Sunday, April 3

a train to nowhere land

Pensar-te o dia todo.
Acordar e ainda na cama pensar-te. E tu sempre ali.
Depois no banho, tu ainda deves estar a dormir, e a água por todo o lado onde antes, num comboio, as tuas mãos.
Visto-me e tu ainda dormes.
Aí nesse sono nem me notas certamente.
No autocarro e ainda tu.
O teu nome nos muros, os teus olhos na luz que vejo reflectida do rio.
Mais tarde a tua voz oculta, já desperto, nas palavras que leio.
E quando te ouço pareces-me abstracto, entretido numa realidade que não a minha.
Eu com os meus decretos pessoais, os meus papéis definidos e o meu rosário diário.
O que trocava pelas tuas mãos como água por mim.
O que trocava pela tua voz nas minhas mãos.
Os dias devagar quando me apeteces, como pleasure delayers de um tormento que não decidi.
Ápices efémeros em que me sugestiono que te tenho, a tua memória na minha boca como água que não bebi.
Depois os outros, os seus julgamentos incipientes, as suas justificações.
E eu com vontade de te ter ali mesmo para escândalo do presentes.
Despojá-los a todos do olhar de agravo e ter-te ali mesmo.
O dia todo nesta indolência dormente.
Pensar-te o dia todo.
Voltar para casa.
O mesmo nome nos muros, os mesmos olhos nas luzes da ponte.
Querer-te encontrar onde te deixei, no mesmo sono.
Mas agora estás mais desperto que eu.
Mais tarde precisarei de um comboio para te ter.
Mais umas horas e chegas cá. Tu sempre ali.