Eu fiz-me ridícula.
Nessa tua parcimónia de actos e palavras tornaste-me risível.
A mim, plena de experimentações que não foram, a quem nunca transpareciam os sentimentos.
Deixaste-me nua da minha solidez.
Paira no ar o pó a que reduziste as minhas fortalezas.
Encontro-me feitora de domínios sem préstimo.
Eu, com as minhas certezas desacreditadas, subjugada a uma inefável contingência.
Eu faço-me ridícula.
Insistindo em sugestões do que não há-de ser.
Teimando em arroubos do improvável.
Perseverando em quimeras indeléveis.
Neste engano dos sentidos, nesta ofensa a uma inteligência que teimo em manter encarcerada, torno-me risível.
Estou simplificada ao que deixei de ser.
Venho-me desfazendo num orvalho que se foi condensando na tua janela, e que à força de tanto persistir se desfez em gotas que escorrem agora para algum mar interior.
Rios de água evaporada para aplacar queimadas de labirintos sem árvores.
Com tudo isto fiz-me risível.
E por tudo isto não achei feitio de me reparares graça.