suficiente para querer ficar.
Se parava tempo bastante começavam a querer que ficasse.
Então não sabia resistir. A doçura agrilhoava-a.
Ai despia-se das vidas passadas e arrumava no armário do canto o vestido escarlate.
O sorriso coloria-se um pouco mais e não tardava a que a memória de desejos embutidos na sua essência lhe falhasse.
Vivia então a espaços uma existência prazenteira, sem sobressaltos e ninava as águas da voragem que trazia dentro.
Até que um dia, nas rotinas da sua comezinha existência, deslizando por uma montra fosca, via um vestido escarlate.
Cresciam-lhe então os olhos, dois espelhos demasiado grandes para continuar a conter a imensidão de água que trazia dentro.
A sobressalto, e com despudor, o vazio ocupado por todas as coisas que não se cumpriam, tomava de assalto, o espaço das salas por onde compartimentava a sua existência, até não sobrar mais lugar para si própria.
Abria então o armário do canto, voltava a pôr o vestido escarlate, descolorava o sorriso e retomava o caminho das recordações futuras.
Uma existência porvir que trazia consigo os arautos de uma implosão expectada.
Soltava os rios que trazia dentro e afogava nele as memórias de cada vida interrompida.
Escorregava das mãos dos outros como água por um passador de rede.
Tornava-se de novo invisível.