Sunday, April 3

everyday... never...

Deixava-se ficar imóvel todas as manhãs.
Escutava o despertador dele e falseava continuar dormente.
Ele levantava-se, ia para a casa de banho, abria o chuveiro e ela nem se mexia.
Ficava quieta a imaginá-lo debaixo daquela sólida cortina de água quente.
Nem mudava de posição para ele não a desconfiar atenta.
Depois o calor e os cheiros que inundavam o quarto quando ele abria a porta e saia enlaçado numa nuvem de água sublimada.
De olhos cerrados assistia aos arranjos cuidados dele que, incauto, não fazia o menor ruído para a não despertar.
Quando estava pronto sentia-o hesitar entre um beijo de despedida e o receio de a acordar.
Ganhava o receio. E ela sempre inerte.
Só depois de o ouvir bater a porta, só depois de o sentir entrar na garagem, fazia alguma diligência para se despertar.
À noite persistia na fabulação.
Era assim que vinham evitando encontrar-se.
Era assim que os dois conseguiam coexistir sem nunca se descobrir.