Se me deixasses fechava-me contigo numa sala.
Numa sala só com paredes para que nada nos distraísse do indelével prazer de nos aprender.
Decoro-te a boca com os dedos, sei-te de cor o gosto.
Com os dedos vorazes percorro-te o corpo e no percurso desnudas-me a alma.
São dias eternos que duram minutos num deleite diferido por tanto tempo à força de uma imensidão de água fria.
Despes-me com minúcia para não me perder os pedaços.
Perdes-te em cada recanto como se fosse ímpar.
A tua mão na minha nuca, a tua boca no meu pescoço, os teus olhos por todo lado e esta sala cada vez mais acanhada.
Nós a ocuparmos todo o espaço vazio até que não restava nenhum.
As tuas mãos na minha pele, a tua boca no meu ombro.
Uma precisão incontornável de nos revelarmos.
Uma eternidade demasiado lenta para tão veloz determinação.
A tua mão na minha anca, a tua língua no meu umbigo.
Esta sala cada vez mais tímida e nós cada vez menos dois, as paredes que nos encerram já demasiado frágeis para tamanha urgência.
As tuas mãos por todo lado e eu minúscula dentro de ti.
Os meus olhos nas tuas mãos, a minha boca na tua língua, as tuas mãos por todo lado e eu perdida dentro de ti.
Esta sala demasiado colossal para conter os breves milímetros que não nos uniam.
Uma urgência cada vez mais compressora.
Dois empenhos cada vez mais um corpo só, até que é impossível distinguir o fim de uma vontade e o começo de outro desejo.
Agora já me sabes o gosto, agora já te conheço a voracidade.
Ficamos até à inanição. Exaustos de uma tão longa eternidade para merecer nada menos que tudo que nos consumira durante tão intensa espera.
A sala voltou ao seu tamanho real. O mundo fora dela suspirou de alívio ao se ver poupado à devastação que lhe pressagiáramos.
A acalmia de uma curiosidade mitigada... pelo menos até me incendiares novamente a intemperança... ai de novo uma sala vazia demasiado acanhada para nos conter...