Sunday, April 3

it could happen to you

Chegar assim de surpresa.
Sem avisar, ligando só para dizer que estou aqui, que cheguei.
Sentir-te a voz incrédula do outro lado da linha.
Fazes uma brincadeira do tipo " ah , ok tão espera um minuto que estou a descer"
E eu a pedir desculpa, mas que te despachasses que estava frio e eu não gostava de estar ali só ao frio numa cidade estranha.
Tu mais incrédulo, a perguntar se estava a brincar, que aquilo não era possivel.
Eu a garantir que não, que estava mesmo ali, do outro lado da rua em frente ao Mac.
Que vejo a luz da tua sala ainda acesa e a tua sombra a passear de um lado para o outro enquanto falas comigo ao telefone.
Tu descrente a olhar pela janela, a repetir que não era possivel, a tentar ver-me lá do alto.
Eu a ver-te e a acenar com uma mão inutilmente, o telefone na outra, enregelada.
E tu sem me ver, mas cada vez mais convencido que estava ali.
O frio no teu estomâgo, as borboletas no meu.
Pousas o telefone, amparas-te na mesa assim que dás um passo para a porta.
Tomas um minuto para recuperar a sensatez, a compostura, afinal não é nada de mais, é só ela ali do outro lado da estrada, ao pé do Mac, ao frio, já está a ficar escuro.
É mesmo ela, será possivel, um átomo de dúvida.
Mais uns passos em direcção à porta, a mão no trinco, as pernas um pouco trémulas
Abres num ímpeto, uns passos em direcção ao elevador.
Eu aqui ao frio, não gosto de cidades novas quando está frio, escurece e estou sozinha.
Sou medrosa, os rostos duros, as pessoas que caminham depressa, que chocam comigo parada, fazem-me estremecer.
Quando aqui chegares não me vai importar o frio, o escuro, mas por enquanto ainda nem chegaste ao elevador e as minhas mãos começam a ficar roxas, o rosto a perder a cor.
Vim preparada para tudo menos para o frio.
E tu ainda a chegar ao elevador, se viesses pelas escadas já cá estavas, penso.
Se fosse pelas escadas já lá estava, pensas.
O elevador sobe, 2º, 3º, 4º, pára no 4º... recomeçou a subir, 5º, 6º, 7º enfim.
Que tormento, tu sem saber bem o que é aquilo tudo, ela do outro lado da estrada.
Abrem-se as portas, -Vai subir- avisam.
Hesitas sobre se entras ou esperas.
Entras, 8º, 9º, abrem-se as portas saem as três pessoas.
Ficas sozinho, começas a descer, um turbilhão dentro de ti.
Ela lá fora do outro lado da rua, em frente ao Mac ao frio, está a escurecer, e sabes que não gosta de estar sozinha numa cidade nova.
3º, 2º, 1º, hall....
As portas demoram uma eternidade a abrir, última hipótese para escapar, evitar tudo que por ai vem.
As portas abrem-se, as pessoas apressam-se a entrar e, automaticamente, tu sais.
Três passos para a porta da rua, já vês o Mac do outro lado, não a consegues ver ainda.
Nova molécula de descrédito.
Estou com frio. Um senhor apressado chocou comigo, magoou-me o tornozelo.
Estou triste, dói-me o tornozelo e tu não chegas.
Vejo as portas de vidro do teu prédio abrirem, sai alguém, serás tu?
É um pouco longe, está escuro, não distingo bem.
As portas de vidro abriram-se e saiste, dás dois passos na rua e já me vês.
Eras mesmo tu a sair, dói-me menos o tornozelo, já te vejo.
Estamos de lados opostos da rua, estás à minha frente, estou à tua frente.
O frio e as borboletas no estomâgo.
As pessoas, os carros que já não vemos, só um arrastar das luzes dos faróis que já precisam de estar acesos.
Passou o frio, o escuro,a descrédito, a dor no tornozelo e a estranheza da cidade, passou tudo.
Estamos os dois ali.