Estivera fora muito tempo.
Pelo menos era assim que os que o conheciam se referiam ao incidente, à recuperação.
Meses antes tentara matar-se.
Quase conseguia até, não fosse a empregada ter resolvido que naquele dia limparia os vidros da sala, e por isso chegava mais cedo que o costume.
Encontrou-o no chão da sala, a exaurir-se em sangue.
Em cima do tapete branco que Luz lhe oferecera.
Depois foi a correria para o hospital, o ruído distante das pessoas à sua volta, a luz branca a magoar-lhe os olhos.
O tapete branco agora já não tão branco.
Depois foram as visitas dos amigos, as suas reacções contidas, os seus sorrisos tristes ao olhar para os pulsos dele, os meses de terapia.
Os sussuros, o atribuir de culpa, a fraqueza dele por causa dela.
Meses antes quando lhe oferecera o tapete estava longe de imaginar que algo assim pudesse acontecer-lhe.
Quando se conheceram, adoeceu.
Havia sido por demais forte a impressão que ela lhe provocou e o seu corpo reagiu em desordem.
Ela com os seus olhos negros, com o seu caminhar persuasivo, a sua indiferença mordaz, nem o viu naquela noite.
Ela ocupada a ser disputada por todos os homens da festa, nem o notou.
Naquela noite não imaginava que dentro de uns dias estaria na cama dele.
Dentro de umas semanas ele sabê-la-ia de cor.
Dentro de um mês não a conseguiria tirar de dentro.
Teve que se matar para conseguir escapar-lhe e nem isso foi capaz de fazer.
Quando ela se ia embora ele achava-a por todo lado.
Via-a em cada mulher com quem se cruzava.
Sentia-lhe o cheiro em cada lufada de ar, o sabor em cada coisa que levava à boca.
O calor da vontade dela queimava a pele dele.
Passou a tomar 3, 4, 5 banhos por dia para apaziguar tamanha exaltação.
Teve que ir ao médico porque não havia nada que lhe parasse no estomâgo e perdia peso a olhos vistos.
Depois ela voltava e era a opulência.
Nunca lhe dava explicações, ele também não pedia.
Ainda tentou das primeiras vezes. Estranhou que ela se tivesse ido assim, sem uma palavra e voltado no mesmo silêncio.
Mas a reacção dela à pergunta fez-lhe ver que aquilo não era assunto para se falar. E nunca mais perguntou.
Espera que viesse e enquanto não vinha endoidava.
Mas agora estava ali e esquecia-se de tudo. Vivia-a somente.
Desta vez parecia que se lembrara nele durante a ausência, trouxera-lhe um tapete branco, enorme, para o chão da sala.
E naquela noite teve-a, infinita, naquele tapete.
Daquela vez ela parecia mais presente, mais confiada ao momento.
As pernas dela à sua volta, a boca insaciável, o corpo dela que fervia, os olhos ainda mais profundos.
Na pele dourada cada poro exalava a vontade que a consumia.
Ele parava a cada momento para se certificar que Luz estava mesmo ali, que aquilo acontecia mesmo com ele.
Amanhecia já quando finalmente adormecera.
Lembrava-se que os primeiros raios de sol entravam já pelas enormes janelas da sala conferindo a tudo um tom dourado, quente, eterno.
Olhou para ela ao seu lado, ainda ali estava, diminuta naquele tapete branco.
Seria a última vez que a via.
Se ao menos tivesse adivinhado... teria perdido mais os olhos nela.
Teria encomendado à retina polaroids eternas de cada milímetro daquela pele.
Depois daquele dia nunca mais o sol roçou aquelas paredes, nunca mais o calor beijou aquele tapete.
Mandou fechar as portadas, correr as cortinas, encerrou-se num mausoléu de escuridão, para não ver a luz daquele tapete.
Aquele tapete com a silhueta dela indelével.
Viveu dias indistinguíveis, na ausência de luz.
Até que um dia acordou com um novo ímpeto.
Tomou banho, vestiu-se, preparou-se para sair,abriu as janelas do quarto, foi até à cozinha, abriu uma gaveta e tirou alguma coisa de dentro enquanto olhava para outra tarte, intocada, que a empregada deixara para ele no dia anterior.
Caminhou até à sala, deteve-se uns instantes na porta, entrou, abriu as portadas, afastou as cortinas, parou em cima do tapete, olhou para o pulso direito enquanto sentia a lâmina cortar a pele, o sangue quente escorrer pela mão, um ligeiro sabor metálico na boca.
Depois o pulso esquerdo com um pouco mais de segurança, maior rapidez, o mesmo sabor metálico a assomar-se-lhe aos lábios.
Sentiu uma vertigem, olhou para o tapete e viu as pintas de sangue que agora lhe escorria em fio dos pulsos, largou a faca e deixou-se cair.
Perdeu a consciência devagar, ao mesmo tempo que sentia o calor da pele dela naquela noite, o cheiro dela à sua volta, a boca dela por todo lado, os olhos dela como abismos.
Depois, foi todo aquele circo de luzes, de sons, de visitas de amigos com sorrisos tristes.
Tudo porque a empregada decidiu que era dia de limpar as janelas.
Assim que voltou da clínica mandou queimar o tapete.
Ah, e claro, despediu a empregada.