Sunday, April 3

uma força que magoa



Queria muitas vezes dizer-lhe que tanta força era escusada.
Que podia ser frágil, que podia precisar de colo, que ela estaria sempre ali para a apoiar em tudo.
Enfrentaram juntas a primeira decisão maior da vida de adulta dela.
Custou, doeu, fez-se, depois o alívio duro e elas sempre juntas.
Claro que ela nunca poderia saber o que aquilo significara, [ninguém poderia, NUNCA!!!] o que aquilo mudara a sua amiga.
A fragilidade dos caracóis loiros transformada na argamassa de uma muralha da China.
Parecendo que não, subrepticiamente, a amiga nunca mais foi a mesma.
Eram pequenas coisas, a seriedade num momento despropositado, a practicidade, a força para seguir caminhos que ela não soubera antecipar na amiga.
Mantinha-se forte, resistia às intempéries com a força de um Colosso de Rhodes.
Depois de algum tempo transformou-se até num farol para todos.
Mas agora, quando olhava para a amiga, não lhe via a luz da inocência, não lhe via a doçura.
Via-a carinhosa, via-a meiga, mas não lhe via a inocência dos cachos loiros e dos olhos azuis.
Crescera e tudo que a fez crescer endureceu-a.
Um dia a alegria, a felicidade maior e o brilho nos olhos da amiga a voltar.
Mas ainda assim, dentro daquele azul, uma centelha que persistia em se apagar.
Por mais que se tentasse fazer lume, por mais lenha que a fogueira tivesse, no fundo daquele mar uma centelha que teimava em se apagar a cada instante.
Adorava a amiga, era uma irmã que escolhera ao longo da vida que foram tendo juntas, era-lhe essencial, acima do tempo e da distância.
Por isso queria sempre muito dizer à amiga que tamanha força era prescindível.
Que a amiga podia quebrar-se...
Ela estaria sempre ali com a cola!
Que a amiga podia desfazer-se em água...
Ela recolheria cada gota para não se perder o mar.
Que a amiga podia soltar a raiva...
Ela estaria lá para ajudar a expulsar os demónios!
Que a amiga podia morrer um bocadinho...
Ela estaria lá com o desfibrilador para a trazer à vida!
Por enquanto oferecia colo, enchia de mimos, punha os braços à volta da amiga... talvez um pouquinho da sua dor, um pouquinho que fosse do peso que trazia nos olhos saisse com as lágrimas invisiveis que lhe banhavam o rosto desde sempre.
Porque ela adorava a amiga e pesava-lhe a certeza de não poder aquietar tamanha dor...


(para a A., que eu adoro, na esperança de um dia tudo deixar de ser tão duro)