Lera uma vez um escritor que achando-se certa vez prolífico de palavras enquanto numa linha de caixa de hipermercado se vira forçado a optar entre uma caixa de tampax e um pacote de leite à falta de outro suporte onde registar as ideias que naquele momento lhe acorriam qual compradores vorazes em dia de liquidação.
Lembrara-se disto enquanto descascava a laranja que sempre comia ao pequeno-almoço.
Passava pouco das 8h e ainda não estava atrasado como iria ficar quando terminasse de se arranjar naquela manhã.
Não se importava de facto, não eram todas os dias que tinham aquela importância, pensou enquanto saboreava cada gomo acre e imaginava o tal escritor aflito com a ideia de perder uma só palavra da torrente que se lhe abrira na mente.
Às vezes perder uma palavra que seja pode significar o fim de tudo. O fim de alguma coisa que não chegou sequer a começar pensou..
Enquanto isto, terminou a laranja, lavou bem as mãos após colocar a tigela na máquina.
Voltou para o quarto e reparou que ainda dormia.
Na casa de banho abriu a água do duche. Gostava de deixar correr um bom bocado antes ainda de se decidir a entrar.
Reentrou no quarto e o mesmo silêncio só cortado por uma pausada e indolente respiração.
Queria ter coragem de fazer ruído, queria que o maldito gato dela entrasse e a fizesse acordar.
Mas nada, só o ruído abafado do duche.
Assim que sentiu a água quente penetrar-lhe a pele teve a impressão de já não estar ali.
A água sempre tivera o privilégio de o alhear de tudo. Como uma capa impermeável que repelia o mundo exterior.
Ficava sempre até que a pele dos dedos se enrugava e só ai ganhava coragem para largar a segurança daquele torpor líquido.
Secou-se com a toalha dela da véspera, não tinha outra mais perto e aquele não lhe pareceu momento para ser tão esquisito.
Enrolado nela fez cuidadosamente a barba e reparou na quantidade de coisas que ela tinha espalhadas pelo chão, pelos armários, pelo lavatório, no fundo pela casa toda, pela vida dele toda.
Veio-lhe novamente à ideia o escritor da fila do hipermercado, já com as ideias eternizadas na caixa de tampax, no pacote de leite, a explicar ao editor a ordem daqueles pensamentos em tão inadequado suporte.
Entrou no quarto e começou a vestir-se.
Sentiu-a mexer na cama e viu-lhe os caracóis desenhar uma mancha escarlate no lençol branco.
Sentiu voltar-lhe a esperança ao imaginar que iria acordar mas de imediato o quarto voltou ao silêncio que a respiração pausada dela impunha.
Terminou de se vestir, escolheu o fato azul-escuro e a gravata turquesa que ela lhe oferecera a semana passada e que -“ vira numa montra na 5th e era a cara dele”- se bem que ele não se lembrava de gostar especialmente de turquesa.
Viu o gato entrar no quarto e quase suspirou de alívio enquanto o via contornar a cama e pensava que era agora que tudo terminava, que ela iria acordar de certeza.
Mas o gato não saltou para a cama – de facto sempre detestara aquele gato – e aninhou-se na chaise longue onde ela o costumava esperar aos sábados enquanto ele preparava o pequeno-almoço.
Mas naquele fim de semana não tinha havido pequeno almoço de sábado – “querido, tenho que ficar mais esta noite, o tempo está horrível e tu sabes como detestas que eu conduza de noite”- dissera ela rapidamente ao telefone.
Não, naquele fim-de-semana nada tinha sido habitual.
Quando ela voltou no sábado já ele tinha saído para correr.
Quando ela voltou no sábado ele já tinha aberto a caixa vermelha no armário deles quando procurava um sítio para esconder o anel que lhe tinha comprado.
Quando ela voltou no sábado já ele tinha lido as cartas, cheias de palavras perdidas para outros olhos que não os dele.
Não se viram naquele sábado, falaram brevemente ao telefone, ela desculpando-se pelo desencontro com palavras inúteis, ele dizendo que não conseguia perceber nada, dizendo que as palavras dela se estavam a perder.
Domingo era o dia que tinham cada uma para si e ele voltara a sair cedo enquanto ela dormia ainda.
Voltou à noite resolvido a esclarecer as coisas, abrir a caixa e deixar sair as palavras, mas quando chegou encontrou apenas um bilhete que anunciava um jantar inadiável com umas amigas e a promessa de voltar cedo.
Deitou-se às 2h sem que ela tivesse chegado e por esta altura tinha já a decisão tomada.
Enquanto tudo isto se lhe repetia na mente terminara de se vestir, colocando os botões de punho que foram do seu avô.
Antes de sair do quarto olhou novamente para ela, parecia-lhe tão inocente, tão livre de culpa.
Pegou na caixa vermelha do armário e trouxe-a para a sala, pousando-a na mesa grande.
Colocou-lhe em cima o envelope que tinha o bilhete que acompanhava o anel que ia dar-lhe no sábado e a nota que acrescentara no domingo à noite.
Olhou de novo para a porta do quarto na expectativa de algum ruído mas nada.
Viu as horas, passava já da 9h e estava claramente atrasado para a reunião de administração que presidia naquela manhã.
O sol reflectia-se já nos arranha-céus à sua frente e enchia a sala de uma luz liquida, quente e acolhedora.
Abriu as portadas de vidro da varanda ao mesmo tempo que ouvia o gato miar ao entrar na sala.
Olhou para trás uns segundos, deteve-se na caixa vermelha um instante, reparou num barco fumegante no Hudson enquanto voltava novamente a cabeça.
No instante em que caía do 74º andar e começava a sentir o vento forte na cara, lembrou-se da pena de não ter chegado a acabar o livro daquele escritor com pânico de perder as palavras.