Era sempre assim o começo.
O estar à espera.
O frio no estomâgo, o arrepio na pele, a vontade de tocar, de provar.
O medo jocoso que nos faz recuar para a frente.
A vontade persistente, a invariável humidade.
A euforia abusiva seguida da abrupta escuridão.
Andar nas nuvens, perder a fome, esquecer as horas, suspirar por um nada, sorrir por um tudo. Morrer na expectativa da reanimação dos beijos.
Exasperar-se com os outros pela impaciência de um.
Ser um disparate constante.
Uma concupiscência fecunda de desvarios.
O descompasso da alma ao ritmo de um coração que não nos pertence.
A destreza de uma imaginação que nunca conjecturamos possuir.
A traquinice de uns olhos que ganham uma indelével luz.
A calma exterior incongruente com a balbúrdia interna.
Uma palermice atrás de outra com o desprendimento de uma criança incipiente.
Sentir a vida num timbre distinto e fazer ouvidos moucos a tudo o resto.
Deixar o corpo fanfarrão alardear sem pudor o que nos vai dentro.
Usar de jeitos e macetes para roubar um beijo que, maroto, teimoso, se esconde no canto de um sorriso.
Esperar, desesperando, acalmando com mézinhas o reboliço que nos vai dentro.
Até que um dia, a panaceia para esta inquietude virá por um mar de água.
Ai a calma, o descanso, o sossego de por fim nos termos encontrado.