Sunday, April 3

uma saída fácil...

E um dia de manhã saiu para não voltar mais.
Pegou nas poucas coisas que tinha, arrumou tudo numa mala que não tinha certeza ser sua e foi-se embora.
Escrevera de véspera um bilhete no qual dizia “ Deixo-te porque não consigo mais viver sem ti. Não me procures, não me encontrarás e mesmo que me encontres não voltarei nunca para ti.”
Deixou o bilhete na mesa-de-cabeceira junto ao livro que andava a ler.
Saiu de casa batendo a porta com vigor, quem sabe fosse ela acordar e tentar impedi-lo.
Enquanto descia as escadas sentia o coração estremecer-lhe no peito.
Tocou com fúria a campainha do 1º andar e só quando a porteira se assomou à porta ainda de camisa de noite, se apercebeu do inusitado da hora. Deixou-lhe a renda paga por 6 meses com advertência expressa de jamais incomodar a que deixara a dormir na sua cama. Dali a 6 meses ela já teria deixado a casa, conhecia-a bem de mais e sabia que nem 3 semanas aguentaria ali, só.
Desceu vagarosamente os degraus que o separavam da porta da rua.
Já com a mão na porta sentiu tremerem-lhe as pernas.
Pensou no calor da pele dela, no gosto da saliva da sua boca, no cheiro do cabelo depois de sair do banho. As pernas dela a enroscarem-se nas suas a cada noite passada juntos.
Batia-lhe o coração com raiva ao lembrar-se do desejo que sentiu da primeira vez que dormiram juntos. Dormiram só, pois ela não consentira nada mais. Um teste à resistência dele, dissera ela, para ver se a queria mesmo ou era um desejo passageiro.
Passageiro foi que ele se sentira todo aquele tempo, numa viagem em que ela ditava a todo o instante uma mudança de rumo à satisfação da sua volubilidade.
Abriu a porta do prédio, recebeu uma lufada fria. O sol ainda nem bem tinha nascido quando se dispunha a transpor a fronteira do seu prédio. Novamente invadido pela memória do calor da boca dela, do gosto da sua pele, do toque do cabelo escorrendo quando saía do banho nua, envolta numa nuvem de vapor.
Sentiu arrepiar-se-lhe a pele, tremeram-lhe as pernas e o coração bateu mais lento... precisava de fugir dali, ganhar coragem e deixá-la para trás.
Agarrou com força a maçaneta da porta. Respirou fundo, por entre os prédios o sol começava a despontar e isso deu-lhe um raiar de esperança. Num último instante, novamente o calor dela na sua pele, o gosto dela na sua boca, o cheiro dela à sua volta...
Num ímpeto, lançou-se desenfreado para a rua
Em câmara lenta olhou para o seu lado esquerdo e viu uma luz forte atingi-lo com aspereza.
A última coisa que sentiu foi o cheiro do pão quente da padaria da esquina que acabara de abrir as portas...