Friday, April 22
"Abandon hope all ye who enter here..."
E o dia antes de partires encontrava-te num sitio qualquer desses que tu descobres nem bem imagino como, e nem bem eras tu, eras o tu que imagino que sejas, o que no fundo é a mesma coisa, depois sentados lado a lado, sem bem nos tocarmos, eu ouvia-te dizer das coisas que viste e das que ainda vais ver.
E eras menos tímido do que me pareces sempre e dizias todas as graças que me habituaste a ler.
E no meio de tudo, com o som da tua voz em fundo, eu lembrava-me da última vez que te vi fumar, os anéis de fumo branco adocicado que fazias desatento, eu sem me importar sequer com o fumo, ligeiramente enfatuada por estares ali e eu também e tu ainda assim sem me veres e eu a pensar que isto podia ser perigoso não fora o inteligível facto de tu nem me veres.
E no mesmo instante a lembrar-me que amanhã já aqui não estás, a pena que eu tenho disso, tu tão longe e eu que te queria por um pouco mais de tempo, nem bem saberia para quê ou se calhar até sei.
E agora já só penso na tua boca e tento por tudo desconcentrar-me dela e ouvir-te porque temo que já me tenhas percebido, mas que raios sei eu, que coisa vem depois do beijo que agora te dava, esses teus olhos inquietos, porque diabos não és capaz de me olhar de frente quando me falas, mas isto agora já sou eu a imaginar coisas.
E eu já sem coragem de te dizer do beijo que te queria ter dado num certo labirinto de flores de luz que agora se apagaram e o tremor que tenho no estômago de te saber a ir a qualquer momento, o mesmo que sinto sempre que te imagino chegar.
E tu que segues contando dos planos que fizeste e eu que me animo com a tua antecipação, o som da tua voz que me perturba um pouquinho mais, e isto sou eu que quero muito e que se me tocasses agora acredita que me consumia.
E espera só mais um pouco que eu estou quase a perder o receio de te sussurar esta expectativa que tenho de te descobrir, de me descobrires, porque eu queria muito que te valesse a pena descobrires-me e a vontade que tenho de te tocar de leve, eu bem sei que não sou nada do que tu queres, que isto não é nada o que estás habituado, eu tão pouco indicada, eu tão flagrantemente inapropriada.
E que já se faz tarde, tu que tens que ir e que tudo me começa a parecer tão impossível, tudo muito improvável, muito pouca vontade da tua parte porque no fundo, em verdade, do que sobra és só tu a ser simpático.
