Um dia resolveria não voltar nunca mais.
Precisava de se esquecer de tudo por ter sido esquecido.
Abandonara a sua casa, o seu trabalho, a sua vida, pela certeza de uma promessa.
Um dia, depois de uma noite voltara aquele lugar, só para divisar que ela se tinha esquecido dele.
Andou por ali algumas horas, alguns dias, não se recordava já.
Ela nunca apareceu.
Afixou cartazes, colou avisos, espalhou folhetos, lançou apelos e dela nada.
Esquecera-se dele.
Ter-se-ia enganado no dia? No mês, no ano? Na vida?
Mas persistiu por ali na esperança de a reencontrar.
Ia sentindo-se morto.
Revivia com fervor as lembranças daquela noite, a todos os momentos efémeros que tiveram.
Procurava indicíos que pudessem revelar esta ausência.
A pele dela demasiado branca à luz daquela lua.
Os olhos demasiado incisivos depois de cada resposta.
O cheiro dela no orvalho daquela madrugada.
O gosto dela na mistura das palavras, no som da distância das vozes.
Depois os momentos no parque (como é que ela agora podia ficar assim sem se lembrar dele...), a relva amassada onde os seus corpos antes.
Uma cidade que agora lhe parecia agressiva, gélida, num inverno que teimava em não findar mais.
E todos os dias a peregrinação ao lugar acertado.
Ele fenecia a cada hora.
Dentro de si ruira já a pedra angular de um castelo de ar que construira com suspiros de desespero.
Um dia resolveria não mais voltar.
Por enquanto afixava cartazes, colava avisos, espalhava folhetos, lançava apelos.
Tornou-se figura rotineira de quem por ali circulava numa azáfama que não permitia contemplações.
Uma noite, do nada, tudo lhe pareceu excessivo, impossível, inatingível.
Um dia, a seguir à noite em que resolvera nunca mais voltar, encontraram-no sentado num banco, glacial, extinto, nas mãos um folheto com o nome dela e uma imagem, gasta à custa de tanta contemplação.