Sunday, April 3

uma eternidade demasiado longa

A semana passada evadi-me.
Queria saber como seria a vida sem mim e decidi ir embora por uns dias.
Enquanto estivesse longe de mim imaginaria como andariam as coisas.
Perguntava-me se o porteiro ficaria admirado de não haver lixo para despejar, de não haver música a sair da minha janela ou de não ver chegar as compras que faziamos online.
Enquanto estivesse longe questionar-me-ia sobre se os caracóis dos teus cabelos já te roçavam os ombros, enquanto te passeavas nua pela minha vida, pela minha casa.
Já quase não saiamos de casa nos últimos tempos... Tu saías... sempre. Eu não saía.. quase nunca... (também para quê?! contigo aqui e com tudo que nos vêm trazer a casa já nem precisavamos de sair.)
E a luz que se te reflecte na pele terá o mesmo brilho, não estando eu aí para a ver?
Os comboios sucedem-se lá fora na rua e tu na cama, enorme com a luz a reflectir-se na tua pele( ou será o inverso? juro que às vezes já nem sei...) e eu não aí para te olhar como todos os dias.
Os caracóis já te deverão estar a chegar aos ombros de certeza...
E o porteiro, será que estranha não haver lixo?
Será que te diz "Bom dia" se te vir sair, sempre demasiado tarde para ser hora de acordar, será que te diz " Cumprimentos ao Dr. Lucas", como todos os dias, como se eu lá estivesse, como se eu fosse lá estar quando regressasses ao fim do dia para jantar.
Tu nunca fizeste jantar... nem precisavas, com a tua pele de luz e os caracóis quase pelos ombros, podias nem fazer nada, só existir já seria demasiado.
Por isso decidi evadir-me.
Vivia numa abundância que me pesava.
Como quando era pequeno e a minha mãe me mandava terminar a sopa e eu não queria mais sopa.
Ela insistia sempre com a lengalenga dos meninos que tinham fome.
Eu só pensava que não tinha culpa nenhuma que na minha casa houvesse tanta sopa e não houvesse na casa dos outros meninos e invariavelmente respondia-lhe "tão manda-lhes a minha sopa que eu não me importo" ao que ela, rendida, reagia tirando-me o prato da frente.
Eu tinha que me tirar da tua frente por isso decidi evadir-me.
Planeei cuidadosamente a minha fuga, armazenei na retina espelhos da luz reflectida na tua pele, encarreguei à memória milhares de minúsculos frascos do cheiro de jasmim de cada um dos teus caracóis, decorei com precisão cartesiana a distância exacta que ia de cada um dos teus caracóis até à pele dos teus ombros.
Depois saí cheio de cautelas uma manhã, entrei no carro estacionado em frente à porta, pus a chave na ignição e tenho estado aqui sentado desde o que me parece uma eternidade... será que já deste pela minha falta?
Estou atordoado com a dúvida.
Atormenta-me que os teus caracóis possam ter crescido desde que te deixei.
Estejam já a tocar-te os ombros nus e impeçam o reflexo da luz branca desta manhã ainda sem sol.
Atormenta-me que eu não aí esteja para ver isso.
Dói-me fisicamente tamanha incerteza.
Até que rendo.
Tiro a chave da ignição.
Volto a entrar em casa.
Tu continuas a dormir impávida.
Olho para o relógio que ainda funciona.
Afinal os teus caracóis não cresceram.
Volto a deitar-me ao teu lado e adormeço outra vez já menos atormentado.
Afinal, para mim naquele dia a eternidade demorou 5 minutos...