Tinha as palavras espalhadas pela casa toda.
Via letras desordenadas pelas paredes, gotejavam vocábulos descabidos de cada torneira aberta.
Esbarrava com frases duras pelo chão entre a cozinha e o escritório.
Não havia nada a dizer e ela a chocar com elocuções obstinadas por tudo o que era canto.
Via-as penduradas nas cortinas, manhosas, escorregando pelas ombreiras das portas, espalhadas insolentemente em cima da cama.
Jorravam das estantes e escorriam, grosseiras, pelas beiras do sofá.
Havia palavras frias dentro de cada recipiente, bazando secamente de todos os copos, nadando descontraidas em cada tigela vazia.
E quando se deitava achava-as entre os lençóis, ásperas, desconfortando-lhe a alma, roubando-lhe o sono.
Abria os olhos e tinha-as especadas no tecto, incandescentes, a corromper-lhe a retina.
Levantava-se, andava descalça pela casa e magoava os pés em palavras rasgantes, hostis.
Agarravam-se-lhe aos tornozelos, irascíveis, tolhiam-lhe os movimentos.
Sonegavam-lhe a clareza, melindravam-lhe o espirito.
Em casa existiam também as outras.
Armários plenos de palavras melífluas, ternas, balsâmicas para os melindres que se ia inflingindo.
Temia abri-los com receio que lhe escapassem.
Fazia anos que as não via.
Mantinha-se carcereira de vocábulos prazenteiros.
Nalgumas noites insones, com afirmações agrestes já a escalarem-lhe as pernas, espreitava pelas frinchas dos armários para se certificar que ainda lá estavam.
Ao aproximar-se sentia o estomâgo borboletear e via as correntes verbais que lhe estorvavam os passos recuar para a sua parcimónia.
Era assim que as sabia ainda lá.
Voltava então para a cama sacudindo os lençóis para se libertar das sentenças que lhe aguilhoavam o sono.
Pelo menos por esta noite dormiria sossegada.