Chegou a casa e sobre a mesa estava a correio.
Um postal colorido com ponto de interrogação no centro.
Escrevera apenas - Não podemos seguir com isto assim, vamos cometer uma loucura, encontras-te comigo às 7 horas na Liberdade, naquele café que adoramos?- mais nada.
Virou e revirou o postal e nada. Fora enviado no dia anterior, correio expresso, chegara naquela manhã, fora a empregada quem recebera.
Ela pensou que aquilo não era possivel. Não queria acreditar que ele ia fazer aquilo, estava tão longe, como chegaria tão rápido...
Teve um impulso de lhe telefonar apesar de terem combinado que não se telefonariam. Resistiu.
Ele devia ter planeado tudo na véspera.
Se ao menos tivesse sabido antes.
Não teria saido tão cedo esta manhã, ficaria na cama um pouco mais, tomaria o seu tempo para se arranjar.
O coração bateu-lhe mais forte.
Não era possivel.
Mas o postal era claro - encontra-te comigo na liberdade, 7horas, vamos cometer uma loucura- não deixava margem para incertezas.
Correu para o quarto, abriu o armário, escolheu o vestido preferido que por sorte estava engomado.
O verão tinha chegado finalmente, o dia estava quente e a noite também estaria de certeza.
Olhou-se ao espelho, despenteou o cabelo um pouco, ainda não lhe conhecia o penteado novo, será que ia gostar...
Foi à cozinha buscar um copo de água, lembrou-se que não tomara pequeno almoço e começava a ter fome.
Podia dormir um pouco antes do almoço.
Escureceu o quarto, deitou-se em cima da cama fresca, adormeceu.
Acordou despertada pela empregada - A Menina desculpe mas como não fez barulho o dia todo, tive medo que estivesse doente- dissera baixinho.
Que horas seriam, o susto, era tardissimo, quase 6.30, chegaria à justa se se despachasse.
A última coisa que queria era deixá-lo à espera.
Saiu de casa numa correria, apanhou um táxi, chegou mesmo às 7h.
Olhou à volta, a esplanada do café estava cheia àquela hora, como imaginara.
Ele teria sabido isso, tinha lá ido tantas vezes.
Mas esperaria um lugar, talvez ele estivesse já lá.
Olhou à volta novamente, não estava lá, a impaciência crescia.
Entretanto ele chegou.
Olhou em volta e não a viu.
Estava vento, esperava que ela se tivesse lembrado de trazer um casaco.As noites ultimamente estava muito frias e ela adoecia com facilidade.
Que loucura -pensou. Como será que ela teria conseguido arranjar-se para chegar a horas...
Olhou para o telemóvel. Bem sabia que tinham decidido não se telefonar, mas com tamanha loucura em curso achou que não podia correr o risco de se desencontrarem.
A esplanada do café estava vazia, era do vento frio.
Lembrou-se da última vez que ali estiveram à uns meses no fim do verão, aquilo fervilhava de gente.
Sentou-se ali mesmo no centro, para não perder um instante da sua chegada.
Ela continuava de um lado para o outro cada vez mais impaciente.
Viu as horas no telemóvel, 7:3O, não era costume ele atrasar-se.
Ainda bem que tinha decido trazer o telemóvel, em último caso violava o acordo e ligava-lhe, não podia correr o risco de se desencontrarem com esta loucura em curso.
Ele puxou a gola do casaco para cima, estava a ficar mais frio. Ela estava bastante atrasada, era já 7:50.
As luzes da rua estavam já acesas, viam-se menos carros, menos pessoas.
Olhou para o telemóvel, ia esperar mais 10 minutos e ligava.
Ela notou um casal a deixar a esplanada e sentou-se.
A cidade fervilhava aquela hora. Estava abafado e o sol ainda queimava.
Pegou no telemóvel, eram 8 horas, ia ligar, a impaciência estava a deseperá-la.
Ele olhou para o relógio, pegou no telemóvel, carregou no speed dial dela e ouviu o toque de chamada.
Ela olhou para o visor, viu o nome dele a piscar. Tremeram-lhe as mãos.
Atendeu, uns segundos de silêncio e dois - Onde estás,que não te vejo- simultâneos.
Sentado na esplanada vazia, bem no centro - responde ele- de frente para o Palácio.
Como assim- diz ela- A esplanada está cheia e não te vejo. Palácio, que Palácio, meu querido? - perguntou ela sem perceber nada, com o coração na boca já.
Pararam os dois um instante que pareceu uma vida, e o barulho daquele silêncio descomunal pelas linhas telefónicas ecoou como um anúncio do fim do mundo.
Perceberem, ao mesmo tempo que continuavam ainda nos respectivos paises.
Estavam ainda em liberdades diferentes.